A Coragem de Ver pela Primeira Vez
Por Paulo Vieira de Castro
08/02/2011

D. Juan defendia que para um guerreiro não há nada fora de controle. Para ele, a vida é um exercício de estratégia, separando o significado da existência humana da forma como esta é vivida. Este é o maior erro do pensamento contemporâneo. Como se fosse possível separar o espírito da lei da letra da lei. É impossível afastar o exercício da vida dos compromissos que com ela temos, do mesmo modo que não poderemos separar o dançarino da dança, o professor do aluno, etc. No mundo dos negócios enferma-se de igual impossibilidade.

Castañeda sabia que não era possível viver estrategicamente o tempo todo. Um guerreiro não se importa com significados – dizia D. Juan. Se ele viver como um guerreiro, e como todos nós ele teve essa oportunidade, a sua vida estaria organizada de maneira estratégica evitando as conseqüências mais desagradáveis.

Não se tratando de adivinhar o futuro, mas sim de participar na sua construção. Todos sabemos que num cenário de guerra, assim como nos mercados, é impossível prever todas as variáveis implicadas em volta das tensões poderosas. D. Juan pensava que um guerreiro nunca fica à espera. A sua atitude é sempre estratégica, ativa, reduzindo ao mínimo a probabilidade face ao imprevisto.

- Imagina que alguém te espera numa estrada escondido com uma carabina possante, podendo atingi-lo com precisão total - o que farias, perguntou Castañeda.
- Ainda não entendi o que queres provar..
- Quero afirmar que a tua estratégia não te pode ajudar sempre. Numa situação destas não podes evitar a bala.
- Posso sim! Se alguém estiver à minha espera com uma carabina eu simplesmente não vou aparecer.

A estratégia do guerreiro
Direi que um guerreiro que se limita a (simplesmente) não aparecer terá certamente escolhido mal a sua vocação. E, esse é um dos maiores defeitos dos nossos decisores, constantemente fugindo ao desafio de honrar o maior de todos os compromissos: ser corajoso. O que falta aos nossos empresários, profissionais de marketing, empreendedores, políticos, ou mesmo aos chefes de família, é essa calma. Nas empresas, fugir à bala é colocar em causa os valores que escolhemos como orientação superior. Escolher a defesa de valores essenciais, mantendo uma postura ousada, ajuda a garantir uma visão estrutural de longo prazo, neste caso para a própria vida.

Fugir à bala é algo que nos tenta com demasiada freqüência. Mas, de que iria adiantar evitar aquele tiro se não será possível garantir que isso aconteça e, do mesmo modo, no dia seguinte? Então, de nada adiantará fugir.. Este é um erro muito comum na estratégia empresarial contemporânea.

O homem que não se conhece a si mesmo seguirá o caminho do rebanho, pelo que no trilho da auto-realização se confunde, inúmeras vezes, o fazer o caminho com o significado de tal escolha. Note que é diferente caminhar (fazer o caminho) de ter consciência da importância dessa decisão. Decidir estrategicamente obriga a iguais cautelas.

Ter uma visão empresarial, ou mesmo da vida do dia a dia, que é puramente de sobrevivência não tem uma perspectiva de sentido último onde será fundamental respeitar, antes de tudo, os compromissos essenciais com nós próprios. É aqui que falha por norma a lógica estratégica. Na realidade o mundo está para além dos limites do próprio ser humano, sendo independente do grau de conhecimento que dele temos. Então, quer o conhecimento quer a ignorância, não existem em si mesmos, são simples afetos da mente humana.

Ao contrário de D. Juan creio que a vida se esvai na busca de uma morte condigna, estando o guerreiro preparado para viver em paz, mas sempre de frente para o inimigo. Como poderia ser diferente nas organizações? Estar focado no essencial é reconhecer que o importante não é saber no que se deve centrar a sua atenção sempre que tem de decidir, mas sim ter a coragem de reconhecer até onde deverá ir a sua visão para além deste problema. Aqui reside o mais importante diferencial do arrojo de se ser humano, aceitando que nada está previamente delimitado.

Pensar como D. Juan transforma, tantas vezes, a nossa existência na história das oportunidades perdidas. Na pratica resulta que ao guerreiro só se permite estar na guerra, ou fugir dela, esquecendo-se a cultura e a arte da paz, permitindo acautelar que a primeira bala não seja disparada. Porque não haveremos de mudar, também, no mundo organizacional?

Ainda que metaforicamente, direi que os novos agentes do mundo dos negócios serão influenciados pela ousadia de viver face à morte, inspirados por uma postura serena, confiante e desapegada de um mundo que não é apenas seu. Passar esta mensagem para o meio empresarial será desafiar as consciências, aportando confiança ética, contribuindo para que a lógica de mercado tenha uma dimensão ativa e corajosa, visando o desenvolvimento como movimento integrado e reciprocamente empenhado na prosperidade para todos.

Paulo Vieira de Castro é mentor do modelo “Marketing de Proximidade Real”, consultor de empresas, Diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto Superior de Administração e Gestão do Porto – Portugal. E-mail geral@paulovieiradecastro.com