A Nova Era do Consumo
Por Luís Sérgio Lico
02/02/2010
Acabamos de ultrapassar a primeira década do século XXI, e com ela, deixamos
para trás uma série de paradigmas e velhos modelos sobre como pensar as relações
de consumo. Desde que surgiram as chamadas escolas de administração científica
e, posteriormente os hits estratégicos, econométricos, demográficos e
estatísticos do marketing tradicional, muita coisa mudou. Agora, qualquer
criança faz swot na escola e muitos sequer sabem algo do passado. O pensamento
estruturalista deu seu canto do cisne e o controle foge dos planos quinquenais
das mega corporações, muitas delas, aliás, em crise de identidade e à beira da
falência por incompetência, arrogância e falta de visão. Mas, não é preciso
chorar, já vai tarde esta via superada de gestão.
O que isso quer dizer? Simples, todo o arcabouço teórico da velha guarda estava
baseado em criação e repetição de padrões, e mesmo os organismos internacionais
de certificação, ainda não se livraram deste ranço processual que é o
estabelecimento e culto ao padrão. Naturalmente, em uma organização a
padronização gera otimização e melhoria, em alguns segmentos de sua atuação, mas
isto não é válido para a ponta do consumo. Para a parte que adquire o que é
feito por nossas empresas, a era do padrão está ultrapassada, pois cada vez mais
estamos querendo coisas singulares, exclusivas ou com um diferencial de
funcionalidade e/ou design que não cabe na velha aritmética do padrão. Estamos
anunciando aqui, uma fratura nestas relações.
Como cultura de consumo, nós estamos nos fragmentando em relação às nossas
preferências, exigindo detalhes que não constam do lay-out original, tunando
carros, customizando chocolates com mais cacau, pedindo mais interatividade em
mecanismos simples, recusando marcas líderes porque a embalagem não é prática,
desconfiando dos anúncios e das promessas dos produtos, ligamos para call
centers e despejamos nossa fúria pela indiferença dos fabricantes ou porque a
promessa não foi entregue. Cansamos de ofertas especiais, onde pagamos um preço
maior, das plaquinhas dos supermercados anunciando descontos que não são reais
perceptíveis (semana passada estava mais barato ou ou preço é só para 100
gramas), enfim cansamos de ser joguete dos preços médios e estratégias de
fidelização e queremos agora só consumir o que nos agrada.
Assim, a variedade, o sortimento, produtos e serviços únicos permite oferecer o
que as pessoas realmente estão precisando; necessidades únicas que não são
criadas artificialmente para depois uma marca vir as satisfazer, mas são
decorrentes do novo estilo de vida e modelo de consumo que está se delineando.
Estamos vendendo o quê? É preciso ter em mente que estamos vendendo em uma era
de abundância (e não de escassez, por isso o apelo da urgência é cada vez mais
fraco. O que importa é a vontade). É claro que design e utilidade também são
atributos, entretanto buscamos agora saber como o produto foi feito, qual sua
relação interna com o supply chain, se agride ou não o meio ambiente, se tem ou
não corante ou se o comércio foi leal ou prejudicou alguém. Não basta mais o
totem eletrônico a nos falar, como em THX 1138.
Também não mais importa somente a lógica de mercado, ou estudos sobre demanda. O
horizonte de eventos que se anuncia dá conta de modificações extremas na maneira
de consumir. E a migração não é drástica (ou eles acordariam logo), mas lenta e
gradual, corroendo o faturamento e dando trabalho para os penseiros de plantão
chutarem seus prognósticos. É uma questão importante saber quais os sub nichos,
quartas vias e camadas podem ser visualizadas, pois a realidade desta nova
década será a da customização, do diferencial por identidade e estratos. Teremos
que aprender a ler em documentos várias vezes reescritos e não apenas ditar
regras, baseadas em classes de consumo. O que vale agora é vontade e
representação, o que significa dizer que os enigmas não podem ser mais
solucionados pelas planilhas, apenas pela satisfação.
Luís Sérgio Lico é Palestrante e Conselheiro Organizacional. Mestre em Filosofia e Especialista em Gestão do Comportamento. Autor dos Livros: O Profissional Invisível e Fator Humano. www.consultivelabs.com.br