O Lado Lunar das Relações de Consumo
Por Paulo Vieira de Castro
08/05/2010
O Neuromarketing nos mostrou que a atividade cerebral dos homens é
substancialmente reduzida a partir do momento em que estes tomam uma
decisão de compra. Ao contrário das mulheres, que demonstram uma
atividade cerebral contínua em três áreas distintas: uma, que concentra
a recompensa, outra que tem a ver com o planejamento e a organização, e
uma última área onde se calcula e monitoriza as desordens
obsessivo-compulsivas. O que é que isso quer dizer quando pretendemos
negociar com uma mulher?
Para melhor compreender o que acabo de afirmar, imaginemos que um homem
vai a uma festa, encosta-se ao balcão e olha o foco. A mulher repara em
tudo, em todos os detalhes do espaço, em todas as pessoas, avalia o
espírito da festa, etc..etc.. Se passados alguns dias voltarmos ao
assunto, por norma, ele limitar-se-á a dizer: a festa foi boa ou má. Ela
passará as próximas horas falando sobre como a foi festa, vivenciando
todos os pormenores, trocando informação: atualizando-se! Ao nível da
excitação cerebral isso significará que a mulher não “se apaga” com
tanta facilidade quanto o homem após o momento de consumo. Há de se
realçar que nenhum destes processos é intencional.
Desde logo, ela pensa em rede e ele o faz através de sucessivos degraus.
Assim, ao contrário do homem, que se concentra no foco, a mulher presta
atenção ao todo, que é tudo, através da intuição e do sentimento. Certo
é que a mulher recolhe mais informação, integra os detalhes com maior
rapidez e lida com padrões mais complexos. Pelo que quando toma decisões
de consumo ela considera mais opções, fundando-se numa reflexão mais
flexível e cooperativa. Surpreendidos?! Bom, o melhor será começar por
desenhar novas estratégias exclusivas para o lado lunar dos seus
clientes e consumidores.
Teremos de procurar um novo posicionamento estratégico, levando em
consideração um lado feminino do ser humano que não é mais condição
exclusiva das mulheres, mas sim uma predisposição de homens e de
mulheres para viver pelo feminino, pela emoção, pela inclusão, pela
escuta e pelo diálogo. Barack Obama é um bom exemplo desse
posicionamento andrógino. O maior de todos os equívocos dá-se a partir
do momento em que o homem se imaginou a si próprio desde o exterior,
perdendo deste modo a visão do todo. Pelo seu lado, a mulher habituada
que está a partir das suas fraquezas, realiza a capacidade de ver nisto
uma vantagem, chamando a si uma visão holística, assumindo uma
responsabilidade interna, mesmo antes de celebrar a alegria de viver em
sociedade.
O lado lunar das relações
A contribuição das mulheres para uma negociação não hierárquica, é mais
variada, menos convencional, apresentando uma habilidade excepcional
para vivenciar a atual era da complexidade. Por que não aproveitar isso
quando pensamos em momentos de consumo?! À postura, tradicionalmente,
feminina onde todos poderão ganhar na relação (win-win),o homem responde
com uma atitude do tipo win or loose (ganha ou perde). Neste contexto,
para as mulheres, arriscar tudo será tão grave como não arriscar nada.
Afinal, acreditar em tudo é tão grave como não acreditar em nada. E este
é um potencial fantástico quando pensamos no fator fidelização com base
numa nova transparência. Mas o que é que aproxima homens e mulheres nos
momentos de consumo? Pessoalmente acredito que será o velho cérebro; o
reptiliano.
Áreas do Cérebro
Os mecanismos humanos de decisão poderão estar relacionados com áreas
distintas do cérebro. Resumidamente, e de forma muito simplista,
poderemos referir a existência de uma área no cérebro que será
responsável pela investigação, pela lógica e pela dedução. Contudo, esta
- por si só - manifesta-se incapaz de explicar as relações de consumo.
Quantas destas são assumidas de forma inexplicável, mesmo irracional?
Esta dúvida remete-nos, com as necessárias cautelas, para a existência
de outros campos cerebrais para além do racional. A relação entre a
mente e o cérebro humano, a intuição, a predisposição para a abertura a
campos quânticos de ligação ao todo que é tudo levam-nos para além do
novo cérebro, reconhecendo-se, ainda, a existência de um cérebro do
meio, onde vamos encontrar as emoções e os sentimentos. Aqui são ainda
partilhadas as descobertas com os outros dois cérebros. Mas, será que a
emoção e os sentimentos são suficientes para explicar o comportamento de
consumo dos seres humanos?! Não, pelo menos de uma forma completa.
Resta-nos o velho cérebro, o mais profundo, o responsável por nos
mantermos vivos. Aqui poderemos encontrar o que Jung relacionou com a
herança histórica de todas as civilizações, uma espécie de consciência
coletiva. O cérebro reptiliano, ao fazer a ligação com a herança dos
nossos antepassados, alerta-nos para uma dimensão onde ser homem, ou
mulher, é absolutamente indiferente. Poderemos entender melhor esta
possibilidade se imaginarmos que a consciência é algo que se cria fora
de nós, mantendo-se fora de nós, não sendo por isso acessível ao
mapeamento cerebral.
Ora, ao acreditarmos que existe uma possibilidade que aponta para um ser
humano, por exemplo, programado para acreditar, logo se coloca a
hipótese da crença ser ativada, igualmente, nas relações de consumo.
Neste particular parece que as mulheres apresentam uma maior
resistência, direi mesmo preparação, para lidar com a dimensão dos
conceitos, apresentando uma outra inteligência perante os fatores de
mercado. Concluindo, direi que urge pensar novo desafio, chegar ao lado
lunar das relações de consumo.
Paulo
Vieira de Castro é mentor do modelo “Marketing de Proximidade Real”, consultor
de empresas, Diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto
Superior de Administração e Gestão do Porto – Portugal. E-mail geral@paulovieiradecastro.com