Marketing Religioso: Catolicismo precisa se reinventar
Por Reginaldo Rodrigues
24/11/2011
Várias foram as manifestações contrárias a publicação quando submeti este
texto à amigos. Ouvi que o tema era muito polêmico e não agregaria nenhum
valor aos meus escritos já publicados ou ao meu perfil de articulista. Ouvi
até uma indagação: "você acredita mesmo q ue as igrejas adotam estratégias
mercadológicas para arrebanhar fieis?" Afirmei categoricamente que sim, o
Marketing está presente nas ações das igrejas. Polêmicas deixadas de lado,
ou não, vamos aos fatos. Li recentemente na revista Isto é que a migração de
seguidores tem aumentado significativamente entre as igrejas. A mesma
matéria fala de uma nova categoria que surge neste cenário, os Evangélicos
não praticantes.
Não só a pesquisa da Isto é, mas todas as outras, mostram que a principal
perdedora é a Igreja Católica que já foi quase absoluta no Brasil. No século
19 o catolicismo no Brasil era quase uma "Comodity". Entre 1991 e 2006, os
católicos no passaram de 83,8% para 68% da população. Esse é o resultado de
uma pesquisa realizada em parceria entre as universidades federais de São
Paulo (Unifesp) e de Juiz de Fora (UFJF). Enquanto isso, o número de
evangélicos no país passou de 9% para 24%, no mesmo período. A pesquisa
também aponta que 5% dos entrevistados em 2006 afirmaram não ter religião, e
5% declaravam outras religiões. Importante ressaltar que a migração acontece
também entre as Igrejas Evangélicas, prova disso é diminuição do número de
fieis (?) da Igreja Renascer, segundo a Universidade Mackenzie, depois das
prisões dos líderes da Instituição.
Outra pesquisa, divulgada pela Fundação Getúlio Vargas, corrobora os números
acima. Segundo a FGV, a proporção de brasileiros adeptos do catolicismo caiu
ao menor nível já registrado desde 1872, quando os Católicos representavam
99,7%. Apesar da queda, o catolicismo ainda é a maior religião no país,
seguida pela igreja evangélica e pelo espiritismo. A Instituição fez um
mapeamento religioso do Brasil que apontou em linhas gerais os seguintes
números: Sem religião 6,72%, Católicos 68,43%, Evangélicos 20,23% e
Espiritualistas 1,65%, em 2009. Acredito que se lembre que a única
disciplina disponibilizada pelas escolas na área de ensino religioso, que
fazia parte da grade, era a Católica e os poucos alunos não católicos
acabavam por assistirem também, sem saber o que seria mais constrangedor,
retirarem-se da sala ou participarem de uma aula que não lhe dizia respeito.
Mas por que será que essas mudanças estão acontecendo?
É absolutamente natural o consumidor experimentar outros produtos, quando os
mesmos surgem como novidade, e as Igrejas Evangélicas são relativamente
novas no Brasil, pelo menos em relação ao tempo de mercado da Católica. A
tendência é que as pessoas experimentem outras, poderão voltar para a
Católica, conheço alguns casos, ou não. Curiosamente, a migração da Igreja
Evangélica para a Católica não é observada em nenhuma pesquisa, pressupomos
que não ocorra. A tendência natural do mercado é que haja uma divisão quando
um produto que não tinha concorrentes passa a tê-los. Exemplos de marcas que
já foram absolutas, e assim como a Igreja Católica hoje precisam lidar com a
"fúria da concorrência" são a palha de aço Bombril, o sab ão em pó Omo, o
aparelho de barbear Prestobarba, isso só para citar alguns.
O conservadorismo extremo, a inércia da cúpula diante de escândalos internos
e a postura diante de questões polêmicas, exemplo disso, ser contrária ao
uso de métodos contraceptivos, são apontados como algumas das causas da
perda acentuada de adeptos por parte da Igreja Católica, segundo
especialistas. Isso não significa, porém que não ocorram mazelas nas outras
Instituições religiosas, haja vista o exemplo dos Bispos da Igreja Renascer
e vários outros casos. A análise pode parecer tendenciosa, mas afirmo que
não o é, pelo fato de a Igreja Católica ser a principal referência religiosa
no Brasil e como tal ser mais evidenciada torna-a pauta constantemente. Não
repercutiria em um artigo as ações de uma Igreja recém inaugurada na esquina
da minha casa. As razões são óbvias: não conheço a "Marca", permitam-me a
utilização do termo, e a mesma tem pouquíssimos adeptos.
Mesmo a pequena Igreja c itada, em breve estará cheia e depois se
multiplicará... como é fácil abrir uma igreja no Brasil. As estratégias de
Marketing utilizadas pelas Evangélicas são as mais diversas. Os programas de
televisão, jornais, revistas e internet são determinantes para a difusão das
seitas. Muito mais eficazes são as expressões verbais e corporais dos
Pastores demonstrando uma grande habilidade de oratória e de retórica
através de persuasivas pregações. A Igreja Católica reage à altura, já temos
santo e beatos brasileiros. Movimentos como a Renovação Carismática, que
mesmo contrariando aos mais conservadores tem papel importante na era da
"Pregação Vibrante", é um show. Falando nisso, padres como Marcelo Rossi,
Reginaldo Manzotti e Fábio de Melo são verdadeiros artistas. Em vendagens,
cachês e em público nos eventos, equiparam-se aos principais nomes do
cenário musical. Mas serão produtos fortes o suficiente para manter a Igreja
Católica no topo do mercado por muito tempo? Acredito que nã o. A Igreja
Católica deveria rever seus conceitos, contratar profissionais, estudar as
ações dos concorrentes e acima de tudo fazer uma Pesquisa de Marketing para
saber o porquê da perda de seguidores. Dessa forma, através de um
Planejamento Estratégico, reposicionaria o seu produto, do contrário, apesar
do sincretismo religioso brasileiro, continuará perdendo a sua fatia de
mercado.
Reginaldo Rodrigues é Graduado em Comunicação Social com Pós em Gestão
Estratégica em Marketing - Palestrante e Consultor - Blog:
reginaldorodrigues100.blogspot.com - Twitter: twitter.com/reginaldorod -
Site: www.rcem.com.br