Relações Partidas
Por Fernando Adas
23/12/2009
Fui ver “Abraços Partidos”, o mais recente filme de Pedro Almodóvar que conta a
história de um homem que escreve, vive e ama na escuridão. O protagonista é
cego. Não desde o nascimento, mas após alguns incidentes motivados pela vida
intensa e apaixonada que leva.
Embora seja um “Almodóvar”, o filme é denso e dramático. Provoca poucos risos e
muitas reflexões. A plateia sai em silêncio. Uma das questões de destaque é a
relação virtual, às escuras, vivida pela personagem principal em seu meio
familiar e profissional. Gostaria de focar no aspecto profissional. Os ruídos e
desfocos que afligem o mundo corporativo.
Antigamente, coisa dos anos 80, a relação Cliente x Agência era selada por duas
questões fundamentais: a visita pessoal e o briefing.
A agência era avaliada pela sua estrutura física, humana, pelas suas idéias,
agilidade e criatividade. Preço também influenciava na decisão.
O cliente, por sua vez, formatava um briefing e compartilhava com a agência, seu
posicionamento atual de mercado, seus pontos fortes e fracos, seus objetivos e
metas. Havia um roteiro de briefing composto por mais de 30 questões ligadas a
mercado, produtos, cliente, concorrência, posicionamento e tudo o mais
necessário ao planejamento de uma campanha de comunicação assertiva.
O tempo passou, a concorrência aumentou, o consumidor empobreceu, as empresas
diminuíram suas verbas de comunicação e as relações com seus fornecedores foram
tornando-se mais virtuais. Relações partidas, fragmentadas em “Jobs”.
Hoje, as relações de negócio entre Clientes e Agências adotam o modelo de
“campanha”. Há concorrência para a campanha de Natal, ação localizada para a
recuperação de clientes, esforço para a execução de um evento. Além disso,
percebo uma excessiva troca por e-mail, MSN e, na semana passada, até recebi uma
aprovação de campanha por SMS.
Sabemos que o mundo é veloz e as empresas precisam acompanhar o ritmo agitado
desta evolução. Sabemos também que o volume de informações geradas e disponíveis
é maior que a nossa capacidade e necessidade de absorção. E sabemos inclusive
que as oportunidades de mercado surgem cada vez mais pontuais e efêmeras.
Por isso, as empresas e agências acostumaram-se a agilizar seus processos
criativos e operacionais do ponto de vista quantitativo, mesmo perdendo algumas
referências qualitativas. Sabe-se “o que” se quer fazer, mas nem sempre “por
que” se quer.
O filme de Almodóvar traz uma cena em que várias fotos do casal aparecem
rasgadas, partidas. O personagem tenta em vão reconstituí-las, resgatá-las. E
até consegue parcialmente. Assim, proponho que as relações de trabalho também
possam ser recompostas de maneira real, através de encontros pessoais e roteiros
de análise e planejamento capazes de elevar a eficácia das ações.
*Fernando Adas, diretor de planejamento e atendimento da FM – The Fine
Marketing, é um especialista em Treinamento de Vendas, Comunicação de Varejo e
em Projetos de Atendimento e Relacionamento em Marketing Direto.
E-mail: fernando@fmarketing.com.br
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