Ensaio sobre o Oráculo Google
Por Fabrício Ungaretti
25/11/2012

O acesso cada vez mais crescente as informações pela revolução tecnológica que culminou na Era da Informação, período em que vivemos hoje, possibilita também uma perigosa armadilha para a privacidade dos usuários. Ao mesmo tempo que aumenta a possibilidade de pesquisa nos mecanismos de busca, aumenta também o poder destes mecanismos uma vez que acabam tendo acesso a todas informações da pesquisa do usuário, coletando informações de suas preferências e interesses. E isto vai mais além se pensarmos que estes mecanismos de busca fazem isto com todos usuários, e desta forma consegue mapear movimentos dessa massa e até mesmo determinar tendências.
È o que acontece nos dias atuais com o Google. Conforme dados de pesquisa realizado por Christian Magalhães, do Instituto Federal Sul Riograndense, 96% das buscas na Internet no Brasil são feitas através do Google. Logo o poder de indução deste mecanismo de busca na vida das pessoas é muito grande. Outro poder de indução do Google é que as pessoas não lêem muito além da primeira página. 64% dos usuários de sites de busca não passam da primeira página de resultados e 90% dos usuários de sites de busca abandonam uma busca após a terceira página. Ou seja é hoje o mais poderoso mecanismo de busca tanto pelo seu alcance quanto pela indução que causa na pesquisa dos usuários que conforme os dados apresentados acabam por optar entre as primeiras respostas apresentadas pelo Google.
Antes de uma análise crítica objetiva, porém temos que conhecer a história da Internet e do Google. Até o final dos anos 1970, só existiam aqueles computadores enormes, chamados de mainframes. Conforme o Wikipedia(alias outra ferramenta poderosa de busca de conteúdo, tendo ultrapassado até mesmo a credibilidade da Enciclopédia Britânica): “Apenas grandes empresas e bancos podiam investir alguns milhões de dólares para tornar mais eficientes alguns processos internos e o fluxo de informações”. No entanto, em 1976, dois jovens, Steve Jobs e Steve Wozniak, criaram a Apple, uma das empresas que mudaria o rumo da comunicação, pois possibilitaram a venda de computadores para uso pessoal. Em 1989 Tim Berners-Lee cria a world wide web, no intuito de conectar estes computadores particulares uns com os outros. Surge em 1994 o Yahoo como um mecanismo de busca de dados na internet. Mas o “boom” acontece mesmo em 1998, quando dois programadores de Stanford, Larry Page e Sergey Brin, criam o Google, um mecanismo de busca na world wide web, no intuito de facilitar a procura de vários conteúdos diversos em um só lugar. O nome Google é derivado da palavra "googol", que é a representação de um número um seguido por cem zeros, e foi escolhido para mostrar a quantidade de informação a busca podia processar.
A internet foi evoluindo, surgindo os embrionários das redes sociais como o friendester e lojas que vendiam de tudo através de mecanismos de buscas e respostas sugeridas como a Amazon. Em 2004 o Google lança o Gmail com 1 gigabyte livre- o que no período era algo inimaginável- e em agosto lança suas ações na bolsa. A partir de 2005 a busca tornou-se o segundo mecanismo mais usado na internet, só atrás do email. Hoje o Google reina absoluto como o maior, mais conhecido e mais usado mecanismo de busca conforme escreve Martha Gabriel em seu livro Mecanismos de Busca(2004).
Neste livro ela compara os mecanismo de busca a oráculos digitais. Com o aumento da sede por informações, aumentam cada vez mais as buscas por imagens, palavras, textos, sites de serviços, vídeos, etc...., causando assim uma necessidade de aconselhamento, uma espécie de validação por um “ente maior”, uma vez que se busca alguém, no caso algo, para dar as respostas aquelas perguntas que temos, tal qual como os oráculos dos textos sagrados ou mais recentemente na cultura contemporânea, o Oráculo mostrado na trilogia de filmes Matrix. É o poder dos oráculos em determinar os nossos caminhos e em ambos caso, seja tratando o oráculo como uma pessoa e/ou um ser iluminado ou como um mecanismo de busca na internet, a aceitação do resultado está diretamente ligado à confiança que atribuímos a ele, uma vez que desconhecemos a origem de seu conhecimento. “ ...a partir do momento que usamos tais mecanismos e acreditamos no resultado recebido, ouvindo sua voz, damos a eles poder e credibilidade.” (Martha Gabriel, Marketing de Buscas, 2009)
Deste questionamento é que advém questões filosóficas mais profundas sobre o uso do Google, para além da simples análise mercadológica, embora também importante. Será que sabemos onde o mecanismo de busca procura para informar aquelas respostas? Serão aquelas as melhores respostas? O quanto isso influencia em nossas decisões?
Estudos diversos apontam que se considerarmos a web como um todo temos uma web ainda mais profunda do que aquela que os mecanismos de busca podem captar. Ela é muito maior que a web visível, é a chamada web profunda, com estimativa de mais de 500 bilhões de páginas. São conteúdos trancados por trás dos bancos de dados que os mecanismos de busca não podem captar. Assim, os mecanismos de busca, mais especificamente o Google, o oráculo digital, faz buscas apenas em aproximadamente 2% da web.
Por fim, como abordado no início, o fato de o Google ter acesso a todo uma base de dados dos gostos dos usuários. São mais de 1 milhão de servidores ao redor do mundo. Críticas tanto ao Google quanto outros mecanismos da internet tem levantado a questão da privacidade, como do ativista Richard Stallman, criador do movimento software livre. Indo na contramão até mesmo de seus próprios ideais, uma vez que o ideal de liberdade previsto pela internet, em conectar pessoas em todo o mundo, acaba por ser um tanto quanto utópico. Em entrevista ao jornalista Marco Aurélio Weissheimer, da Carta Maior, quando do 13º Fórum Internacional de Software Livre, disse: “Após um período de euforia e liberdade, os utilizadores da internet devem começar a tomar cuidado, pois tudo o que fazem está a ser gravado e classificado. A palavra “tudo”, aqui, não é força de expressão. É “tudo” mesmo.”
Cabe a cada usuário saber os perigos do uso e prever de que forma vai utilizar, sabendo beneficiar-se do poder que a internet dá em termos de adquirir informações, porém com a noção de que não se ganha nada sem dar em troca e que sim, sua privacidade não será respeitada. Não acredito que devamos demonizar o Google nem qualquer outra empresa que tenha como produto mecanismo d busca. São ferramentas importantes, tanto comercialmente, quanto para o acesso à informação. Devemos ter mente que tentativas de censura são mais maléficas ainda e que os órgãos governamentais ta,mbém fazem sta triagem e controle sobre os dados dos cidadãos, sem sofrerem qualquer contestação e ferirem da mesma maneira a liberdade das pessoas. Seja na liberdade de acesso como a China Comunista tem feito, seja nos Estados Unidos Capitalista com o exemplo da caça a Julian Assange, do Wikileaks. Nós, usuários, também somos responsáveis pelo que postamos em nossas páginas no Facebook, Twitter e outros tantos. Como diz o Oráculo à Neo, pode-se mostrar o caminho, agora quem trilha é a própria pessoa e ela é responsável por isso. È livre arbítrio e lei da causa e efeito. Diz ela (pois o oráculo em Matrix é um senhora): “Mas a pergunta que vai fritar seus miolos é: você teria derrubado o vaso se eu não tivesse dito nada?” . A conclusão é que nós quem devemos seguir o coelho e ter a percepção do que é real ou não e usarmos, porém, de forma consciente o universo virtual de modo que esta liberdade vigiada por estes grandes oráculos, como o Google, pode nos levar assim como no filme Matrix até o paraíso de Zion ou a completa destruição.

Fabricio Ungaretti, 31 anos, é Relações Públicas formado na UFRGS e cursa MBA em Marketing Digital na IERGS. Trabalha na Secretaria Estadual de Comunicação e Inclusão Digital do RS e é sócio-proprietário da Sinal Master Design(www.sinalmasterdesign.com.br)