A Internet e o Voyeurismo
Por Jorge Antonio Monteiro de Lima
17/07/2010

Faltou a luz em pleno domingo. Apenas mais um apagão, daqueles que se prometeu que jamais voltaria a ocorrer. Colapso! O filhote de fantasma, branco qual leite, nem mais necessitava de raios-X, bastava colocá-lo contra a luz para ver seu interior. Anos na mesma rotina. Da escola pro computador e vice versa. Quer o encontrar pleno sábado à noite, basta ligar o MSN. Mas agora, a revolta, domingo sem luz, tragédia, a vida perde seu sentido, nada tem graça, esmurra as paredes, xinga e chora, tragédia: "o que eu fiz para merecer isto é castigo".

Justo no dia em que ele havia marcado com aquela gatinha um streap tease, ontem de madrugada ela jurou que hoje faria, todinha nua, para ele em sua webcam. Ele mora em São Paulo, ela no Acre, dizem que namoram... Sessões de masturbação coletiva fazem parte deste cardápio, sexo seguro, ele aqui, ela lá, entre ambos um micro, o melhor preservativo que existe, risco de concepção zero. O único problema que existe é um teclado viscoso, sebento por suor e outros fluídos. "Maldição tudo perdido, sem energia nada rola mundo maldito!”.

Fora os demais compromissos existenciais imperdíveis. O que será que vai ocorrer no Chat da turma? E o que vão colocar em seu orkut? Tragédia! Fora os MP3, o game com a patota, e o que mais pudesse aliviar. Agora fica no quarto, paredes brancas, um velho gibi de meio século, e o tédio de ter de sair do quarto. Vida insuportável.

Mamãe e papai reclamam: "você está sendo injusto com nosso pimpolho"! "Ele é um gênio da informática, não nos dá, nem jamais nos deu nenhum tipo de trabalho. Não fuma, não usa drogas, não bebe, não chega tarde em casa, não bateu carro, não engravidou ninguém, é um santo! Nosso anjinho é apenas um rapaz quieto, nem a mesa conosco se senta, vive lá em seu quarto, almoça na frente de seu computador e ali vive o dia todo."

Realmente, o que o rapaz deixou de viver pelo crivo de trabalho é o ideal de um bom filho. Pena que diante de seu vício tenha deixado também o lado bom da vida de fora. Um rapazinho de seus 40 anos quietinho.

Como este, hoje em dia, vivem outras milhares de pessoas. O problema não é o uso da informática como entretenimento, para o trabalho. O problema é seu uso excessivo, um vício que se torna grave, na medida em que se torna o centro da vida. Na falta de energia, a crise, a agonia que impera no fundo do espírito, por uma construção de uma identidade ilusória.

O voyeurismo é na atualidade a prática de vida mais constante e freqüente. A maior tara de nossa civilização. Tudo começou com as novelas, televisão e agora, na informática. Quantas pessoas hoje em dia não deixam de viver, para ficar horas plantadas na frente de uma tela, buscando preencher seu peito com alguma emoção alheia? Telespectadores internautas da vida. Estão longe, em algum lugar, perdidos batendo palmas ante o espetáculo da vida alheia.

Não beijam na boca, mas se contentam em assistir ao beijo da atriz, não brincam, mas perdem horas inteiras assistindo diversão no Youtube, assim é em todas as atividades triviais da vida.

A vida é tão vazia, tão sem sentido que a necessidade de encontrar algo para preencher é imperiosa. Buscar algo de novo dá muito trabalho e, o atalho mais prático, é substituir a própria vida pela emoção alheia. Assim, a tecnologia criou uma lacuna de ansiedade patológica deixando o ser fora de si próprio. Um agente capaz de se observar, interagir, viver tudo em terceira pessoa. Nada de responsabilidade, tão pouco de vida. Sem problemas, mas sem emoção, uma apatia interior um alguém que retirou férias não remuneradas de si próprio. Levando a vida de barriga, deixa o tempo rolar, quem sabe um dia acorde quando a bigorna do destino triturar e ou fundir seu micro.

O ápice do problema surge quando o tempo passa, os dias se vão, e os vínculos afetivos são substituídos por ilusões que não sustentam a afetividade. O resultado é a carência e a incapacidade de interação genuína. No virtual tudo bem, mas chegou perto curto circuito.

Esta introversão social tem um sentido patológico por seu exagero e quebra de uma dinâmica natural. Vivendo a vida alheia a vida torna-se um faz de conta, um castelo mágico, o reino mágico de Pollyana. Tudo vira um arco-íris, visto que se não satisfaz, basta mudar de canal, de Chat, de provedor...

Mas a casa cai, o computador pifa, o vírus surge, a energia acaba e o vazio de tudo surge, é só uma questão de tempo, a ilusão dá forças ao indivíduo para que este acredite estar imune. Quem sabe esta bela adormecida um dia acorde...

Jorge Antônio Monteiro de Lima é pesquisador em saúde mental, Psicólogo e musico Consultor de Recursos Humanos Consultoria para projetos de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais email: contato@olhosalma.com.br - site:www.olhosalma.com.br