O que o amor constrói, o Orkut destrói
Por Jorge Antonio Monteiro de Lima
17/07/2010
Uma bomba atômica. Cinzas, vento, calor e destruição. Na sala da casa duas malas
com as roupas, despedida, adeus... Vá pro inferno! Fim. Na sala, os restos do
finado Dual Core e a sobra de uma tela de plasma moribunda, graças a um vazinho
de violetas. O que começou em uma paquera virtual, em um chat, agora termina
devido a crise de ciúmes inevitável, pelo Orkut. A mesma força cósmica que os
uniu, agora os separa.
Tudo iniciado graças a um comentário maldoso de uma amiga da ex-namorada,
diga-se, eterna despeitada, que se aproveita do momento de fraqueza, de um
excesso de exposição dos apaixonados desavisados para fazer gracejos acerca da
pinta presente na intimidade do jovem marido. "Céus! Como ela sabia de sua
pinta?" Tudo foi resolvido com a serenidade de um parlamentar acuado dizendo-se
vítima de perseguição política. E a pancadaria comeu.
Em nossos estudos sobre as novas psicopatologias do mundo virtual, percebemos
que uma das mais graves é a perda da noção do que é intimidade na vida cotidiana
e o excesso de exposição, que tornou-se rotina por causa dos murais de
convivência e relacionamento, como o Orkut. Ali, cada cidadão posta o que quer,
e invariavelmente vai ler o que não quer.
A crise da falta de intimidade é antiga no meio das telecomunicações, dos
programas de auditório que adoravam o famigerado barraco, e a modismos dos
reality shows, como o Big Brother Brasil. Porém, no Orkut tudo passa a ser
diferente, visto que antes, o agente do escândalo era distante, tudo era como
uma falcatrua política tercializada, que assistíamos de longe. Da televisão para
o convívio diário foi um passo. Não é difícil encontrarmos casais com problemas,
graças ao Orkut e afins.
O problema não está nos meios de comunicação, mas na cultura gerada pelo emprego
desmedido e desavisado destes, na criação de hábitos que levam à
super-exposição. É fácil perceber isso quando se entra em uma comunidade virtual
ou em uma página pessoal. Percebe-se discussões públicas sobre toda forma de
intimidade. É o privado que virou público, o que, em mãos erradas, faz um
estrago imenso. Não é raro encontrarmos pessoas discutindo abertamente o que
deveria ser discutido com um amigo íntimo. Isto exprime a falta de amor próprio,
a ausência de auto-preservação, a cisão tempo-espaço - a inadequação de local e
tempo certo para se expor. Quem não se ama padece, especialmente pela
perversidade vigente, na inveja e fofoca.
Em outro pólo, já que tudo é exposto, aumentou consideravelmente o ritual da
fofoca e da maledicência, que passou a ser retro-alimentada pelo excesso de
exposição. Milhares de ações lotam nosso Judiciário por calúnia e difamação, e,
do jeito que a sociedade vai, estas só vão aumentar.
O excesso de exposição da intimidade é uma forma clara e disfarçada de
auto-destrutividade, de auto-boicote. Alimenta o formato doentio dos ciúmes em
um casal, que pode passar o resto da vida fiscalizando celular, email, orkut,
etc, tornando a vida de ambos um genuíno inferno, transformando uma relação que
poderia ser sadia em uma doença coletiva.
O problema disso tudo não é do outro, mas da nossa forma atual de convívio, em
que a exposição da intimidade tornou-se rotina.
Em consultório muitas crises afetivas, até com separação conjugal, têm início
neste ritual de auto-boicote, na auto-destrutividade, no excesso de exposição.
Por que todo mundo faz, você também vai fazer?
Jorge Antônio Monteiro de Lima é pesquisador em saúde mental, Psicólogo e musico Consultor de Recursos Humanos Consultoria para projetos de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais email: contato@olhosalma.com.br - site:www.olhosalma.com.br