Wikimarketing
Por Marcelo Miyashita
07/03/2008
O marketing e seus conceitos estão passando por uma revisão conceitual numa
velocidade nunca vista antes. Nos seus primórdios, o termo marketing significava
apenas o estudo do mercado, a mercadologia - assim se tornou disciplina pela
primeira vez em 1905, na University of Pennsylvania. Demoraram cinco décadas
para que o conceito fosse revisto, influenciado pelo pensamento da administração
por objetivos, que começou a olhar a administração para fora, para o mercado, e
a fazer dele sua base de decisões. Uma das obras capitais foi o livro de Peter
Druker, de 1954, Prática de Administração de Empresas. Por muitos considerada a
obra que marca o nascimento do marketing como filosofia de negócios e ideologia
empresarial.
Logo em seguida, em 1960, E. Jerome McCarthy, professor da Michigan State
University, apresentou no clássico Marketing Básico: Uma visão Gerencial a
principal caixa de ferramentas de marketing, utilizada até hoje e que virou até
termo pop: os 4 Ps (produto, preço, ponto e promoção). Durante muitas décadas, o
marketing foi compreendido como a gestão dessas ferramentas em prol da
organização e da satisfação do cliente.
Em 2004, influenciado pelo aumento da importância da gestão do relacionamento -
que consiste na boa gestão do atendimento, prestação de serviços e pós-venda - a
AMA (American Marketing Association), ampliou e acrescentou à definição de
marketing a administração do relacionamento com clientes. Esse é o conceito que
vigora até o momento.
Mas, apesar de ter apenas quatro anos, essa definição bem que poderia ser
revista mais uma vez. Isto porque, neste período, ocorreu a cristalização de um
fenômeno que irá influenciar a prática de marketing das companhias modernas: a
força e inteligência das redes colaborativas, o conceito Wiki.
O conceito Wiki
O neologismo Wiki – derivado de wikiwiki, que em língua havaiana significa
“rápido” – foi cunhado pela Wikimedia Foundation em 2003, que desenvolveu o
software MediaWiki e colocou no ar o site Wikipedia – A enciclopédia livre. Uma
enciclopédia aberta para que fosse escrita e atualizada pelos próprios
internautas, por meio de postagem de artigos. Agora, em 2008, já são mais de 2
milhões de artigos em língua inglesa e mais de 350 mil artigos em língua
portuguesa - é a maior enciclopédia disponível na Internet e responsável pela
disseminação do modo Wiki de geração de conteúdo, também chamada de Web 2.0.
A partir de 2005, os projetos na Internet que mais obtiveram sucesso, visitação
e comentários, foram os projetos que possibilitavam a geração de conteúdo
livremente, com ou sem gestores controladores: Orkut, YouTube, MySpace e Second
Life. Além dos inumeráveis blogs e fotologs. Esse movimento foi bem descrito no
livro Wikinomics – Como a Colaboração em Massa Pode Mudar o seu Negócio, de Don
Tapscott & Anthony D. Williams. Wikinomics, ou o seu neologismo em português,
Wikinomia, é conceituado, pelos autores, como a arte e ciência da colaboração.
Os autores defendem que o conceito de sistemas que se auto-organizam, criando
uma ordem, mas sem comando central, podem também ser estimulados e, até mesmo,
orquestrados. Um exemplo citado é o projeto InnoCentive, criado pela Procter &
Gamble. Na época, em 2001, com 7.500 pesquisadores contratados, a P&G achava
esse pequeno exército insuficiente para manter sua liderança. Em vez de
contratar mais pesquisadores, o CEO A.G. Lafley instruiu os líderes das unidades
de negócios a buscar, fora da empresa, 50% das idéias para novos produtos e
serviços.
Hoje, o InnoCentive é uma rede colaborativa, que reúne 35 empresas da Fortune
500 de um lado e 91 mil pesquisadores de 175 países de outro. As companhias
colocam para eles problemas que suas equipes de P&D (pesquisa e desenvolvimento)
não conseguiram resolver e oferecem recompensas que vão de US$ 5 mil a US$ 1
milhão para quem trouxer soluções viáveis. Por meio desse projeto, essas
empresas nada mais fazem do que manter uma rede colaborativa, que se complementa
e inova em prol de desafios, gerenciada e remunerada pela organização. Mesmo
esses colaboradores não sendo funcionários, sua dimensão global e seus 91 mil
integrantes a transformam numa grande máquina geradora de inovação.
Wikimarketing
E como a rede colaborativa pode ser útil como ferramenta de marketing? A rede
colaborativa, no fundo, é o que diversas empresas hoje vêm buscando criar junto
aos seus programas de marketing de relacionamento. Uma extensão natural - depois
de conseguir criar, manter e se relacionar com um círculo de clientes
determinado - é trabalhar esse círculo para que gerem valor, por meio de idéias,
sugestões e críticas.
Na era do relacionamento, o envolvimento com o público-alvo de um programa ainda
é visto sob a ótica de interesse da companhia, ou seja, o que a empresa ganha
com isso. Compreender que os próprios clientes, por exemplo, também podem ser
fontes de informações e inovações, transforma essa relação e coloca os clientes
como colaboradores em primeiro plano, como agentes, e não só como compradores e
usuários.
Claro que, para essa relação existir, mais que recompensas, vale a reputação que
a companhia constrói, fruto de bons produtos, serviços e atendimento prestados.
Informalmente, clientes já são colaboradores - basta observar o volume de
comentários que uma central de atendimento recebe diariamente. A questão é que
isso não é percebido, pela maioria das empresas, como uma rede colaborativa. No
máximo, um canal informativo em que o cliente deposita suas opiniões. Opiniões
estas que nem sempre são lidas e, muito menos, respondidas.
Está na hora de praticar mais wikimarketing nas organizações. Numa época em que
a inovação contínua é tão propalada e valorizada nos negócios, não dá para abrir
mão do volume e da diversidade de idéias que uma rede colaborativa de clientes
pode trazer para as organizações. Quem sabe, daqui algum tempo, teremos mais uma
revisão da definição de marketing, colocando como objetivo, depois do
relacionamento, a colaboração dos clientes. E que seja wikiwiki!
Marcelo Miyashita é consultor líder e palestrante da MIYASHITA CONSULTING. É
professor de marketing em cursos de MBA e pós-graduação. Atualmente leciona na
Cásper Líbero, FGV-EAESP GVpec, Trevisan, PUC-SP COGEAE, Madia Marketing School,
IMES e IBModa. Foi colunista do Comercial & Cia, na rádio BandNews FM. Em 2006
recebeu o Prêmio Marketing Best e em 2007 o título de Marketing Expert,
concedido pela Editora Referência (Jornal Prop&Mkt), pela FGV-EAESP e pela
MadiaMundoMarketing. É mestrando em Administração pela PUC-SP, pós-graduado pela
ESPM e publicitário pela Cásper Líbero. Conheça seu trabalho:
www.miyashita.com.br