Eles Venceram - Mas Tinham Tudo Para Dar Errado
Por Inácia Soares
14/08/2009
Todo mundo gosta de ouvir histórias de sucesso. Conhecer a trajetória de
pessoas que começaram do nada e construíram grande patrimônio é sempre
empolgante. Neste artigo eu resolvi satisfazer o desejo dos meus
leitores, mas de uma forma diferente. No lugar de contar a histórias
quase inacreditáveis, resolvi falar de empreendedores que, mesmo
bem-sucedidos, podem passar por pessoas anônimas.
Todo empresário de sucesso diz que venceu na vida porque foi
determinado. Ou seja, não é ter a melhor idéia que conta mais, mas
insistir nela. Eu mesma conheço muitas pessoas que, sentadas em uma mesa
de bar têm sugestões maravilhosas sobre todos os assuntos, mas que ficam
somente nisso. Da idéia à realização existe uma grande distância e por
isso tanta gente desiste no caminho. Não é fácil realizar uma grande
idéia, ainda que ela seja mesmo muito boa. O processo de execução exige
cuidados e correções que costumam levar embora o entusiasmo inicial, mas
não foi o que aconteceu com Wilson Fernandes Silva e Aguinaldo Alves
Ribeiro, meus personagens.
Wilson Fernandes da Silva nasceu em família humilde, em cidade pequena e
tinha tudo para repetir esse legado, mas surpreendeu a família e a
cidade. Na infância, via a mãe fazendo milagres para alimentar os 11
filhos. Órfão de pai desde bebê, ele ignorou tudo isso e construiu seu
futuro. Dos estudos, só levou o diploma da quarta série, e com ele nas
mãos, se atirou ao trabalho. De manhã, vendia jornais, e faturava bem,
de tão simpático e ligeiro. Guardava a comissão no bolso e ia para a
feira comprar laranjas. Na parte da tarde, andava pelas ruas vendendo as
frutas. Mais dinheiro para a caixinha. E assim, Wilson Fernandes ia
cuidando da mãe doente. Depois, vieram os 11 filhos do casamento que já
dura 52 anos. Uma vida sofrida, e igual a tantas outras, mas diferente
na determinação. “Sou muito feliz e realizado. Parece que tenho uma
proteção divina. Deus me protege mesmo”, comenta sorrindo, e lembra
quando foi eletricista de uma mina e levou um choque. Ficou quatro dias
em coma e só não morreu porque Deus não quis, garante ele. Do episódio,
resta o braço direito atrofiado. Mesmo aposentado por invalidez, não
parou de trabalhar e ainda fez mais do que a maioria das pessoas
saudáveis, que somente sonha. Ele levou os 11 filhos até a faculdade e
garantiu um imóvel para cada um. Todos moram na cidade de Nova Lima, a
20 quilômetros de Belo Horizonte. Quando se junta aos filhos e aos 20
netos, todos saudáveis, o vovô de 74 anos fica com os olhos cheios de
lágrimas, principalmente, por saber que a missão foi cumprida no comando
de um carrinho de pipoca. Somente um e não uma frota. Esse foi o
ganha-pão do Tio Wilson, apelido carinhoso que ganhou na cidade.
Trabalhando sete dias por semana, o pipoqueiro mais famoso das
redondezas conquistou clientela fiel e exigente. Qual a receita da
pipoca? Milho bem catado, óleo de soja, uma pitada de sal e simpatia. E
nas finanças, a receita é poupar. “Eu sempre guardei 10% de tudo o que
eu ganhei”, assegura. Eis a história do homem que garantiu a educação de
11 filhos e casa própria para todos apenas vendendo pipoca. E você ainda
acha que é preciso ter uma grande empresa para ter um grande sucesso?
A trajetória de Aguinaldo Alves Ribeiro também é empolgante. Ele mora em
Patos de Minas, a 417 quilômetros da capital. Aos 49 anos, se orgulha de
tudo o que viveu. Tempos bons e ruins. Entre 13 irmãos, a vida nunca foi
fácil, e Aguinaldo foi o único que jogou por terra o peso da pobreza. Só
estudou até o quarto ano, pois trabalhar era a saída para sobreviver.
Sempre de olho em algum jeito de ganhar mais, foi balconista de loja e
vendedor ambulante. Chegou a montar um comércio de alho em cartela, até
que a concorrência incomodou demais. Com a ajuda de amigos comprou
algumas cabeças de gado, mas a venda do leite não justificava os custos
e ele partiu para a horticultura, com esperança renovada. Plantou
repolho, beterraba e tomate. Era o início do Plano Real e a saca de 30
quilos de repolho, que rendia R$ 10, não demorou a cair para R$ 1,5
desandando o negócio e criando dívidas. Em uma das idas à capital para
vender a produção, viu um vendedor de pamonhas acabar com o estoque em
poucos minutos diante de consumidores encantados. Aguinaldo Ribeiro
voltou pra casa determinado a fabricar pamonha. Com a ajuda da esposa,
passou semanas tentando acertar o tempero e o cozimento. No começo,
dependia de milho terceirizado, mas dois anos depois passou a plantar a
matéria-prima na própria fazenda garantindo a qualidade que o
transformou no Rei da Pamonha na região do Triângulo Mineiro e Alto
Paranaíba. O patrimônio aumentou, levando conforto e segurança à
família. Hoje, Aguinaldo tem 45 funcionários e produz cerca de 800
pamonhas frescas de 250 gramas por dia e se orgulha da independência
financeira que conquistou. “Nunca fiz empréstimo. Tudo o que eu tenho
foi com dinheiro próprio”, diz orgulhoso. E a fama desse ex-vendedor de
laranja vai longe. Ele acaba de receber a proposta de uma grande rede de
supermercados para fabricar pamonhas com exclusividade. A oportunidade
assusta, pois Aguinaldo está comprovando o sucesso que nem ele mesmo se
dava conta de ter conquistado: “Sou uma pessoa muito simples. Quando
estou no meio dos meus funcionários ninguém sabe quem sou eu”. E para
esse homem do campo, sucesso é surpreender o passado, mudando o trajeto
do menino que nasceu pobre. A próxima parada desse empreendedor?
Conhecer Nova York e colocar a Time Square junto aos cartões postais das
cidades brasileiras que ele e a família já visitaram. Mas talvez antes
disso, a pamonha do Aguinaldo chegue ao supermercado ao lado da sua
casa, seja lá onde você estiver.
Inácia Soares, jornalista e apresentadora do programa Mesa de Negócios,
o mais antigo da TV mineira, exibido na TV Horizonte, professora do MBA
Pitágoras, palestrante e coautora dos livros “Emoção, conflito e poder
nas organizações” (Editora Com Arte/2009) e “Do Porteiro ao presidente”
(Editora Com Arte/2009).
inaciasoares@mesadenegocios.com.br