Ética? E eu com isso?
Por Reginaldo Rodrigues
30/10/2011
O meu amigo, jornalista Roney Lobato, iniciou um artigo em um determinado
momento suscitando-nos a uma reflexão. Devolveria o troco que, por ventura,
a funcionária do caixa teria lhe dado errado, se você tivesse percebido o
erro? Ou faria de conta que não tivesse visto? Entregaria ao dono uma
possível mala de dinheiro, encontrada na rua, se você soubesse de quem ela
era? São perguntas para muitas pessoas difíceis de serem respondidas nos
dias de hoje. Isso, porque o famoso “jeitinho brasileiro”, aliado à
degradação dos princípios éticos tem falado mais alto no cotidiano do nosso
povo. Pela escrita do autor, esse comportamento seria algo cultural no
Brasil, tanto é que em outro trecho do mesmo artigo ele cita exemplos de
pessoas que se tornaram notícia pelo fato de devolverem malas de dinheiro ou
bens de valor considerável aos seus respectivos donos. Deveria ser regra,
mas é exceção. Os valores confundem-se e não temos mais certeza do que é
correto e do que não é, do que é ético e do que é antiético e assim por
diante.
No ambiente corporativo vemos e ouvimos vez por outra que um determinado
profissional foi demitido, pois era suspeito de espionagem ou tráfico de
informações. Diz a lenda que Bill Gates trabalhou na Apple, roubou ideias e
segredos para em seguida fundar a Microsoft. Certa vez Steve Jobs sobre isso
disse: "Como eu me sinto com Gates ficando rico com as ideias que tivemos...
bem, a meta não é ser o homem mais rico do cemitério". Outro caso “famoso” é
o da Coca-Cola que teve acesso a segredos de estratégias de vendas e
marketing da rival Pepsi. A marca Pepsi era franquia do grupo argentino
Baesa e tinha como objetivo aumentar sua participação no mercado brasileiro
de refrigerantes, controlado pela Coca-Cola, que dominava cerca de 50% das
vendas, comparado com 6% da Pepsi. A Baesa tinha como objetivo chegar a 30%
de participação no mercado em poucos anos. Foi descoberto que um técnico de
som gravou reuniões da Baesa e entregou as fitas das conversas à Coca-Cola,
que ficou sabendo de todos os planos estratégicos da Pepsi, podendo assim
tomar as medidas adequadas para se prevenir. A Pepsi, que conseguiu aumentar
as vendas no começo para 8% do mercado, despencou para 4% em tempo muito
curto e depois de seis meses o grupo Baesa vendeu a franquia da Pepsi para a
Brahma.
Poderíamos citar vários outros casos envolvendo marcas conhecidas. Reduzindo
a discussão para micro-ambientes, um conhecido meu tem uma fórmula de molho
especial para sanduíches, que não conta nem para a esposa. Mesmo no período
em que não atuava no segmento de alimentação, agora voltou, divulgou a tal
receita. Outro exemplo parecido, empresário do setor de veículos, um amigo
de longa data, descobriu, não sei como, um jeito de fazer doce de leite sem
a adição de açúcar. Foi inclusive entrevistado em programas de Tv onde os
jornalistas tentaram de todas as formas, sem sucesso, extrair o segredo.
Posso garantir que o doce é uma delícia.
Mas onde queremos chegar, de maneira objetiva, com essa discussão? O
objetivo é saber, ou propor uma reflexão, sobre até que ponto é interessante
repassarmos os conhecimentos aos nossos funcionários e estagiários. Um
autor, não me lembro o nome, afirmou que o conhecimento não vale
absolutamente nada se não puder ser compartilhado. Por outro lado uma antiga
professora minha do curso Gestão Estratégica em Marketing disse que devemos
ensinar o “pulo do gato” e não o “puuuuuuuulo do gato”, ou seja, nunca
ensine tudo sob pena de criar um concorrente futuro.
Em época de concorrência desleal e acirrada é sempre prudente tomar certos
cuidados. Os valores estão distorcidos, as pessoas não se respeitam e não
existe consideração para com o outro, como afirmou Lobato em seu artigo.
Hoje você estende a mão, apoia, ensina, ajuda, e amanhã poderá ser
surpreendido com uma sonora bofetada. Pior, isso é normal. Por mais que
saibamos disso, é difícil aceitar tal comportamento, considerado uma
traição. Mesmo saindo do padrão clássico da traição, que remete-nos ao
adultério, atitude assim pode ser tão dolorida e sofrida quanto. Mas o
mercado é frio, pessoas são calculistas por estarem neste contexto. Embora
simpatize mais com a teoria do citado autor desconhecido, não dá para
desprezar a opinião da minha “querida e velha professora” Ruth.
Reginaldo Rodrigues é Graduado em Comunicação Social com Pós em Gestão
Estratégica em Marketing - Palestrante e Consultor - Blog:
reginaldorodrigues100.blogspot.com - Twitter: twitter.com/reginaldorod -
Site: www.rcem.com.br