Português Fluente?
Por Conrado Adolpho
04/11/2005
Inglês fluente?
Você, provavelmente, já escutou essa pergunta em inúmeras entrevistas ao
concorrer a uma vaga, sempre disputadíssima, para um emprego. Mas as
coisas estão mudando. Em pouco tempo, a pergunta que você ouvirá será:
Português fluente?
Pareceria normal, se a questão estivesse sendo feita em alguma loja de
produtos brasileiros em Miami, mas o que surpreende é que um número cada
vez maior de empresas, aqui mesmo no Brasil, tem procurado por
profissionais que se destaquem, não só pelo domínio de uma outra língua,
mas sim pela fluência da nossa própria.
O conceito lógico de que, na sua língua nativa, cada um se expressa como
pode e de que todos se entendem muito bem nos parece perfeitamente
razoável, e durante muito tempo, as empresas o consideraram como
axiomático. O mercado, porém, sempre atento a qualquer indício de
mudança, começa a relacionar quedas constantes de lucratividade com
mensagens truncadas entre funcionários e com e-mails que massacram o bom
português e que circulam livremente pela Internet, “democratizando” de
modo homicida a imagem da empresa e de seu autor.
Segundo Laila Vanetti, mestre em lingüística pela Unicamp e diretora da
Scritta – Cursos e Consultoria em Linguagem Escrita – a habilidade que
uma pessoa demonstra com relação à língua determina a eficiência da
comunicação. “Em uma entrevista de seleção ou de promoção, quanto mais o
candidato compreender os processos de formação do texto, mais ele
estruturará seu pensamento para escrever e falar corretamente e, de
maneira concisa e clara, transmitirá uma imagem de seriedade e de
competência para o entrevistador”, afirma ela, que já ministrou inúmeros
treinamentos em Comunicação Escrita para executivos e empresários por
todo o país.
A afirmação de Laila Vanetti com relação à Língua Portuguesa encontra
sua confirmação em qualquer um que precise ministrar uma apresentação
para os seus superiores ou clientes. As palavras não saem, a informação
passada fica incompleta, o assunto não é desenvolvido com a destreza e a
clareza que deveria e, por fim, o nervosismo toma conta da situação. O
caso se torna ainda mais grave quando a “platéia” não conhece as
competências do profissional que dirige a apresentação, que é
imediatamente tomado por um embuste por mais que domine tecnicamente o
assunto apresentado. O resultado pode ser desastroso para a carreira do
apresentador e para a própria empresa em que ele trabalha ou que ele
representa.
Essa situação é cada dia mais comum no mercado corporativo e por conta
disso as empresas querem dos seus funcionários, em todos os escalões,
uma boa comunicação. O número de palestras e apresentações vem se
multiplicando a cada dia, e, para agravar esse quadro, se um executivo
antes pedia para que sua secretária redigisse uma pauta de reunião ou um
memorando para um cliente, agora ele mesmo deve arregaçar as mangas e
encarar a tarefa mais simples de escrever um e-mail, que, não raro, pode
se tornar bem complexa e ter algumas conseqüências nada desejáveis.
Com foco no problema da comunicação empresarial, várias instituições têm
mudado os seus processos de seleção, contratação e promoção de
funcionários. A Língua Portuguesa começa a tomar uma posição de destaque
em entrevistas e reuniões se tornando decisiva na contratação.
O que antes era considerado uma exceção em processos de seleção, hoje se
torna normal e essencial: a análise da linha de raciocínio do candidato
a partir de uma redação ou de uma simples conversa. “A linguagem
utilizada por uma pessoa é a expressão de como ela organiza seus
pensamentos, se você se comunica mal é porque não estrutura
adequadamente suas idéias. Se a sua comunicação é truncada, incompleta e
ambígua, não espere que o gerente de RH da empresa na qual você almeja
trabalhar vá lhe dar muito crédito”, declara Laila Vanetti. “Já escutei
diversos diretores e gerentes de recursos humanos dizerem que
descartavam funcionários que não sabiam falar ou escrever corretamente”,
reafirma.
Uma só conclusão pode ser tirada – a competência da comunicação está se
tornando um fator eliminatório no mercado de trabalho e uma arma
poderosa para quem a domina. Portanto, na sua próxima entrevista, fique
atento ao seu Português, ele pode ser a diferença entre estar ou não
empregado.
Agora eu lhe pergunto: você tem português fluente?
Conrado Adolpho é empresário, publicitário, escritor e palestrante. Sua formação vem de faculdades de excelência como ITA e Unicamp. Trabalha com tecnologia, Internet e marketing. É especialista em marketing on-line, presta consultoria e ministra palestras em marketing na Internet, e-business, estratégias de marketing on-line, otimização de sites para mecanismos de busca e outros assuntos ligados à Internet e marketing. É autor do Livro Google Marketing - O Guia Definitivo do Marketing Digital.