E a sua estratégia?
Por Marcelo Miyashita
23/04/2008
Aplique os mesmos conceitos de planejamento estratégico na gestão pessoal.
Também funciona.
É interessante constatar que muitos profissionais, inclusive da área de
marketing e vendas, aptos e com experiência em planejar estratégias para as
companhias que representam, costumam não desenvolver – com a mesma atenção e
cuidado – o seu próprio planejamento estratégico, mirando seus objetivos
pessoais e profissionais. Por que será que a velha máxima “em casa de ferreiro o
espeto é de pau”, mostra-se real e com tanta freqüência?
Divago por algumas possíveis justificativas: 1) Porque não dá tempo para pensar
na própria vida e carreira; 2) Porque formular o plano ideal não é garantia de
sucesso, logo o que faz a diferença é o trabalho diário; 3) Porque para planejar
são necessários recursos, informações e equipe, logo, sozinho vira um mero
exercício; 4) Porque as metodologias de planejamento estratégico foram criadas
para companhias e aplicá-las para pessoas é complexo...
Independentemente das respostas, hoje, qualquer profissional, assim como a
organização em que atua, está inserido num ambiente competitivo que exige planos
e decisões estratégicas, além do aprimoramento constante da sua eficiência
operacional. Portanto, não é lógico, nem sensato, deixar o planejamento da
própria atuação profissional, num espectro mais amplo, para relativos e incertos
“momentos” de reflexão – muitas vezes provocados por acontecimentos, como uma
demissão ou uma boa conversa com amigos.
Assim, há a questão atitudinal, com certeza, envolvida. Da mesma forma que o
plano é conceituado como um documento e o planejamento é um ato contínuo,
freqüente e metodológico, é preciso tratar o planejamento pessoal da mesma
forma. Disciplinadamente, abrir espaços na agenda para a reflexão, análise,
busca de informações, pesquisa de mercado, concepção de cenários prováveis,
formulação de objetivos, caminhos e táticas, metas de desempenho e revisões
contínuas. Porque o ato de planejar deve ser uma atitude freqüente, afinal, não
é algo que se faz só no final do ano, para, depois, “correr atrás” no ano
seguinte. Planejamento deve ser um hábito. Porém, há também uma outra questão, e
essa é mais crítica: nem todo profissional compreende o que é e como planejar,
ou mesmo, o que seja estratégia e outros conceitos envolvidos.
Cincos Ps para estratégia
Pode parecer que o marketing adora aplicar “Ps” em suas definições, o ponto (ops!)
é que uma das melhores definições que conheço consegue explicar, de forma
inteligente, os conceitos principais de estratégia – que é a base do ato de
planejar – por meio de cinco Ps: plano, padrão, posição, perspectiva e partida.
Segundo Henry Mintzberg, renomado autor de obras sobre o tema (inclusive, indico
como leitura o “Safári de Estratégia”, da editora Bookman) a estratégia é
normalmente reconhecida como um plano, “uma direção, um guia ou curso de ação
para o futuro, um caminho para ir daqui até ali” (Mintzberg, 2000).
Ou seja, estratégia vai do presente para o futuro. No entanto, estratégia também
é um padrão, a consistência de um comportamento ao longo do tempo, do passado
até o presente. Por isso, quando escrevi que nem todos profissionais têm um
plano, não significa que eles não tenham uma estratégia. Veja bem, se um
profissional chegou até esse momento presente, significa que ele tem uma
história, e, ao analisá-la, consegue-se identificar padrões de decisões que
refletem o nível de conhecimento e comportamento da pessoa e sua evolução.
Algumas variações podem ocorrer, mas um padrão médio pode ser visualizado.
Ao tomar consciência desse padrão estratégico, logo se poderá projetá-lo para o
futuro e concluir alguma coisa do tipo “se mantiver esse padrão de evolução,
logo, meu futuro será X”. Enfim, o passado estabelece o futuro, se tudo andar
como andou. Então, há sempre uma história, um padrão, e, decorrente disso, um
plano e uma projeção futura. E aí cabe um questionamento: será que o padrão
projetado atende às ambições e desejos desse profissional?
Coerência entre pensamentos e atos
A partir dessa constatação, aplica-se outros Ps: que posição, no caso, no
mercado de trabalho, quer-se ter para a vida profissional? E em que tempo? Em
quais condições e concessões em relação à vida pessoal e familiar? O “pê” de
posição estimula as ambições, projeta os desejos e faz ganhar vida, às vontades
próprias. Mas pode descambar para um futuro idealizado e genérico, com pouca
relação com as particularidades que faz o ser humano diferente e único.
Enquanto a posição influencia a formulação do futuro pretendido a partir da
análise da pessoa, suas habilidades e vontades, a perspectiva - o “pê” que não é
seguinte e, sim, paralelo – analisa o futuro a partir do mercado, das
oportunidades oriundas e das mudanças futuras nesses cenários. A questão é que
toda análise representa uma visão, uma opinião, que é alicerçada no conhecimento
e nas experiências vividas. Diante disso, a relação posição-perspectiva do
profissional para o mercado - e vice-versa - é mutável. Por isso, o planejar é
um ato contínuo.
E se, por um lado, é preciso valorizar as características e desejos, por outro,
é preciso observar o cenário geral, para encaixar a posição pretendida, ou,
mesmo, mudar a posição em função das perspectivas do mercado. E essa combinação
estará formulada no, claro, “pê” de plano e nos seus objetivos para o futuro,
influenciado pela ambição de ser amanhã diferente do que se é hoje.
E, finalmente, o último dos Ps, a partida, diz respeito justamente a “saber
jogar o jogo”, conduzir o dia-a-dia em função do plano, que representa a
combinação posição-perspectiva. Partida é mais do que buscar a eficiência
operacional, é trabalhar no presente decidindo e agindo coerentemente com o
planejado. E é, justamente, a preocupação quanto à coerência entre pensamentos e
atos, que estimula a constante revisão, que é necessária para melhorar a
compreensão, a visão e a opinião. Assim, só o hábito de planejar já provoca
mudanças e faz do futuro algo diferente do que foi o passado/presente. Então,
comece agora.
Marcelo Miyashita é consultor líder e palestrante da MIYASHITA CONSULTING. É
professor de marketing em cursos de MBA e pós-graduação. Atualmente leciona na
Cásper Líbero, FGV-EAESP GVpec, Trevisan, PUC-SP COGEAE, Madia Marketing School,
IMES e IBModa. Foi colunista do Comercial & Cia, na rádio BandNews FM. Em 2006
recebeu o Prêmio Marketing Best e em 2007 o título de Marketing Expert,
concedido pela Editora Referência (Jornal Prop&Mkt), pela FGV-EAESP e pela
MadiaMundoMarketing. É mestrando em Administração pela PUC-SP, pós-graduado pela
ESPM e publicitário pela Cásper Líbero. Conheça seu trabalho:
www.miyashita.com.br