Metas de vendas: acordo ou imposição?
Por Ivan Postigo
29/08/2010
Um assunto interessante, necessário e complexo. Defendem alguns especialistas
que meta de venda é uma questão ultrapassada. O trabalho dos vendedores
demandaria outra forma de direcionamento.
Raciocinemos:
A empresa precisa crescer para que sócios, acionistas, colaboradores obtenham
maiores e melhores retornos aos seus esforços, riscos e investimentos, como
fazer?
Há uma série de medidas não quantificáveis como um atendimento personalizado,
apoio no ponto de venda, treinamento da equipe do revendedor, mas o resumo da
ópera precisa ser medido, e este, necessariamente, não significa apenas aumento
das vendas, mas das margens e dos lucros. Nessa avaliação de sucesso, meta de
venda é um dos itens.
Sempre é possível vender um pouco mais concedendo descontos, contudo essa medida
não garante o sucesso dos negócios. Encontramos com frequência gestores se
lamentando que reduziram os preços, mas o volume adicional não compensou as
perdas de faturamento total.
Um aspecto que fica muito claro em situações como essa é que os descontos foram
concedidos e não negociados em troca de maior volume. A necessidade ou ânsia por
sucesso rápido pode sim levar ao fracasso.
Analisemos uma situação que encontramos no norte do Paraná com produtos de
consumo:
O vendedor, recém-contratado, vinha desenvolvendo um trabalho de recuperação de
mercado. O volume de vendas não era o que o sócio que atuava como gestor
comercial gostaria. Este conhecido por sua contundência no mercado resolveu
visitar a região e mostrar como deveria ser efetuado o trabalho.
Em todas as abordagens “tirou pedidos”. Vendeu para todos e colocou no mercado
um volume impressionante.
Chamou o vendedor e disse: - Assim é que se vende. Como você não teve qualquer
interferência no processo e concedi descontos significativos não vou poder lhe
pagar a comissão integral. Esta será de 50% do nosso acordo, mas na liquidação
das duplicatas, não no faturamento como procedemos.
O vendedor envergonhado não discutiu, aceitou prontamente sem expressar sua
preocupação com a quantidade de produtos que os clientes receberiam.
Com uma continha rápida era possível perceber que os clientes receberiam o
equivalente a 3 ou 4 meses de vendas normais. Aquilo só poderia indicar uma
coisa: Problemas futuros!
Foi o que aconteceu, a cada visita o vendedor ouvia: seu produto não gira, estou
arrependido de ter sido convencido pelo seu patrão, comprei muito e agora não
consigo pagar as duplicatas, e assim seguiam.
Duplicatas vencendo, lá estava o vendedor atarefado, não para vender, mas para
cobrar. Essa medida desastrada, além de retirar o profissional de sua atividade,
ainda fechou muitas portas. Afinal, quem quer um produto que não gira?
Para as metas de curto prazo a ação foi um sucesso, mas de longo prazo um
desastre.
Metas precisam levar em conta o que vender, como vender, para quem vender?
Não é suficiente dizer a equipe de vendas que seus objetivos para o próximo
período terão um acréscimo de 20%.
Quando o vendedor está há 10 anos na região e a empresa não tem qualquer
novidade, no máximo uma coleção nova, e esta nem sempre apresenta diferenciais
substancias, crescer 20% demonstra que algo não foi observado como deveria. Que
ação poderia ser efetuada para que, basicamente, os mesmos clientes aumentassem
suas compras de forma tão significativa?
Caso o fato se concretize é necessário analisar os resultados com uma lupa para
não perder qualquer detalhe, afinal ali pode estar a chave do sucesso e precisa
ser estendidas às demais áreas, mas a experiência mostra que isso não ocorre com
frequência.
Na equipe sempre teremos profissionais que não são apenas vendedores, mas
exploradores, os quais não perdem oportunidades e vendem o máximo que a região
absorve e o crescimento das vendas não passará apenas por preços e concessões. Ë
necessário fatos novos e relevantes.
A própria condição de crédito é inibidora das vendas. Qualquer vendedor poderá
lhe dizer que vender é fácil quando receber não é importante. Você consegue
conviver com o fato?
Claro que não, quando a inadimplência se acentua a restrição ao crédito atinge
até os bons pagadores.
Metas de vendas são importantes? Sim, importantes e necessárias. O que não é
medido não pode ser avaliado.
Observe que os atletas, não importa se estejam disputando uma corrida de 100
metros ou uma maratona, não correm contra o adversário, mas contra o relógio.
Isso permite observar quais aspectos devem melhorar para atingir e superar
marcas.
Com vendas não é diferente. Estabelecer um crescimento sem fundamentação não
permite análise. Clientes não compram todos os meses, a mesma quantidade, pelas
mesmas razões, com o mesmo preço.
Visto dessa forma vendas não é um processo aritmético, certo? Ora, mas se
tivermos mais clientes, mais oportunidades de negócios, fizermos mais visitas,
mais propostas, as chances de sucesso aumentam, não?
Correto! Vamos concluir, então, que vendas não é um processo aritmético, é no
mínimo aritmético!
Por essa razão metas de vendas precisam ser debatidas com os nossos vendedores.
É comum estes receberem os “objetivos” nas convenções, em reuniões rápidas,
apenas para formalização, sem que possam efetivamente participar de sua
definição.
Sobre esse assunto gestores poderão dizer: Eles sempre “puxarão” os números para
baixo. Claro, sabem que serão cobrados!
É importante lembrar que vendedores, um contingente significativo, vivem de
comissões. Quanto mais venderem mais receberão, portanto deveriam ficar
contentes com metas maiores. Ocorre que essas metas, normalmente, estabelecem um
parâmetro para prêmios quando superadas e uma reprovação quando não. A linha é
tênue, mas divide o céu e o inferno do profissional.
Quando a linha não estabelece incentivo no caso de sucesso e apoio no caso de
fracasso as rejeições aos novos objetivos sempre existirão.
Quando você como gestor estabelecer uma meta de vendas para um vendedor, uma
região, assuma como seu próprio compromisso.
Sua capacidade de tomada de decisão aumentará substancialmente devido ao rigor
com quem observará os acontecimentos e ficará muito mais fácil para negociar as
metas com a equipe.
E lembre-se, você também tem suas metas a cumprir. Estas serão negociadas ou
impostas?
Ivan Postigo é Economista, Bacharel em contabilidade, pós-graduado em
controladoria pela USP. Autor do livro: Por que não? Técnicas para estruturação
de carreira na área de vendas e diretor da Postigo Consultoria de Gestão
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