Capítulo 4 – Lideranças
conquistadas de forma
nefasta ou cruel
Existe outra forma de
conquistar um cargo de
liderança que não seja por
valor próprio, por sorte ou
por ajuda de terceiros.
Trata-se de quando, por atos
nefastos, se chega à
liderança. Esta forma de
conquistar o poder dentro
das organizações é mais
comum do que se admite
abertamente, tanto em
empresas públicas quanto nas
organizações privadas. Nas
grandes e pequenas
corporações encontramos
exemplos freqüentes de
lideres que, para conquistar
cargos de chefia, empregaram
expedientes dos quais não se
podem orgulhar.
Maquiavel abordou este
assunto mostrando que ao
longo da historia muitos
governantes utilizaram da
crueldade e malvadeza para
conquistar cargos e,
passados mais de cinco
séculos da publicação de “O
Príncipe”, percebemos que,
apesar da evolução de nossa
civilização, a natureza
humana permanece a mesma com
relação à luta pelo poder.
Nos dias atuais continuamos
assistindo a golpes de
estado e à tomada do poder
de forma cruel e violenta em
muitos paises da América
Latina, África e em outras
regiões do mundo.
Há poucos dias presenciamos
o assassinato da líder
paquistanesa Benazir Bhuto,
que liderava as pesquisas
para as próximas eleições em
seu país. Este fato nos
mostra que ainda é muito
presente em nossa sociedade
a utilização de meios
nefastos para a conquista do
poder.
Nas organizações
empresariais, nacionais e
multinacionais, nos
departamentos de governos e
nas empresas públicas também
ocorre, com uma freqüência
maior do que a admitida
publicamente, a utilização
de comportamentos
inadequados e escusos na
luta por cargos de chefia.
Um bom exemplo é a famosa
disputa pelo poder ocorrida
no final dos anos 70, em que
o então presidente da Ford
Motor Company, Henry Ford
II, neto do fundador da Ford
e presidente do conselho,
engendrou contra o então
presidente executivo da
empresa, o lendário Lee
Iacocca. Posteriormente
Iacocca se tornou presidente
da Chrysler, salvando esta
empresa da falência.
Em sua autobiografia,
Iacocca relata um processo
de anos de perseguição de
Henry Ford II contra ele,
que culminou numa ação de
investigação. Esta ação
consumiu centenas de
milhares de dólares,
desgastes para a companhia e
terminou com a demissão de
Lee Iacocca e, na seqüência,
com a aposentadoria forçada
do próprio Henry Ford II.
Recentemente, outro
escândalo que teve
repercussões internacionais
foi a disputa entre Carly
Fiorina, ex-mulher mais
poderosa do mundo dos
negócios e ex-presidente da
Hewlett-Packard (HP),
bilionária empresa de
tecnologia, e dois
ex-membros do conselho de
administração, Jay Keyworth
e Tom Perkins, que foi parar
nas páginas do Wall Street
Journal.
A ex-presidente da HP
publicou uma biografia
explosiva, denunciando as
perseguições sofridas por
parte dos ex-diretores da
empresa, onde revela os
processos de intrigas que
envenenaram a elite desta
grande corporação americana.
Estes exemplos nos mostram
que muitos cargos nas
empresas são conquistados de
forma nefasta e, neste caso,
o líder que estiver
envolvido neste tipo de
disputa terá de compreender
a natureza de seu poder, e
saber agir de maneira
adequada para superar as
dificuldades inerentes a
esta situação.
Observemos o que diz
Maquiavel:
“Por isso é de notar-se que,
ao ocupar um Estado, deve o
conquistador
exercer todas aquelas
ofensas que se lhe tornem
necessárias, fazendo-
as todas a um tempo só para
não precisar renová-las a
cada dia e
poder, assim, dar segurança
aos homens e conquistá-los
com benefícios,
Quem age diversamente, ou
por timidez ou por mau
conselho, tem sempre
necessidade de conservar o
punhal na mão, não podendo
nunca confiar em
seus súditos, pois que estes
nele também não podem ter
confiança
diante das novas e contínuas
injúrias. Portanto, as
ofensas devem ser
feitas todas de uma só vez,
a fim de que, pouco
degustadas, ofendam
menos, ao passo que os
benefícios devem ser feitos
aos poucos, para
que sejam melhor apreciados.
Acima de tudo, um príncipe
deve viver com
seus súditos de modo que
nenhum acidente, bom ou mau,
o faça variar:
porque, surgindo pelos
tempos adversos a
necessidade, não estarás em
tempo de fazer o mal, e o
bem que tu fizeres não te
será útil eis que,
julgado forçado, não trará
gratidão”.
Uma vez passado o momento da
disputa pelo poder dentro
das organizações, o novo
líder deve se abster de
continuar praticando os atos
nefastos que o fizeram
conquistar o cargo, pois
segundo o pensamento de
Maquiavel e em suas próprias
palavras:
“Faça o mal de uma vez e o
bem aos pouco. O
conquistador deve
examinar todas as ofensas
que precisa fazer, para
perpetuá-las todas
de uma só vez e não ter que
renová-las todos os dias.
Não as
repetindo, pode incutir
confiança nos homens e
ganhar seu apoio
através de benefícios. (...)
enquanto os benefícios devem
ser feitos pouco
a pouco, para serem melhor
apreciados”.
Alertamos ao líder que se
viu envolvido em uma disputa
pelo poder e foi forçado,
por sua própria natureza
“perversa” ou pelas
circunstancias, a perpetrar
atos cruéis contra outros
profissionais na conquista
do cargo que, para se manter
no mesmo, precisará mudar
sua conduta, pois a
manutenção de tal
comportamento poderá agravar
a reação contra si e, a
médio e longo prazo,
provocarão sua ruína.
Neste estudo sobre a
liderança, segundo o
pensamento de Maquiavel,
devemos analisar as
organizações conforme a
realidade dos fatos, e não
de acordo com o “mundo
perfeito” descrito por
muitos autores que de certa
forma apresentam situações
organizacionais que na
prática, não existem.
Não pretendemos fazer
considerações morais, pois
para fazê-las precisaríamos
conhecer o contexto de cada
situação e julgar os
procedimentos éticos dos
lideres que assumiram cargos
a partir de disputas onde
ocorreram atos de crueldade,
perseguições e
comportamentos inadequados
de parte a parte.
Acreditamos que o estudo
sobre a liderança conforme a
presente abordagem será útil
aos profissionais na
consolidação de seu poder
nas empresas, e
especialmente às
organizações para entender
melhor a natureza das
pessoas e com isto criar
sistemas e controles
gerenciais que possam
prevenir situações
indesejáveis e abusos que
prejudiquem estas
organizações.
Ari Lima é
empresário, engenheiro,
consultor em marketing
pessoal e gestão de
carreiras e especialista em
marketing e vendas.
Desenvolve treinamento em
marketing pessoal e
marketing jurídico para
profissionais liberais,
empresas, escritórios e
estudantes universitários.
Ministra cursos, seminários
e palestras realçando o lado
prático e funcional do
marketing e escreve artigos
diariamente para diversos
sites e revistas. Além de
uma sólida formação teórica,
possui 25 anos de
experiência prática em
gerenciamento e treinamento
de vendedores e de gerentes
de vendas, bem como
atendimento a clientes.

