São Tantas Emoções Desperdiçadas
Empresas ignoram complexidade humana e lideram equipes sem resultados
Por Inácia Soares
14/08/2009
Problemas pessoais devem ficar da porta pra fora. Essa sempre foi a
ilusão das empresas sobre as emoções de seus funcionários. Acreditar que
uma barreira física possa impedir alguém de sofrer ou de ser feliz é
levar muito a sério o ditado popular “o que os olhos não vêm o coração
não sente”. Pura ingenuidade, mas é o que acontece. Os gestores
acreditam que terão o máximo desempenho de sua equipe sem navegar pelo
desconhecido mundo das emoções.
Em seu novo livro, o psicólogo Milton de Oliveira volta ao tema que o
tornou um dos mais provocativos consultores de empresas desde a década
de 1970. Autor de cinco livros sobre gestão de pessoas nas organizações,
Oliveira não teve qualquer dúvida sobre manter as emoções como fio
condutor de seu trabalho depois que conheceu as pesquisas do prêmio
Nobel de Química de 1977 o russo Ilya Prigogyne, conhecido por defender
a Teoria do Caos, na qual não há certezas sobre os acontecimentos,
apenas hipóteses. O cientista não aceitava a teoria mecanicista que
defende que a organização é formada por engrenagens e que a sua máxima
eficiência dependerá da avaliação detalhada do funcionamento delas. O
interesse pela teoria anti-mecanicista do cientista russo fez Milton de
Oliveira marcar, no final da década de 80, um encontro na universidade
belga em que ele lecionava. Diante do grande estudioso, o psicólogo
brasileiro logo sacou a pergunta que o deixaria sem fala: o amor é uma
reação termodinâmica (estudo do movimento da energia e como ela cria
movimento)? A provocação inédita ia ao encontro do pensamento de
Prigogyne e rendeu uma boa conversa. Quando embarcava de volta, Oliveira
teve a certeza de que era preciso mudar o pensamento da gestão de
pessoas no Brasil.
A tarefa de falar de emoções no ambiente corporativo é difícil, mas
quando o Milton me convidou para ajudá-lo a formatar o novo livro, não
tive dúvida que o projeto era apaixonante. Já com dezenas de páginas
escritas, nas quais ele tentou resumir seus principais pensamentos sobre
o assunto, iniciamos nossa parceria. Foram muitas horas de entrevistas e
debates acalorados que resultaram no livro “Emoção, poder e conflito nas
organizações – líderes estão despreparados para lidar com as pessoas”.
Minha experiência como jornalista de negócios, permitiu que
encontrássemos uma boa forma para dizer o que as empresas precisam saber
para gerir suas equipes com mais eficiência. A obra nascida sob os
fundamentos da ciência contemporânea acabou se tornando uma agradável
leitura para gestores e empresários, cada vez mais sem tempo para
refletir sobre as práticas gerenciais.
O estudo da mente humana, um dos ramos mais recentes da ciência,
alcançou resultados impressionantes nas últimas três décadas. No
entanto, o ensino da Psicologia continua batendo nas mesmas teclas de
quando não tínhamos os avanços da nanotecnologia. Estudos atuais e
detalhados da mente humana indicam que o nosso cérebro é muito mais
complexo do que se pensava e que neurônios se recuperam, sim. E ainda
que uma parte do cérebro seja afetada por qualquer trauma, as células
realizam uma nova combinação de talentos deslocando funções para outras
áreas a fim de manter o equilíbrio.
A idéia trazida pela Teoria do Caos, que indica que acontecimentos
complexos como o comportamento humano sofrem muito mais influências do
que os cientistas mecanicistas poderiam admitir, deve ser o ponto
principal de qualquer modelo de gestão de pessoas. A educação formal que
recebemos - em casa, na escola e na empresa - causa menor impacto que
nossas vivências e, por isso, somos seres únicos e emocionalmente ricos.
Tentar gerir pessoas usando ferramentas mecanicistas é reduzir as
possibilidades de inovação e personalização que são naturais em nós. A
estrutura hierárquica adotada pelas empresas, oriunda do militarismo,
engessa o desenvolvimento de uma equipe e a potencialidade de seus
resultados. A medicina, por sua vez, herdou da Igreja a influência que
estabeleceu a divisão entre corpo e espírito, quando, nada acontece na
mente que não passe pelo corpo – a casa das emoções.
Estudar as emoções é um desafio, pois não dá para rastrear o impacto
físico que elas provocam. Cada emoção vivida gera milhares de reações
infinitamente microscópicas (nano reações) que se espalham pelo nosso
corpo provocando mudanças e impactos que jamais saberemos. Lembrando a
conversa de Milton de Oliveira com o químico russo ganhador do prêmio
Nobel, as emoções são reações termodinâmicas que mudam nossos
sentimentos, pensamentos e também nosso corpo. Para o psicólogo Milton
de Oliveira, o Câncer, por exemplo, é resultado de reações
termodinâmicas geradas por emoções como a raiva e o remorso. É por isso
que os gestores deveriam se preocupar em criar um ambiente
organizacional em que a alegria seja a emoção mais forte e constante.
As empresas precisam estar atentas às inevitáveis mudanças que seus
funcionários vão sofrer ao longo da vida e saber explorá-las, deslocando
esse funcionário de setor ou dando a ele novas funções. Fazer isso será
uma decisão inteligente. É pela mesma razão que planejamentos
estratégicos podem não resultar em nada, porque eles dependem das
pessoas para serem realizados. E se o gestor não souber se comunicar, a
idéia maravilhosa poderá naufragar.
Acreditar que a emoção atrapalha o raciocínio humano é um atraso em
relação ao que a ciência vem nos mostrando, pois a lógica depende da
emoção para ser expressa, enquanto a emoção dispensa qualquer ajuda.
Convido você a ler o livro que já está nas livrarias de todo o país e na
internet (www.comartevirtual.com.br). Compartilhe conosco a sua
experiência sobre gestão de pessoas e vamos nos emocionar juntos com os
resultados que esta obra poderá provocar no seu modo de ver a empresa e
suas equipes.
Inácia Soares, jornalista e apresentadora do programa Mesa de Negócios,
o mais antigo da TV mineira, exibido na TV Horizonte, professora do MBA
Pitágoras, palestrante e coautora dos livros “Emoção, conflito e poder
nas organizações” (Editora Com Arte/2009) e “Do Porteiro ao presidente”
(Editora Com Arte/2009).
inaciasoares@mesadenegocios.com.br