Faz de conta que sou - a identidade virtual
Por Jorge Antonio Monteiro de Lima
17/07/2010
No passado era comum ter o colega com apelido o narigudo era o "Tucano”, a
menina alta era a "girafa", o menino ruivo o "cotonete", e assim se vivia nossa
adolescência. A teoria era simples bastava apelar que o apelido pegava e não
havia o que o retirasse. O apelido era como uma charge que acentuava algum traço
da fisionomia da vítima. Especialmente aquele traço indesejável, mas que era
seu, não havia como negar tenta disfarçar, tenta ocultar, faz plástica, mas...
Hoje tudo mudou apelido é a gente mesmo que se coloca. Para se embrenhar no
mundo do virtual e comungar a vida de um cômodo fechado a outro.
Aquele traço de realidade que dizia muito de você mesmo que esfregava em sua
cara sua Sombra - aquilo que você tem, mas não aceita - que surgia nos traços de
sua própria fisionomia, era o que te fazia perceber as nuances e as vilesas de
nosso mundo cruel que não passa a mão na cabeça de ninguém. Hoje agradeço a cada
um que tirou no meu passado sarro de minha cara, por que não enxergava direito,
por que tive problemas. Hoje vejo que meus antigos colegas só reproduziam minha
realidade que hoje até eu acho graça. Sem o saber me fizeram um grande favor me
preparando para a vida.
Mas o mundo deu sua volta e já não mais estamos no mesmo lugar. Hoje apelido sou
eu que me dou. A cada Chat, a cada grupo, Orkut, hoje sou eu quem escolhe meu
próprio nick. Acho que inclusive por isto que têm tantos tão sem graça, tão
inexpressivos, tão sem criatividade. Talvez retratando a inexpressão da grande
massa, a falta do interessante, do criativo e do real.
Falando dos apelidos virtuais temos de nos adentrar ao processo de uma
construção de identidade virtual.
Tudo começa pela escolha de um PC um computador pessoal.
Hoje este item da vida já faz parte de inventário, divisão de bens e tornou se a
figura do amante por excelência. E um amante ciumento que exige seus direitos a
sua quota da vida. Tão possessiva que até verbalizamos "meu computador" como se
falássemos de uma namorada, um bem, um ente querido. Outro dia peguei um de meus
funcionários conversando todo dengoso com a CPU: "vai queridinha, não dá pau
agora não, mexe amorzinho, vai minha lindinha, vai estou quase, vai linda que
estou quase lá...”.
Só espero não me tornar padrinho de uma Cpuzinha!A coisa é tão projetiva no
contexto psíquico que damos vida a uma máquina e a tratamos qual um ser humano
destinatário de nossos afetos, de nossa alma, de nossa vida.
Brigamos com a máquina, nos enamoramos dela, e assim a tornamos parte de um
relacionamento interpessoal. Como a base e o destino são o virtual tudo fica com
seu destino certo. Cervantes colocou Dom Quixote brigando com moinhos de vento
hoje damos vida à máquina diariamente. Loucura ou fantasia demais?
Ficamos com a segunda opção e este é nosso maior problema. Antigamente
buscávamos alicerces concretos a partir da nossa realidade para a construção de
nossa identidade. Boa parte disto se perdeu diante deste universo de fantasia
deste mundo virtual. Em um contexto psicopatológico isto vem se acentuando de
forma tão gritante que muita gente já não sabe mais quem é, vira a crise de
Super herói que não sabe mais se é um Bruce Wayne ou se é Batman.
Esta dicotomia entre a realidade e a fantasia está na base de uma série de
crises de valores que vivemos hoje em dia. Morais, afetivos, espirituais tudo
com muito milagre e pouca carne e osso. A crise de desajuste social e
comportamentos desviantes imperam neste projeto. Mas quem mais sofre são os
afetos a máquina fortalece a masturbação, mas distancia o beijo, o toque, o
abraço. Mas tudo bem você vira um super carente...
Jorge Antônio Monteiro de Lima é pesquisador em saúde mental, Psicólogo e musico Consultor de Recursos Humanos Consultoria para projetos de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais email: contato@olhosalma.com.br - site:www.olhosalma.com.br