Lições para um Mundo Grátis
Por Paulo Vieira de Castro
23/02/2009
Em tempo de crise a criatividade parece estar do lado dos mais
desfavorecidos. O que poderão os administradores de empresas aprender
com aqueles que vivem literalmente na rua? Como poderão os sem teto
inspirar a liderança nas organizações?
Primeira lição: você vive do que recebe, mas constrói a vida com o que
dá
Apesar do arrebatador avanço da economia contra intuitiva, em especial
nas últimas duas décadas, haverá na lógica desta nova economia com um
envolvimento preferencial e complementar com critérios que escapam ao
entendimento normativo, isto porque estamos perante variáveis meramente
auto-referentes do ser humano.
Perspectivando uma nova economia solidária, no seu último livro “DAR”,
Bill Clinton reformula o sentido do ato, através de um olhar inspirador
na forma como cada um de nós poderá mudar o mundo. Há algo que eu
confirmei na rua; tudo o que dei é meu, tudo o que dei contínua comigo.
Assim, no final, tudo o que restará será o que compartilhei. Manterei
este mesmo sentimento relativamente ao que simplesmente comprei ou
vendi? Para que isso aconteça talvez seja necessário às empresas uma
nova transparência de propósitos, novos valores, um novo enfoque
relacional. Refiro-me à criação de comunidades de proximidade real.
Será previsível um crescimento de mercado no que à solidariedade diz
respeito. Para além de assegurar a sobrevivência básica dos mais
necessitados, surgirão novas responsabilidades. Desde logo dar a si
mesmo, ou à sua fonte de inspiração, abrindo caminho a um maior
compromisso com a espiritualidade, na senda de modelos de aplicação não
periférica à responsabilidade de se ser humano, passando a cumprir
compromissos estratégicos baseados em valores essenciais à
solidariedade, à responsabilidade inclusiva, à compaixão, à
espiritualidade, ao estar grato, à paz interior. Esta será a
oportunidade que faltava para o surgimento de uma nova economia.
Segunda lição: no futuro a economia será interdependente
Na rua a economia de parceria parece não resultar, isto ao contrário do
conceito de interdependência. Acredito que no futuro o sucesso das
grandes corporações dependerá desse entendimento. Aliás, a internet é já
um bom exemplo disso, nos casos em que prova ser possível divergir dos
princípios meramente capitalistas, onde existe exclusivamente uma
partilha de meios, mas raramente de fins. Assim como na rua, nos
negócios, esta ideia implica que todos são, contemporaneamente, a um
mesmo momento provedores e tomadores, clientes e fornecedores. Isto é já
o que acontece com alguns negócios na internet.
Esta visão de futuro para as relações empresariais antecipa o
aparecimento de um novo conceito de economia relacional, surgindo a
economia interdependente. Nas estratégias solidárias é isso mesmo que
acontece: aqui também se dá e recebe o maior dos bens, o afeto
inclusivo, a confiança mútua, afetuosa e permanente, a segurança capaz
de granjear a paz interior. O aspecto verdadeiramente inovador é que
todos ganham nesta relação, e não exclusivamente os diretamente
envolvidos. A matemática, a química e a física há muitas décadas que
conseguiram provar que na natureza tudo está interligado;
interdependente. Como poderiam as relações humanas escapar a esta
realidade?
Para a gestão isto significará a passagem das parcerias estratégicas
para a fundação de uma economia de comunidades, onde cada um contribui
individualmente, não competindo, não cooperando, mas sim
“inter-dependendo”.
Para entender de forma completa a ideia da interdependência nos negócios
o ser humano terá de voltar à fonte, ao sopro vital, indo além do
autoconhecimento, ou seja à auto-realização.
Terceira lição: ser o exemplo que queremos ver nos outros
Apesar de se tratar de uma visão meramente pessoal, acredito que todos
teremos a agradecer o fato de poder dar o melhor de nós próprios. Mas,
quantos de nós estamos dispostos a isso?! Uma nova consciência para o
mundo dos negócios terá, necessariamente, que passar pela
responsabilidade de, como diria Ghandi, sermos o exemplo que queremos
ver nos outros. Mais uma vez dar, neste caso dar o exemplo.
Todos pretendemos vencer. Para os que estão na rua isso significará
sempre, quanto a mim, a vitória sobre si mesmo. Este é, igualmente, um
desafio para o qual muitos dos nossos administradores de empresas não
estão, ainda, preparados.
Na rua muitos foram os que deixaram de querer estar certos para passar a
querer – simplesmente - estar em paz.. Neste contexto o que será para a
economia mudar de perspectiva? Simples; porque não deixar de pensar
tanto no fim do mês e pensar mais no fim do mundo?
Quarta lição: o centro vital do Homem estará na auto-realização
Fernando Pessoa dizia que conhecer é como nunca ter visto pela primeira
vez; e isso é certo. Ao contrário da ideia avançada pela sociedade do
conhecimento, onde se mostrava central conhecer, a proposta agora será a
de auto-realizar. Uma outra mudança que parece irreversível é a que
concerne à medida da satisfação, passando esta a ser calculada na
economia interdependente, fundamentalmente, com base em níveis de
auto-realização de todas as partes da relação. O investimento será
sempre na relação.
Quinta lição: a economia não terá de ser sustentável, mas sim inclusiva
A realidade que se vive na rua fez-me perspectivar, ainda, o próximo
passo, uma nova doutrina econômica aparentada a um entrepreneurial
capitalism elevado ao seu expoente máximo de responsabilidade inclusiva,
onde assim como na natureza, também na economia assistiremos ao retorno
à natural evolução criativa, em que encontraremos “todos” que são
maiores do que a soma das suas partes. Para além de jogarmos com ideia
de interdependência, passaremos a reconhecer no fator impermanência uma
variável estratégica de oportunidade, cabendo à gestão de topo
potenciá-la, ao invés de a tentar isolar, como se de uma bactéria nociva
se tratasse. A mudança é - afinal - o maior bem de todos os homens e
mulheres.
Sexta lição: a nova lógica de se ser humano
Não será suficiente conhecer a responsabilidade como caminho para um
mundo mais justo. Lembre-se que conhecer o caminho não é a mesma coisa
que trilhá-lo até ao seu termo. Garanto-lhe que há alguém muito especial
que o espera no final do caminho: você!
Na dimensão dos valores humanos não existe a verdade dos outros. Viver
nesta certeza será assumir a maior responsabilidade das nossas vidas.
Aceitar a importância de tais valores nas relações de mercado, obriga a
que cada um de nós seja um cientista interior, cuja sua maior valência
será a de experimentar a verdade e, consequentemente, estar disponível a
aceitar a mudança como a única certeza. A verdade, desde a sua origem,
revela-nos o ponto onde nada está escondido, onde só a profundidade do
essencial será revelado. Então, seja você mesmo!
Sétima lição: o dinheiro é uma não realidade
Ninguém é vítima do mundo, mas sim da forma como o percebe. Nas
organizações passa-se exatamente o mesmo. Se eu tiver vinte e cinco
milhões de reais, o modo como os uso determina o seu verdadeiro valor.
Na verdade o valor do dinheiro depende diretamente da capacidade que
cada um tem de o aplicar de forma útil. Mas, qual é o autêntico valor do
dinheiro para quem vive na rua? Estimo que um real possa valer duas a
três vezes mais para um sem teto que para um elemento da classe média.
Surpreendidos?
Oitava lição: só aquele que vê o invisível poderá realizar o impossível
O mundo vai de forma a declarar uma notória impotência da economia
quando a colocamos em contraponto com a felicidade real. Perante uma
humanidade que se debate entre os anseios de uma nova consciência nos
negócios e uma busca individual por um sentido mais amplo para a sua
existência, confrontamo-nos com novos ideais enraizados no mais elevado
patamar da ética empresarial, a espiritualidade. Só esta parece ser
capaz de despertar o princípio organizador, totalizador, integrador de
todas as potencialidades humanas. Como poderia ser diferente nas
relações de mercado?
Nona lição: a inspiração transformadora é o único recurso infinito da
Terra
Tudo na vida é uma doce responsabilidade, não um mero jogo de sorte ou
azar. Este é um entendimento que, desde meados dos anos oitenta, assiste
à figura do Gestor Servidor, também conhecido por Gestor ao Serviço. A
revolução organizacional dependerá da assunção de todos os seus
elementos enquanto agentes de mobilização.
O que falta então para romper com algumas das nossas rotinas? Acreditar
que, para além de desejável, é possível. Seguindo a máxima de São
Francisco de Assis, deveremos começar por fazer o que é necessário;
depois fazer o possível; e, sem dar por isso, estaremos a fazer o
impossível. Parece simples!
Décima lição: aprender mais com a natureza, e menos com a civilização
O que parece estar a mudar é a relação entre economia e felicidade. Como
resposta a esta oportunidade encontramos, agora, formas mais criativas
de enfrentar o mercado, resultando desta constatação o atendimento a
novas propostas de valor. Na rua vemos isso claramente.
Parece um contra-senso, mas não o será se repensarmos o sentido do que é
verdadeiramente importante para a vida humana. Cada vez precisamos mais
de nos manter prósperos, mas ao mesmo tempo – naturalmente -
prestativos, isto de forma inclusiva, sem receios ou ressentimentos,
pelo que daremos, incondicionalmente a nossa inspiração, o nosso tempo,
o nosso talento, etc. Essa é a verdadeira natureza do ser humano.
Está lançado o próximo desafio que se coloca aos criativos das nossas
organizações: vender o que é grátis!
Paulo
Vieira de Castro é mentor do modelo “Marketing de Proximidade Real”, consultor
de empresas, Diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto
Superior de Administração e Gestão do Porto – Portugal. E-mail geral@paulovieiradecastro.com