Site de Empresa com Problema de Usabilidade
Por Conrado Adolpho
30/10/2005
Opinião: site de empresa não é lugar para
inventar: quando o assunto é sério, os quesitos de padronização e
usabilidade devem ser seguidos. As maiores empresas do Brasil ainda têm
muito a melhorar neste aspecto.
Por Conrado Adolpho
Charles Mingus, músico americano, disse certa vez tornar o simples
complicado é fácil; tornar o complicado simples é criatividade. Por que
não estampam essa frase nos monitores de cada desenvolvedor de sites do
planeta?
O Google aprendeu bem essa lição e sua interface franciscana lhe rende
mais de 200 milhões de visitas diárias e faz com que seja uma das
empresas mais valorizadas da internet com um valor de mercado por volta
de 50 bilhões de dólares.
Sua simplicidade e objetividade trazem exatamente o que a nossa dinâmica
cotidiana atual exige. Nossa sociedade sem tempo não admite mais um
site, que, ao invés de informação relevante e de valor, nos premia com
um quebra–cabeças visual em que, além de termos que adivinhar seus
caminhos, tal qual um mundo de Alice, ainda temos que tentar descobrir
sua lógica.
Sites que nos impingem execráveis pop–ups, layouts inexplicáveis e
apresentações não solicitadas só nos fazem perder tempo e faz com que
tenhamos experiências negativas com as marcas que os assinam.
Tecnologia, muitos sites têm de sobra, porém, há uma absoluta ausência
de usabilidade.
Segundo a ISO 9241–11, usabilidade é a extensão na qual um produto pode
ser usado por usuários específicos para alcançar objetivos específicos
com efetividade, eficiência e satisfação em um contexto de uso
específico, dizendo isso com usabilidade: simplicidade que dá certo.
Infelizmente, tal simplicidade e assertividade têm passado ao largo de
99% dos sites em todo o mundo e, ao que parece, quando se trata de
internet, complicar as coisas, ao invés de simplificá-las, é algo
considerado muito natural.
Jakob Nielsen, um dos papas em usabilidade, é categórico ao afirmar que
se deve retirar da página tudo que não auxiliar o usuário na sua
navegação. É claro que, se falando de Brasil, onde a ditadura da beleza
e do design impera já há algum tempo, devemos tomar essa afirmação com
muita parcimônia, contudo não podemos esquecê-la.
No quesito auxiliar a navegação, muitas empresas se esquecem de fazer o
óbvio. Existem alguns padrões na web que não podem ser ignorados. Se os
usuários estão acostumados com uma navegação vertical e com barras de
rolagem em tons de azul e cinza dispostas no lado direito da tela, por
que colocar uma rolagem em forma de serpente na parte inferior da tela
em uma navegação horizontal da direita para a esquerda?
Nem tudo que é bonito ou inovador é útil. Uma grande besteira continua
sendo uma grande besteira, mesmo que com um belo design.
Os sites em Flash lideram o ranking dos de navegação mais complexa. As
possibilidades que o flash permite parecem inebriar adolescentes
imberbes que lidam melhor com a tecnologia do que com o bom senso.
Alguns sites parecem uma obra pós–moderna: só o autor é capaz de
explicar o que queria dizer com ela.
Deve–se sempre ter em mente a probabilidade de um usuário conseguir
completar uma tarefa simples como avançar uma página ou achar uma
determinada informação. Se o site de uma empresa não lhe oferece tal
facilidade, certamente, o botão voltar, um dos mais conhecidos do
usuário, entrará em ação minando uma venda.
Só para se ter uma idéia do tamanho o problema, a Amazon, em recente
pesquisa, concluiu que cerca de 60% dos carrinhos de compra em sites de
e–commerce em geral são abandonados por dúvidas no procedimento de
compra. Se o e–commerce no Brasil movimentou no somente no primeiro
trimestre deste ano cerca de 1 bilhão de reais, imagine o quanto não
poderia ter movimentado se usabilidade fosse algo corriqueiro.
Você pode pensar que o bordão vamos dificultar a vida do usuário só é
entoado em alto e bom tom em sites de pequenas empresas que não dispõem
de capital para contratar uma boa agência e que sites de grandes
empresas estão livres dessa sina. Ledo engano.
Recente pesquisa do Ibope Inteligência, intitulada Site Fácil –Melhores
Práticas para Relações com Investidores, analisou os sites das 20
maiores empresas em volume de negócios listadas na Bovespa. Muitos deles
perderam pontos por falta de uma navegação intuitiva, estruturação de
conteúdo precária, difícil acesso à área de investidores e outros vários
fatores que não foram satisfeitos.
Os sites devem ser centrados na experiência do usuário e não na mente do
diretor de criação que o concebeu ou no dono da empresa. De nada adianta
a empresa erigir monumentos em homenagem ao seu site se o mercado não o
aplaude. O usuário é o verdadeiro juiz. Será ele quem dirá se o site da
empresa está bom ou ruim.
Se você é um empresário, preste bastante atenção no que a sua agência
anda fazendo com o site da sua empresa.
Se você é um usuário, tenha paciência (mesmo porque com as nossas atuais
velocidades de conexão, é só isso que lhe resta).
Se você faz sites, pelo amor de Deus, cole a bendita frase de Mingus no
seu monitor.
Conrado Adolpho é empresário, publicitário, escritor e palestrante. Sua formação vem de faculdades de excelência como ITA e Unicamp. Trabalha com tecnologia, Internet e marketing. É especialista em marketing on-line, presta consultoria e ministra palestras em marketing na Internet, e-business, estratégias de marketing on-line, otimização de sites para mecanismos de busca e outros assuntos ligados à Internet e marketing. É autor do Livro Google Marketing - O Guia Definitivo do Marketing Digital.