O Modelo Toyota, Redução de Custos e os Defeitos
Por Prof. Alfredo Passos
18/02/2010

Um dos pilares da indústria japonesa vive o abalo de seu sistema de “produção enxuta.” O maior fabricante de carros do mundo, agora terá que conviver com as questões de imagem da marca, reputação da empresa e de seus produtos.

A Toyota está sendo a parte mais visível desta questão, mas não é a única com “defeitos” na produção de produtos, ou como estamos nos acostumando “recall” de produtos.

Analistas disseram ao The Wall Street Journal em Tóquio, que o foco incansável do Japão nos últimos anos em cortes de custos – em meio à recessão e à deflação – também teve um papel no aumento dos defeitos.

Um aspecto da nascente ciência de administração da cadeia de suprimentos é o compartilhamento de peças em várias linhas de produção, para obter preços melhores com a compra no atacado.

Mas isso cria o risco de uma peça defeituosa causar problema não apenas em um produto, mas em várias linhas.

O exemplo mais crítico hoje é o da Toyota. Em recente entrevista de seu presidente a televisão japonesa NHK, Akio Toyoda disse "Sentimos muitíssimo por termos provocado essa desagradável situação aos clientes."

Neste final de janeiro de 2010, a Toyota contabilizou que até 1,8 milhões de veículos serão retirados das ruas na Europa, chegando a quase 8 milhões o número mundial, mais que suas vendas do ano de 2009, que chegaram a 7,8 milhões de veículos.

Nos Estados Unidos foram convocados pela empresa 2,3 milhões de proprietários, para solucionar um defeito no acelerador, produzido por um fornecedor canadense. O defeito envolve oito modelos Toyota, entre os quais; Camry e Corolla, os dois sedã mais vendidos no mercado americano.

O Modelo Toyota

Em O Modelo Toyota, Jeffrey K. Liker apresenta 14 princípios de gestão do “maior fabricante do mundo,” e a conhecida “arma secreta,” a produção enxuta. Segundo o autor, O Modelo Toyota pode ser sintetizado pelos dois pilares que o sustentam: melhoria contínua e respeito pelas pessoas.

A melhoria contínua (kaizen), define a abordagem básica da Toyota nos negócios. Desafia tudo. Por sua vez, o respeito pelas pessoas é demonstrado na promoção da segurança no emprego e procurando engajar os membros de sua equipe através da participação ativa no aperfeiçoamento de seu trabalho.

As origens históricas dos princípios básicos de construção do Sistema Toyota de Produção, encontram-se enraizadas nas obras teóricas de Shigeo Shingo e Taiicho Ohno (publicadas pela Bookman Editora no Brasil).

Dentre os princípios, os métodos e as técnicas do Sistema Toyota de Produção, encontram-se:

* Just-In-Time
* Just-In-Time/TQC
* Sistema de Produção Enxuta (Lean Production)
* Kanban
* O Sistema Ohno
* Produção com Inventário Minimizado (nomenclatura adotada pela Hewllet-Packard)
* MAN (Material As Needed – Material de Acordo com o Necessário – adotado pela Harley Davidson
* SPIM (Sistema de Produção com Inventário Minimizado – do livro de J.T.Black, publicado pela Bookman – O Projeto da Fábrica com Futuro)
* TBM (Time Based Management)
* Construção Enxuta

Na apresentação de “O Modelo Toyota” – José Antonio Valle Antunes Júnior e Marcelo Klippel, comentam que os 14 princípios gerenciais básicos, são provenientes de quatro óticas básicas:

1. Sua filosofia de longo prazo
2. A definição dos processos certos que permitem alcançar os resultados corretos
3. A adição contínua e sistemática de valor na organização a partir do desenvolvimento de pessoas e de parcerias
4. O direcionamento da organização para resolver problemas e aprender de forma contínua e sistemática.

Uma nova lei no Japão e aparecem os defeitos

Segundo The Wall Street Journal, o número de incidentes aumentou muito depois que foi promulgada uma nova lei (2007) que obriga (pela primeira vez) as empresas japonesas a relatar todos os acidentes com seus produtos que resultarem em morte ou ferimentos graves.

Antes a empresa decidia se divulgava ou não.

Mas outra questão é colocada pelo WSJ: será que o declínio na qualidade da indústria japonesa diante da busca por meios de cortar custos e concorrer em nível mundial, não é a causa?

A fonte de orgulho nacional “monozukuri” (fazer coisas) é o sucesso das maiores empresas japonesas, no pós-guerra, como Toyota, Sony e Panasonic.

Segundo o Ministério dos Transportes do Japão, o número de carros japoneses com problemas de fábrica corrigidos, de 2004 a 2008, foi o dobro do período anterior.

Ainda, segundo o Ministério da Economia, Comércio e Indústria do Japão, o número de recalls relacionados a problemas de segurança em produtos locais, sem contar carros, alimentos e remédios, subiu para 189 no ano fiscal encerrado em 31 de março de 2009, alta de mais de 80%, frente a três anos.

Outras empresas

A Sharp também anunciou na última semana de janeiro, que irá recolher quase 1 milhão de geladeiras de 48 modelos vendidos de 1996 a 2001, por causa de quatro incidentes em que a porta caiu quando objetos ficaram enganchados nela.

Em 2007, a Matsushita Electric Industrial Co., atual Panasonic, retirou das prateleiras 3 milhões de fornos de microondas, secadoras de roupas e geladeiras porque todos os produtos tinham as mesmas peças eletrônicas com mesmo defeito: podiam superaquecer.
Para o brasileiro Carlos Ghosn, diretor-presidente da Nissan e Renault “os concorrentes podem ganhar com os problemas da Toyota.”

*Alfredo Passos, http://twitter.com/apassoskmc, Partner da Knowledge Managment Company e Professor do Programa Intensivo em Inteligencia Competitiva da ESPM. Colunista do Portal Administradores.com.br

Fontes:

* Daisuke Wakabayashi, Miho Inada e Yuka Hayashi, The Wall Street Journal, de Tóquio, Valor Economico 29,30 e 31 de janeiro de 2010.
* Veja, edição 2150, 3 de fevereiro, 2010
* LIKER, Jeffrey K. O Modelo Toyota: 14 princípios de gestão do maior fabricante do mundo. Porto Alegre: Bookman, 2005.

Alfredo Passos é Professor ESPM e Partner KMC – Knowledge Management Company - 11 5087-8857 - E-mail: apassos@espm.br
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