A Técnica e o Indivíduo
Por Luís Sérgio Lico
14/01/2008
Muitas das pessoas, empresas e organizações que conheço parecem ter sido
sistematicamente treinadas a engolir seus sonhos e desacreditar de seus
projetos. Até as saudáveis colocações espontâneas, que criam ou melhoram
processos e atitudes, parecem vigiadas por um patrulhamento invisível. Há uma
ordem que subjaz aos discursos, obrigando as coisas a ficarem em seus lugares.
Premidas por uma discursografia “estrutural”, equipes e lideranças são levadas a
uma rotina de realizar resultados, pensando somente no limiar operativo,
desprezando a reflexão. O fazer, a técnica, parece ter adquirido o controle
sobre a civilização corporativa.
Basta alguém aprofundar o nível relacional, planejar e apontar conseqüências ou
horizontes e já paira a desconfiança: ele estará filosofando? Viajando na
maionese? Pobre de quem pensa assim, pois crê ser determinado pelo objeto. Deixe
que uma empresa comece a inovar para vir a ladainha: Isto não vai funcionar! É
perigoso! Não vai dar lucro! Atrapalha o “mercado” etc. Temem as vantagens
competitivas.
Associar conhecimento com perda de tempo é uma asneira típica das organizações
de baixo padrão. Elas precisam manter o capital humano na ignorância de sua
ineficácia sistêmica. E, muitas vezes, da falta de critérios éticos. Mas,
empresas não existem! São espectros jurídicos, relações nominais de produção ou
saber-poder.
O que existe, realmente são pessoas e suas crenças. Elas podem ser vencedoras e
mesmo assim tolher a fonte da criatividade. Em todas as relações corporativas,
quem fala é porta-voz de uma verdade ou interpretação. Entretanto, esta condição
não significa nada além da expressão de um determinado ponto de vista. Resumo:
as empresas, o mercado, o mundo são aquilo que nós próprios aceitamos e
construímos dia-a-dia.
O rumo ao concreto, este trajeto que esgarçou o tecido social do mundo, está
fundamentado na nulidade da pessoa. Por isso, suas prescrições são acompanhadas
de julgamentos que, em nenhuma hipótese consideram o singular. Tudo deve ser
induzido numa generalidade amorfa e extração estatística.
Em sua conformidade a tabulações, métodos e, principalmente fácil reposição ou
remanejamento de capitais humanos, o indivíduo desaparece. Dizem para aproveitar
o dia, primeiro fazer e depois filosofar. Querem navegar, mas não há quem esteja
vivo para manobrar o barco! Hoje se contratam caríssimos consultores
“reconhecidos” para formar marinheiros via DVD motivacional. No peito, o coração
já não pulsa, mas a apostila “vai de encontro” ao guideline!
Mas, o mercado é caprichoso: conheço quem vive de molho e não cria patos. Outros
mais estão insanamente ocupados, flutuando num universo de possibilidades, para
descerem ao chão imundo do mercantilismo. Eles estão produzindo realidades
virtuais que determinarão futuros possíveis. Estes não crêem na liberdade
enquanto negatividade. Bergson disse que o movimento não precisa do móvel como
suporte. Assim, porque devemos apenas nos orientar pela medida? A vida flui
continuamente. É importante mensurar? Sim, mas não é o alfa e ômega da
humanidade.
Saber viver, realizar projetos, construir, ganhar dinheiro, obter sucesso...
Tudo isto se constitui através de uma via reflexiva, de nível filosófico: uma
resistência em face ao atrito com o que nos é externo. Ninguém é nada sem
fazer-se e ousar saber. Nem se reconhece como vontade, se não souber superar o
meio. Somente assim despertaremos do sono antropológico. Sapere Aude – ousar
saber é o que precisamos para sair da menoridade e da escravidão cultural.
Outra coisa importante é perguntarmos: você sabe utilizar o que conhece? E sua
empresa? Quem não puder responder, não obteve o conhecimento. Tem apenas
informações, dados ou opiniões. O conhecimento pressupõe o domínio da técnica,
da estratégia e do fazer. Filosofar é um ato simples, mas muito rigoroso. Deixe
o preconceito de lado e vá além dos chavões. Pense nisto.
Luís Sérgio Lico é Palestrante e Conselheiro Organizacional. Mestre em Filosofia e Especialista em Gestão do Comportamento. Autor dos Livros: O Profissional Invisível e Fator Humano. www.consultivelabs.com.br