A Sociedade consumida pelas marcas
Por Fred Tavares
18/04/2008
A marca é um signo de identificação e construção simbólica, que serve para
inscrever, representar e diferenciar produtos e serviços dentro do mercado.
Sua trajetória genealógica está apoiada na prática medieval da cultura
heráldica, cujo nascimento se dá com o aparecimento das armas e dos brasões no
século XII, na Idade Média. A heráldica fixou as bases de uma "civilização da
marca", que designa um balizamento estratégico, uma estrutura ordenada, uma
forma de classificar, hierarquizar, valorizar e destacar. Ou seja, como o
brasão, a marca serve para diferenciar aquilo que é uniforme e idêntico; tal
qual a armadura dos cavaleiros e os próprios cavaleiros na Idade Média, as
roupas dos indivíduos e os próprios indivíduos, por exemplo, desvelam e
representam o papel da marca, na contemporaneidade, que é o de inscrever uma
diferença de ser e aparecer.
A palavra brand, que em português quer dizer marca, é de origem anglo-saxônica,
e vem de brandon, que é o instrumento empregado para marcar o gado a ferro
quente. Sem nenhum exagero metafórico, ou nostalgia frankfurtiana de um
pensamento Pró-Indústria Cultural, o marketing se utiliza do conceito da marca
para revelar pertencimento e propriedade com intuito de fixar no imaginário do
mercado a marca como um sujeito singular na mente dos consumidores, que são
vistos e tratados como objetos a serem marcados pela sua produção emblemática.
Neste caso, a idéia de emblema expressa um sentido de manipulação
psicossociológica do consumidor, podendo ser representada sob as mais variadas
manifestações (brasões, insígnias, nomes, slogans e logotipos), imprimindo a
marca como um elemento de essência, de interioridade, vetor tradicional da
adesão e da incorporação, que atribui valor e sentido a algo / alguém através de
um efeito de submissão totêmica.
Investigando-se a etimologia da palavra emblema, observa-se que esta vem do
termo grego emballô, que significa literalmente "lançar no interior". Isto é,
remete à ritualidade, ao vínculo com a referência, o preenchimento de uma
identidade; as marcas se apresentam em uma relação de poder (força) que "colam"
o "sujeito" (consumidor) a identidades temporárias, (des)construindo sua
legitimidade e existencialidade através de um incessante processo de desfiliação
simbólica.
Na sociedade consumida pelas marcas, o consumidor não é mais sujeito, pois lhe é
negado o estatuto da singularidade. O que lhe resta é portar uma identidade
transitória, líquida, revogável e coletiva à busca frenética pelo consumo, sendo
gravada na sua mente a idéia de que para "ser" é preciso ter; uma servidão
voluntária consumista pós-moderna, que sublima a marca à condição de senha
virtualmente onipotente.