Chico Buarque no "Ídolos"
Por Jorge Antonio Monteiro de Lima
17/07/2010

Dias atrás assistia a televisão, vagando pelos canais em busca de algo que pudesse amainar o cansaço de um dia de trabalho. Cheguei ao divertido "Ídolos", da TV Record. Dei muita risada com os vários tipos que ali surgiram, desafinados, inexpressivos, sem veia artística, sem alma. A mídia adotou o reality show para tudo, agora com um novo formato para os concursos de calouros.

Após uma hora e meia de risada, analisando os critérios dos jurados que estavam selecionando os artistas, fiquei preocupado. Hoje, a mídia quer espetáculo, boa voz, presença de palco, algo esquisito que venda, um produto.

Na hora imaginei uma lista dos artistas brasileiros que não passariam sequer numa semifinal do programa: Chico Buarque de Holanda, Tom Zé, Herbert Viana, Raul Seixas, Roberto Carlos, Tom Jobim, Badem Powell, João Gilberto. Isso só para citar os primeiros de minha lista. A lista seria infindável, perpassando vários estilos e gêneros. Vários dos citados anteriormente não têm boa voz, alguns são tímidos, quietos demais no palco, muito embora sua arte tenha o dom do espírito em expressão.

O problema não é o programa Ídolos, que até é bom, engraçadinho. O problema é a consciência tosca que permeia a sociedade, inclusive a percepção do que é arte. A massificação que toma conta, convencionando tudo, limitando a criatividade e algemando a expressão da alma.

Produtos são descartáveis e seguem regrinhas básicas: visual, passinhos, refrãozinho e clichês, cópias e tudo o mais que possa ser decretado como produto de consumo, que faça sucesso, que venda, sem ligar para o conteúdo. É por isso que as grandes gravadoras e a mídia passam por uma crise, pela falta de conteúdo, pela saturação de um mercado em suas próprias receitas prontas. Na anulação da criatividade tudo ficou igual e sem graça. Os modismos perderam-se na falta de alma. Por isso é que novos ídolos vêm e vão, não passando de uma onda de verão que sequer deixa rastro na beira da praia. Do nada vieram, e a ele retornaram.

A crise artística de hoje é o fruto da falta de ousadia e conteúdo. E o problema não é só da arte: é da sociedade. No meio acadêmico isto é gritante: teses de mestrado viraram mera revisão bibliográfica. Faça apenas o que seu orientador quer e não olhe para a vida. Esta é a regra.
Copie e faça o que todo mundo está fazendo. Não questione: você vai ser visto como um chato, um inconveniente.

Mas nossa sociedade se pauta pelo espetáculo, pelo efeito especial, pelo clip mais bonito (não interessa se a banda é medíocre, o clip é legal).
Assim nos detemos na superfície, no boçal, no lodo, no nada, por que negamos o conteúdo, a profundidade. Negamos nosso pensamento crítico, algemamos nossa expressão, nossa voz, e nos conformamos com a mediocridade que nada acrescenta, só aumenta nosso tédio. O conformismo é tanto que sequer reagir a isso tudo fazemos, apenas aceitamos, passivos, omissos, sofrendo calados diante do nada cultural e social.

Fico feliz de perceber que talentos genuínos não dependem de uma boa voz, de presença de palco, de ter um visual irado para chamar a atenção.
Pelo contrário, dependem do talento genuíno, do dom, da profundidade, de sua criatividade, de conteúdo, de algo a dizer, mostrar, da força da vida.

Jorge Antônio Monteiro de Lima é pesquisador em saúde mental, Psicólogo e musico Consultor de Recursos Humanos Consultoria para projetos de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais email: contato@olhosalma.com.br - site:www.olhosalma.com.br