O Discurso Publicitário: Uma Análise Crítica
Por Fred Tavares
18/04/2008
Deve-se, preliminarmente, definir o conceito de publicidade para a adequada
compreensão do termo, tendo em vista o tema a ser investigado neste ensaio, que
é uma breve análise crítica da ordem do discurso publicitário.
A publicidade é uma mensagem paga veiculada nos meios de comunicação (mídia) com
objetivo de se vender um produto ou serviço, sob a forma de uma marca comercial,
para um público-alvo (consumidor) utilizando-se recursos lingüísticos e
estilísticos de ordenação, persuasão e sedução através de apelos racionais e
emocionais.
Toda a estrutura publicitária sustenta uma argumentação icônico-lingüística que
leva o consumidor a convencer-se consciente ou inconscientemente. Tem a forma de
diálogo, mas possui uma relação assimétrica, na qual o emissor, embora use o
imperativo, transmite uma expressão alheia a si própria. O verdadeiro emissor
permanece ausente do circuito da fala; o receptor, contudo, é atingido pela
atenção desse emissor em relação ao objeto.
Organizada de forma diferente das demais mensagens, a publicidade impõe, nas
linhas e entrelinhas, valores, mitos, ideais e outras elaborações simbólicas,
utilizando os recursos próprios da língua que lhe serve de veículo, sejam eles
fonéticos, léxico-semânticos ou morfossintáticos.
Considerando seu método discursivo, a estrutura persuasiva do texto publicitário
está baseada em princípios estabelecidos por Aristóteles há mais de 2 mil anos
na retórica. São eles: o apelo à emoção, o oferecimento da prova e o apelo à
credibilidade do comunicador.
Vamos a eles:
O apelo à emoção, na verdade, é um apelo por valores, aquilo que os consumidores
valorizam e que estão procurando nos produtos. O oferecimento de provas é uma
afirmação das razões ou evidências de por que o produto fará os benefícios que
promete; é uma afirmação das características do produto. O apelo à credibilidade
do comunicador é um apelo à honestidade e à integridade do anunciante. Por que
alguém deveria acreditar no que o anunciante disse nos dois primeiros passos do
processo de persuasão? Isto inclui referências à longevidade do anunciante e o
uso de testemunhos e endossos de especialistas.
Portanto, o discurso publicitário se baseia em um princípio aristotélico que é
fundado sob as retóricas emocional, racional e institucional. É concebido
através de um simulacro social, no qual não apenas espelha o real, mas
fabrica-o; sua narrativa constrói práticas sociais e culturais com formas
lingüísticas cotidianizadas e com um discurso do senso comum (naturalização). É,
sem nenhuma dúvida, uma forma de dominação simbólica a serviço da ideologia do
consumo.
O discurso está presente na publicidade como retórica argumentativa persuasiva e
manipuladora sob as formas textual e lingüística, produzido, distribuído e
consumido através de um contexto, sendo constituído por fatos socioculturais, e
cuja produção de sentido se faz através de um senso comum compartilhado, ou
seja, cognoscível entre as partes.
A mensagem publicitária se constrói através da integração da linguagem verbal e
não-verbal, utilizando-se de palavras e imagens com consciência lingüística,
que, combinadas, produzem sentido pois, fundamentalmente, são elaboradas através
de um senso comum carregado de valores e representações sociais, culturais,
estéticas e políticas, que estão em consonância com a capacidade cognitiva
interpretativa de um determinado receptor.
A ideologia do seu discurso está pautada na idéia de que a lógica do consumo é
socialmente bem vista. Os anúncios publicitários enfatizam, magicamente, o
sentido de um poder que se legitima pela ordem de um espetáculo, no qual o
receptor tem um papel e um script a seguir, que é o de ser consumidor
(identidade) em um contexto de consumo como um enunciado de pertencimento,
idolatria, controle e aceitação social.
O sujeito é socialmente aceito porque compra. E o social, por sua vez, produz
essa subjetividade por intermédio do consumo. Nesse jogo de regulação, o social
também é constituído pelo sujeito, com as suas pulsões individuais, e
vice-versa, ou seja, a publicidade discursa para um sujeito que constitui e é
constituído pelo social. Tomando-se a psicossociologia como argumento,
observa-se que o discurso publicitário manipula o indivíduo e o coletivo através
da narrativa da fábula e da fantasia como alegorias de uma retórica
publicitarizada.
O discurso publicitário fetichiza as mercadorias (objetos), que são
transformadas em marcas de sedução, através de um apelo psicossociológico, visto
que a mensagem se dirige a um sujeito psíquico (dotado de pulsões, de afetos,
defesas e projeções, identificações e desejos, constituinte do social que o
constitui) e social (de uma cultura, de um contexto sócio-histórico, com valores
de pertencimento e aceitação, um indivíduo que vive no coletivo e busca se
representar).
A publicidade produz e agencia valores, saberes e naturaliza os desejos de
consumo, tornando-os necessidades básicas, simbolizando-os através da ideologia
de aceitação e pertencimento, compartilhada por todos como um ideal de
existência. Para "ser" é preciso ter; consumir o que a publicidade afirma como o
que é certo.
A publicidade conota a idéia de um mundo melhor. Utilizando-se do pensamento da
Indústria Cultural, através do processo da dialética, o que está dentro da
publicidade é bom, mas o que está fora não. Ou seja, domina o imaginário com um
discurso que o consumo insere socialmente o sujeito, mas quem não o tem (e não
pode) é marginalizado.
Afinal, ser cidadão é portar a identidade de consumidor. Para tal efeito, o
discurso publicitário tem um papel estratégico nessa produção de sentido. Isto
porque, o discurso publicitário é extremamente politizado como uma forma de
controle social.
O discurso publicitário transforma o social; a ideologia e a hegemonia fazem
parte da produção simbólica de sentido, na qual se mitologiza os sonhos, os
desejos e as frustrações que estão presentes no imaginário coletivo. Uma forma
perversa de construção semiótica é trabalhar o discurso, através de elementos já
constituídos na percepção do público, utilizando-se fragmentos discursivos
anteriores (intertextualidade) para que a mensagem chague mais fácil à mente dos
consumidores, de forma natural e, ao mesmo tempo, espetacular.
A publicidade legitima o modelo atual da vida dominante da sociedade que é ter o
consumo como linguagem de inserção social.