Fake - Identidade Virtual
Por Jorge Antonio Monteiro de Lima
17/07/2010
Os olhos são castanhos, ela diz que são verdes. Tem 1,55 de
altura, mas colocou que tem 1,74, bem cheinha, pouco acima do peso ideal mas,
neste universo é apenas gostosa. A foto tratada deu uma bela ajuda no visual da
moça. Diz que mora em Ipanema, mas reside em Engenho de Dentro. Em seu perfil,
versa dois idiomas, mas mal fala português. Colocou ainda que está concluindo o
curso de engenharia, mas bombou repetidamente quatro vezes e não saiu do
terceiro período. Diz adorar Gabriel Garcia Marquez e, realmente, já comprou
todos seus livros só que não leu nenhum.
Assim é seu fake, sua identidade virtual, sua apresentação nas telas de um orkut
ou qualquer meio eletrônico semelhante. E esta é a identidade que um indivíduo
passa a querer ser, um desejo que - racionalmente - pela fantasia, pode ser
assumido enquanto identidade.
No campo da psicopatologia do mundo virtual isto é acentuado, quebrando a
ligação entre o real e o virtual, o concreto e o imaginário. Há um universo
imenso entre querer ser e nossa realidade.
Muitos dizem que o problema não é novo, não pode ser visto como ligado apenas ao
mundo virtual, porém a questão passa a ser nova, na medida em que o instrumento
potencializa, o grau de desconexão com a própria identidade, reforça os
mecanismos de defesa e a despersonalização. Pessoas a cada dia mais, abandonam a
própria vida para viver em função de uma vida virtual.
Sua fantasia torna-se tão intensa que o indivíduo passa a adotar seu fake como
aspecto de sua identidade. Perde assim, o que realmente é, e passa a ser o que
deseja, em fantasia distanciando-se de sua essência. Tudo que é visto como
nocivo, doloroso, e que traz conflitos à personalidade, no campo do virtual é
negado, pois este universo pode ser utilizado como mecanismo de defesa e fuga.
Muitos casos gerando um verdadeiro alter-ego, uma dupla personalidade, um alguém
muito além de mim. A alienação por negar-se aspectos construtivos da vida. E o
interessante é que neste sentido, o racionalismo justifica a neurose e o
abandono da própria vida. Assim, muitos acabam justificando o que fazem, dizendo
que é moderno, se todo mundo faz, porque eu não posso fazer. Larga de ser
careta...
Esta "mentira" quotidiana ligada à personalidade vira um aspecto Sombrio da
Persona, na proporção em que o indivíduo projeta em si mesmo aspectos que ele
não tem, mas que fazem parte de uma necessidade para um aval social. Ligado a
uma auto-estima baixa, o processo estende-se ainda mais na carência afetiva,
pela necessidade de aprovação em um universo não real e imaginário.
A desconexão, por vezes, é tamanha que o próprio indivíduo passa a ter
dificuldades para estabelecer os limites entre a realidade e suas fantasias. Mas
seu fake é uma gracinha ela própria já se apaixonou por ela...
Este é o processo de uma visão distorcida entre o querer e o ser. No campo do
desejo, deturpamos o que realmente somos e negamos nossos piores defeitos,
especialmente quando temos a mão a ferramenta mágica, o elixir da longa vida, o
segredo da juventude eterna. Muita maquiagem, todavia nem sempre apazigua
tamanha feiúra.
Um dia a realidade volta a se impor como ela realmente é, e o fake se aperceber
de que não passa de mais uma ilusão programada para ele próprio. Céus quanto
vazio... querer
Jorge Antônio Monteiro de Lima é pesquisador em saúde mental, Psicólogo e musico Consultor de Recursos Humanos Consultoria para projetos de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais email: contato@olhosalma.com.br - site:www.olhosalma.com.br