O Poder da (In) Diferença
Por Fábio Luciano Violin
17/10/2004

“Quem não vive o espírito de seu tempo, vive suas mazelas”.

O poeta diz que o contrário do amor não é o ódio e sim a indiferença.
Quantas vezes já fomos vítimas de pessoas mal humoradas, rancorosas e sem a menor pretensão de ajudar ou aceitar ajuda?
Quem não conhece aquele sujeito que sabe tudo, que para ele nada presta, ninguém serve, nada dá certo, e que sempre diz “eu não avisei?”.
Quantas vezes já fomos vítimas do(a) atendente de telemarketing da grande empresa, que se apresenta como anjo de candura para nos oferecer algo, mas que no momento de solucionar um problema tudo fica tão difícil, complicado e estressante?
Quem nunca se irritou com o garçom que demora em atender ou ignora nosso chamado como se não tivesse visto, com a recepcionista que “compreende nosso problema” mas diz que regras são regras, com o gerente que se faz de ocupado e nos deixa aguardando infindáveis minutos ao telefone ou em pés na frente de sua mesa, com a telefonista que nos deixa na espera ao som torturante daquele musica irritante? Isso para citar apenas alguns exemplos do praticamente infindável poder da indiferença.
Constantemente ouço empresários e dirigentes reclamando dos seus funcionários, alegam que não se encontra mais “gente de qualidade”, dizem serem vítimas de pessoas que tem vícios de trabalho, fazem “corpo mole”, e principalmente não se envolvem com nada.
Nada é suficiente para elas (as pessoas indiferentes), nada as contenta, nada faz com que se movam de forma genuína. Em muitas situações o que se vê são pessoas que passam oito, nove, dez, doze horas trabalhando, porém loucas para não precisarem mais colocar seus pés naquele local.
Essas pessoas são aquelas que vivem reclamando, achando tudo difícil, colocando defeito em tudo e todos a sua volta, e o pior, contagiam com desânimo aqueles que chegam com todo o “gás” para produzirem algo.
Um senhor se aposentou, quase 63 anos de idade, 32 deles dedicados a uma única instituição bancária. Passou mais da metade de sua vida lá, e pouco antes de se aposentar revelou a alguns colegas que “agora sim, iria se dedicar a algo que realmente gostava”. Passou mais da metade de sua vida fazendo algo que não gostava, por puro comodismo, falta de diferenciação ou sabe-se lá qual motivo. Mas o fato é que desperdiçou mais de 11.680 dias de sua vida. E a pergunta que não quer calar: para que?
Imagine esse senhor levantando todos os dias, semana após semana, mês após mês, ano após ano e se dirigindo ao mesmo local, para fazer as mesmas coisas que odiava, convivendo com pessoas que possivelmente não gostava, aturando e sendo aturado todos os dias de sua vida para no final dizer que odiava o que fazia.
É inconcebível que um ser humano dedique sua vida a algo que odeia fazer. A quantidade de pessoas que estão no lugar errado nos faz entender a indiferença da qual somos vítimas constantemente quando precisamos nos relacionar com alguém em uma empresa.
A apatia e o desinteresse são tamanhos, e atinge a tantos que nem o melhor profissional de motivação ou o melhor dos programas de melhoria conseguiria manter uma criatura dessas “ligada” por mais que vinte dias.
Tenho uma séria restrição as pessoas que se dizem desmotivadas, que querem que alguém massageie seu ego ou diga o quanto elas são queridinhas com palavras de incentivo.
Posso estar sendo um tanto o quanto radical, mas creio que cabe a cada um de nós buscar seu espaço, cabe a cada um decidir como será o seu dia, sua semana, seu mês sua vida. Cabe a cada um definir como quer passar os próximos dez anos, e ninguém pode fazer isso pelo outro.
Argumentos como “não é fácil”, “já estou velho demais para isso”, “tenho muito a perder” são as “muletas” mais comuns. Porém, aquele que por indiferença e desrespeito a sua vida e carreira se deixam levar pelo comodismo, apatia e indiferença frente aos desafios não pode se queixar, afinal foi ele quem decidiu estar nessa situação. Exatamente, decidiu sim. Isso porque as chances existem para todos, as possibilidades estão em toda parte, aproveita quem quer e fundamentalmente quem as enxerga ou deseja enxerga-las. E quando não se tem uma oportunidade, se cria.
E se isso fosse tão difícil não teríamos as grandes evoluções, inventos, mudanças de rumo na vida pessoal e profissional que sempre lemos nas revistas, jornais, telejornais e na própria internet.
O problema é que você e eu podemos encontrar um desses sujeitos como colega de trabalho, parceiro comercial ou qualquer outra situação que nos prenda a ele. E o pior, parece que existe uma espécie de vírus que contagia aqueles que estão a volta de um sujeito indiferente.
Milhares de pessoas compareceram ou viram pela televisão o enterro do grande piloto Ayrton Senna, lembra dele? Quem não se lembra. Duas pessoas compareceram ao enterro do bandido da luz vermelha. Mas qual o motivo de tal comparação? Simples: cada um herda exatamente aquilo que propagou ou proporcionou aos que estavam a sua volta.
Vivemos do passado, usufruímos hoje daquilo que construímos, pregamos e fizemos antes. E a jornada continua, pois vamos colher para a próxima semana, ano ou década em um ciclo que vai até o fim de nossas vidas, aquilo que estamos realizando nesse momento.
Segundo a Bíblia o ser humano é dotado do livre arbítrio, cada um pode decidir o que será e como será sua vida. Sendo assim, todos têm o direito a serem medíocres, a realizarem menos do que desejavam ou poderiam, não há problema. O problema é que a maioria dessas pessoas são “amargas” e o pior “amargam” a vida alheia e isso é inconcebível.
Muitos se ressentem por não progredirem o quanto gostaria – e a maioria não faz por onde progredir - e tornam a vida daqueles a sua volta um suplício. A convivência é difícil, cansativa, literalmente um sacrifício conviver com alguém “indiferente”.
Cabe a cada um de nós decidir se quer ser mal atendido, se quer conviver com pessoas medíocres, azedas ou – me perdoem a expressão – literalmente fracassadas.
Nada o impede de aceitar, como nada o impede de não aceitar ser ou conviver com pessoas indiferentes as mudanças da vida.
Ainda existem aquelas pessoas que reclamam que antigamente era melhor, que no seu tempo as coisas eram diferentes. Essas pessoas estão presas a um passado que já não existe mais. Como diz a frase no epitáfio de Voltaire “quem não vive o espírito de seu tempo, vive suas mazelas”.
Pode parecer lugar comum ou até piegas, mas o importante não é caminho que se trilhou ou o ponto a que se chegou. O importante é o que se fez durante o caminho, como a jornada foi aproveitada, e principalmente como ficou o caminho depois que você passou.
Não peque pela indiferença, nem consigo, nem com o próximo.
Não faça menos apenas por ser mais fácil. Grandes avanços exigem grande dedicação. Grandes resultados exigem grande empenho.
Ninguém é grande por acaso, ninguém é pequeno por acaso.
Pense nisso antes de aceitar ser ou conviver com alguém indiferente.
Se tiver que fazer, faça bem feito, afinal você esta trocando um dia de sua vida por isso e, portanto no final tem que valer a pena.

FÁBIO LUCIANO VIOLIN
Mestre em Estratégias e Organizações _ UFPR
Especialista em Planejamento e Gerenciamento Estratégico – PUC-PR
Professor universitário, palestrante e consultor de empresas.