A Pirâmide do Consumo - Esqueça os Faraós e Mire nos Plebeus
Por Inácia Soares
14/08/2009
Perguntaram a uma doméstica paulista o que ela mudaria na casa da
patroa, caso tivesse a mesma renda mensal que ela. O cardápio, respondeu
rápido. Segundo a doméstica, os patrões comiam muito mal. Salada e
grelhado não eram sinal de boa alimentação. Na própria casa, completou a
doméstica, havia fartura de arroz, feijão, macarrão, carne e salada.
Esse episódio retrata os levantamentos feitos por uma pesquisa realizada
em sete capitais pelo publicitário paulista Renato Meirelles, da Avenida
Brasil Comunicação. “Quando a pessoa mais simples recebe alguém em casa
e não sobra comida, é porque faltou na dispensa”, garante ele,
explicando o desejo de ter fartura, comum nas classes de baixa renda.
Especializado em colher e analisar informações de consumo de pessoas de
baixa renda, Meirelles afirma que há uma grande distância entre os
hábitos da classe média e de quem está nas classes C, D e E. Segundo
ele, uma das maiores lojas brasileiras de móveis populares tem no sofá
vermelho o produto predileto dos clientes, enquanto as lojas mais
sofisticadas de decoração apostam nas cores neutras para atrair clientes
A e B. “As cores primárias como o vermelho, azul e verde são a
identificação cultural do brasileiro”, diz o publicitário. A falta de
recursos para trocar de móveis como fazem os mais abastados sempre que
enjoam do estilo da casa, fez o público de baixa renda criar um novo
hábito: pintar a casa para ter a impressão de uma nova decoração. Isso
provocou um crescimento significativo na venda de tintas em todo o país
como nunca houve, de acordo com Renato Meirelles, e indica que, assim
como os ricos, as pessoas mais simples valorizam rituais de passagem.
Casamentos, nascimentos e viradas do ano são bons motivos para mudar o
ambiente.
Essa pesquisa ainda mostrou que a patroa também interfere nas opções de
consumo das domésticas, principalmente, nos produtos de beleza. A
proximidade das grandes marcas faz as empregadas economizarem para
conseguir comprar o perfume ou o creme que a patroa usa. É pelo mesmo
motivo que os jovens se esforçam para comprar o tênis da marca mais
cara: para serem reconhecidos pelo grupo no qual trabalham, contrariando
quem pensa que essa compra seja motivada pela vontade de ser igual aos
mais ricos. A mesma explicação é dada para as cópias de produtos
sofisticados vendidos em feiras populares. Não há reconhecimento desse
consumidor sobre o valor do design, mas o desejo de ser percebido pelo
grupo no qual circula, ao contrário do brasileiro rico, que busca a
exclusividade quando paga alguns milhares de reais por uma bolsa
importada.
Além das mudanças de hábito, os consumidores desses grupos de renda
diferentes têm outros valores quando o assunto é a comunicação. Por
isso, alerta Renato Meirelles: “Uma campanha publicitária que é feita
para a classe média, não costuma atingir a classe mais pobre. Veja o
erro das construtoras que divulgam seus empreendimentos apelando para
que o consumidor saia do aluguel. Apenas 16,2% dos brasileiros pagam
aluguel. Essa campanha desmerece a maior fatia que são os 83,8%. Melhor
seria sugerir que o consumidor comprasse o apartamento para sair da casa
dos parentes ou que trocasse de casa para ter mais qualidade de vida”.
Temas como astrologia e reencarnação são facilmente citados na lista de
preferência dos consumidores das classes A e B, mas ganham pontuação
baixíssima nos outros públicos. Assim, a empresa que deseja vender para
esses consumidores precisa escolher bem seus argumentos. “O pobre está
preocupado com os problemas da vida real. Ele não tem interesse por
esses assuntos abstratos”, declara o publicitário.
Na ponta pirâmide de consumo está o menor grupo, o dos faraós. No
entanto, é lá que miram as empresas. Todas querem vender para as classes
mais altas, acreditando que delas vão tirar mais dinheiro. Mas o
pesquisador e publicitário Renato Meirelles defende que não há como
ampliar mercado de forma significativa, sem atingir as classes C, D e E:
“Os brasileiros desses grupos representam 85% da população e possuem 67%
dos cartões de crédito. 71% de tudo o que se vende em supermercados é
consumido por eles”. Em 2007, esses consumidores foram responsáveis pelo
volume de vendas de R$ 575 bilhões.
Essa pesquisa realizada nas capitais não dá o mapa secreto do caminho do
sucesso para produtos e serviços dedicados ao consumidor de baixa renda,
mas confirma que ele existe, ainda que haja algumas dinamites pelo
percurso. Não entender as diferenças de valores e crenças entre esse
público e o das classes A e B poderá fazer sua empresa gastar mais
dinheiro do que deve tentando ganhar o dinheiro que deseja. Pergunte
mais e deduzirá menos. Observe mais e arriscará menos. Aí mora o
segredo.
Inácia Soares, jornalista e apresentadora do programa Mesa de Negócios,
o mais antigo da TV mineira, exibido na TV Horizonte, professora do MBA
Pitágoras, palestrante e coautora dos livros “Emoção, conflito e poder
nas organizações” (Editora Com Arte/2009) e “Do Porteiro ao presidente”
(Editora Com Arte/2009).
inaciasoares@mesadenegocios.com.br