3 Etapas da Prospecção de Clientes Corporativos em Grandes Contas
Por Diego Berro
13/01/2012
Como chegar ao tomador de decisão em grandes contas? Para respondermos esta
pergunta é fundamental passarmos a enxergar o processo de vendas não mais
pela ótica do vendedor, considerando as fases de execução de uma venda, mas,
sim, as fases percorridas pelo cliente na tomada de uma decisão.
Pesquisas de Neil Rackham, profissional reconhecido mundialmente como mestre
na aplicação de modelos estratégicos em gestão de vendas, concluíram que o
processo decisório ocorre de acordo com as seguintes etapas do ciclo do
comprador: reconhecimento de necessidades, avaliação das opções, resolução
das preocupações, DECISÃO,implementação, mudanças ao longo do tempo,
reconhecimento de necessidades, avaliação das opções... E, assim,
continuamente.
Especificamente em contas corporativas, é possível que várias pessoas
participem do processo decisório na organização. Dessa forma, ao observarmos
o ciclo do comprador em termos de aquisição corporativa, podemos entender
como usar estratégias eficazes de vendas para chegar ao tomador de decisão
com os argumentos certos. Isso irá transformar uma visita rotineira em fonte
de prospecção de mais alto retorno e valor.
Há várias pessoas envolvidas no processo de decisão e aquisição de bem ou
serviço dentro de uma organização. Cada uma delas contempla um foco
diferente de atuação, sendo que podemos resumir esses papéis em três: foco
na receptividade, foco na insatisfação e foco no poder.
O “foco na receptividade” é aquela área funcional ou função do indivíduo com
maior probabilidade de:
1. Ouvir de modo receptivo;
2. Oferecer-nos informações.
O “foco de insatisfação” é a área funcional ou função do indivíduo com maior
probabilidade de:
1. Perceber problemas e insatisfações em uma área na qual podemos ajudar.
E, por fim, o “foco de poder” é a área funcional ou função do indivíduo com
maior probabilidade de:
1. Aprovar a ação;
2. Prever a ação;
3. Influenciar a ação.
Na maioria das grandes contas, como sabemos, nós, vendedores, não
conseguimos ter acesso ao tomador de decisão em um primeiro momento de
prospecção. Nesse caso, é necessário encontrar alguém, dentro da
organização, que tenha boa receptividade, atenção e tempo para nos fornecer
informações sobre a empresa.
Podemos deduzir que inúmeras funções podem ser nosso “foco de
receptividade”, desde uma secretária, um assistente administrativo, um
assistente de recursos humanos, um porteiro, um gerente ou qualquer outra
pessoa que, conhecendo bem a empresa, esteja aberta a nos atender e
responder algumas perguntas.
Ao chegar ao “foco de receptividade”, devemos efetuar dois tipos de
pergunta:
1.“Perguntas situação”, tais quais:
- Que equipamento você usa atualmente?
- Quantas pessoas você emprega aqui?
- Há quanto tempo esta unidade funciona?
2.“Perguntas problema”, tais quais:
- Você conhece alguém na sua empresa que esteja enfrentando problemas nessa
área?
- Você concordou que este é um produto útil... Quais departamentos da sua
empresa poderiam se beneficiar dele?
O principal objetivo da visita com o “foco na receptividade” é obter
informações sobre a empresa e seus processos, avançando um passo ao
identificar quais áreas e/ou pessoas na organização enfrentam problemas,
dificuldades e insatisfações, às quais nosso produto ou serviço possa
atender. Descobrir quem é essa pessoa tem por objetivo fazer com que o “foco
da receptividade” nos leve ao “foco da insatisfação”.
Várias pessoas podem exercer esse papel de “foco de insatisfação” em uma
organização, desde o usuário do produto ao responsável por compras,
financeiro e recursos humanos, entre outros. São aquelas pessoas
insatisfeitas com a situação e envolvidas com a utilização ou aquisição do
produto ou serviço que oferecemos e que possa solucionar o problema.
Ao agendar uma reunião com o “foco de insatisfação”, nosso objetivo é
descobrir a insatisfação do cliente e desenvolvê-la até o ponto em que ele
deseje agir. Isso implica que elaboremos perguntas que possibilitem detectar
problemas ou insatisfações, de forma a levar o “foco da insatisfação” a
perceber que podemos agregar valor à organização e, posteriormente, levar a
solução ao tomador de decisão na empresa.
Quando o vendedor está em frente ao “foco de insatisfação”, é importante
entender quais são os objetivos e pensamentos do comprador, que estará na
fase de decisão chamada “reconhecimento de necessidades”, conforme o ciclo
do comprador mencionado anteriormente. Assim, possivelmente, estará se
perguntando:
- Nós temos um problema?
- Qual o tamanho dele?
- Ele justifica a ação?
O papel do vendedor é responder a essas perguntas com segurança e boa
argumentação, de forma a levar o cliente a pensar que seus problemas,
dificuldades ou insatisfações são maiores, na verdade, do que pareciam ser.
Para isso, o vendedor deve descobrir a fonte de insatisfação e aumentar a
percepção do cliente em relação à sua intensidade e urgência.
As perguntas poderosas -“situação”, “problema”, “implicação” e “necessidade
de solução” -são fundamentais nessa etapa. Boa parte das respostas para as
perguntas “situação” surge na etapa anterior, com o “foco na receptividade”,
ou seja, ao “foco de insatisfação” deve ser perguntado sobre problemas que
possa ter:
- Sua máquina atual é difícil de usar?
- Você está satisfeito com...?
- Você tem problemas de qualidade?
Ao descobrir as principais insatisfações do cliente, devemos aumentar a
percepção dele quanto aos problemas com as “perguntas implicação”:
- Que efeito isso tem no resultado?
- Isso atrasará a expansão proposta?
- Isso poderia levar ao aumento de custos?
Nesse momento, o cliente passa a entender as consequências resultantes das
insatisfações e problemas que enfrenta com o seu atual produto (que pode ser
concorrente direto ou indireto do nosso) ou com os processos da organização.
Por fim, devemos desenvolver perguntas que façam o cliente entender quais
benefícios poderia ter se resolvesse seus problemas. Vamos utilizar as
perguntas “necessidade de solução”:
- Como isso ajudaria?
- Quais benefícios você vê?
- Por que é importante resolver esse problema?
Com essa tática, transformamos as necessidades implícitas do cliente
(problemas, necessidades e insatisfações) em necessidades explicitas
(vontades e desejos de mudar). É natural, portanto, que o
colaborador/cliente que exerce o “foco de insatisfação” queira levar-nos a
quem decide, uma vez que entendeu a importância de ter o nosso produto e/ou
serviço na empresa.
Por que muitos vendedores nunca conseguem chegar ao tomador de decisão em
grandes contas corporativas? Porque, ao chegar ao colaborador/cliente que
exerce o papel de “foco de insatisfação”, o vendedor fracassa na
investigação e/ou desenvolvimento das necessidades do cliente. Por isso,
técnicas de sondagem ou investigação são fundamentais para vendedores que
querem ter sucesso em contas corporativas.
Aqui, encerra-se, no ciclo do comprador, a fase de “reconhecimento de
necessidades”e inicia-se a de “avaliação das opções”, e o “foco de
insatisfação” terá um grande prazer em levar-nos ao “foco do poder”.
Lembrando que esse processo, dentro de uma conta corporativa, pode ocorrer
por completo em uma primeira visita ou demorar meses para que consigamos
avanço nas etapas. Da mesma forma, é importante entender que em algumas
contas a mesma pessoa pode desempenhar um, dois ao mesmo os três papéis, ou
várias pessoas desempenharem simultaneamente cada um dos papéis.
Analisando bem, é comum encontrarmos nas organizações ao menos duas ou três
pessoas que tenham o perfil de “receptividade”, ou várias outras que tenham
um perfil potencial de “insatisfação”. Por exemplo, se vendemos máquinas, o
colaborador com “foco em insatisfação” pode ser o operador de qualquer uma
das máquinas da empresa.
Chegando ao “foco do poder”, o objetivo do vendedor é demonstrar os
problemas, necessidades e insatisfações dos colaboradores/produtos/processos
aos quais pode atender e mostrar como os seus produtos e/ou serviços ajudam
o cliente a reduzir custos ou aumentar os lucros.
Quando chegarmos ao tomador de decisão, ele possivelmente estará na “fase de
avaliação das opções”. Devemos, então, argumentar com “benefícios” (como o
nosso produto ou serviço atende plenamente à necessidade reconhecida pelo
cliente), influenciando-o a entender que nossa empresa/produto é o mais
adequado, viável, com melhor relação qualidade/investimento/benefício, que
nossa opção é a melhor perante as opções dos concorrentes.
Na fase de “avaliação das opções”, o cliente/tomador de decisão visa a:
1.Identificar os diferenciais do fornecedor;
2.Estabelecer a importância relativa dos diferenciais;
3. Julgar as alternativas, usando os diferenciais.
O cliente está considerando os critérios que deve utilizar para tomar uma
decisão e qual fornecedor atende melhor a eles. O vendedor deve conhecer,
influenciar e responder aos critérios de decisão do cliente.
Nessa etapa, o que é mais importante para o nosso cliente? Confiabilidade,
preço, qualidade, flexibilidade, prazo de entrega, assistência pós-venda,
compatibilidade com equipamentos pré-existentes? O principal erro nessa fase
é o fracasso na descoberta dos critérios do cliente, além de poucas
tentativas de influenciar e/ou moldar os critérios declarados.
Quando estivermos com o comprador ou influenciador da compra na organização,
é fundamental perguntar abertamente a ele qual critério utilizará para
escolher o fornecedor.
Nessa fase, nossas principais estratégias devem ser:
- Desenvolver critérios de decisão a partir das necessidades identificadas
durante a fase de “reconhecimento de necessidades” da venda;
- Reforçar os critérios de decisão cruciais que podemos cumprir;
- Construir critérios de decisão incidentais – ou menos importantes –nas
áreas em que somos fortes;
- Reduzir a importância dos critérios de decisão que não podemos cumprir.
A próxima fase do ciclo do comprador é a “fase de resolução de
preocupações”. É bastante comum o tomador de decisão na organização ser
responsável por duas fases: “avaliação das opções” e “resolução de
preocupações”. Em alguns casos, em contas maiores e mais complexas, há ainda
intermediários que filtram possíveis fornecedores, fazendo com que o
vendedor chegue ao tomador de decisão somente quando ele está na fase de
“resolução de preocupações”. De qualquer forma, o importante é
identificarmos essas fases e buscarmos entender em qual delas o cliente
está, no momento da negociação.
Na fase de “resolução de preocupações”, o cliente se pergunta:
- Quais são os riscos de seguir em frente?
- E se der errado?
- Podemos confiar nessas pessoas?
O nosso grande desafio, aqui, é descobrir e resolver medos e preocupações.
Devemos transmitir segurança, argumentando sobre o histórico de nossa
empresa, referências e cases de sucesso de nossa organização, a estrutura da
empresa, o sistema de pós-venda, a qualidade de nosso produto, entre outros
fatores que demonstrem claramente ao cliente que nossa empresa tem condições
seguras de estabelecer tal parceria.
Um erro muito comum nessa fase é o vendedor ignorar preocupações, esperando
que elas desapareçam, e pressionar o cliente a tomar uma decisão. Técnicas
indutivas de fechamento que funcionam muito bem em vendas de baixo valor
agregado não funcionam nessa fase se o vendedor não solucionar as
preocupações do comprador; ao invés disso, fazem o vendedor perder tudo o
que construiu até então. Tentar insistentemente fechar a venda para uma
grande conta, sem deixar o cliente seguro quanto à negociação, fará com que
ele perceba que o vendedor não está ali para firmar uma parceria ganha-ganha,
mas que pretende apenas vender, e não atender a uma necessidade do cliente.
Há também vendedores que, ao passarem por essa fase, ou seja, efetuarem uma
venda, acreditam que o processo tenha terminado. Esse é um grande erro;
afinal, na “fase de implementação”, o cliente está constantemente se
perguntando:
- Estamos obtendo valor com essa decisão?
- Com que rapidez veremos resultados?
Finalizada a venda, o vendedor deve entender e atender às novas necessidades
e insatisfações do cliente. Por isso, é fundamental que suas visitas a ele
continuem periodicamente.
Ao entendermos esse processo, sob a ótica do ciclo de compras em uma
organização, compreendemos por que muitos vendedores perdem vendas ao chegar
direto ao “foco do poder”:não tiveram a oportunidade de descobrir problemas
na organização, tornando-se ainda mais difícil demonstrar ao tomador de
decisão como seu produto pode agregar valor.
Geralmente, visitas desse teor são objetivas: o vendedor não terá tempo nem
liberdade para conhecer a empresa e seu processo em uma única reunião com
quem decide. Aliás, quem decide sobre grandes contas tem tempo somente de ir
direto ao assunto, e só decidirá firmar uma parceria se entender como
agregamos valor à sua organização. Desse modo, passar por essas etapas,
mesmo que rapidamente, prepara-nos para chegar ao tomador de decisão com
argumentos que o farão entender os benefícios em adquirir nosso produto ou
serviço, tornando o processo da compra natural.
O exercício de enxergar o processo de parceria entre empresas sob a ótica do
comprador – e não do vendedor – permite-nos entender as melhores estratégias
para termos sucesso em vendas para grandes contas.
Alguns de nós podemos continuar pensando que as mesmas técnicas básicas que
funcionam em vendas simples também funcionam em vendas complexas. Com isso,
perdemos a chance de entender, aplicar, desenvolver e adaptar essas
poderosas ferramentas para a nossa realidade, para prospectarmos ainda mais
clientes em grandes contas corporativas.
Diego Berro é palestrante de vendas. Co-autor dos livros: “Os 30 + em
Motivação no Brasil” e “Ser Mais em Vendas”. Graduação em Gestão Empresarial
pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação
Getúlio Vargas. Formação Profissional de Nível Tecnológico em RH e Marketing
pela FGV-RJ. Máster Practitioner em Programação Neurolinguística. Ministra
palestras, workshops e treinamentos de vendas, realizando convenções de
vendas e treinamentos in-company em todo Brasil.
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