Paixões Virtuais
Por Jorge Antonio Monteiro de Lima
17/07/2010
Após o expediente ela vive seu grande amor. Como todo mortal chega em casa toma
seu banho, se arruma e vai ter com sua paixão. Perfume, brincos, tudo ar leve e
sensual, nada vulgar é só uma moça apaixonada.
Senta se em seu quarto e fica das 18 horas às 3 da manhã com sua paixão.
Ela mora em Goiânia ele na Tasmânia. Programaram até um encontro em 2014 na
Itália para comemorar suas núpcias.
Esta é a paixão de sua vida. Ela aos 24 anos de idade vive um amor virtual. O
carinho dando se por uma webcam, o beijo em um "smack" teclado, a zona erógena
mais atiçada de seu corpo seus dedos que estão calejados nas pontas. Ela mais
uma mulher moderna vivendo as fantasias quotidianas. Saciando se sozinha com seu
amado distante, mas ao mesmo tempo tão perto. Fome de boca cheia.
Nas horas de folga se amaldiçoa, Deus tão injusto colocando seu bem para nascer
tão longe, do outro lado do mundo. Praga do destino, Satanás tentando a Deus.
Ela um Jô moderno resistindo a vida.
Mas ela é fiel, todos os dias chegando do serviço à mesma rotina.
Dedicação integral a seu amor. Com o tempo surgem os ciúmes. Ela quer sair, mas
o namorado de longe não deixa, até liga via skype para tentar a controlar, saber
se ela chegou quando cansada de digitar pela ler. Assim vai vivendo seu amor.
Nos sábados, domingos feriados o que lhe sobra é um "smack" digitado deixando um
leve sorriso e um brilho opaco em seu olhar. Ela jura que é feliz assim...Será?
Quando abordamos as psicopatologias do mundo virtual uma das que mais chamam a
atenção é a substituição da vida real pela vida virtual especialmente no
contexto afetivo. A busca de um sentido de vida baseada em uma ilusão. Um daimon
pervertido.
O problema não é encontrar alguém distante, ao contrário, grandes amores não
escolhem nem hora, nem local adequado. O problema que gera uma psicopatologia de
um mundo virtual é a substituição da vida por uma vida ilegítima. 2014 para as
núpcias, com um homem que a pessoa jamais viu, sentiu o cheiro, beijou, tocou,
abraçou?
Em nosso quotidiano encontrar alguém com que ocorra a química é algo difícil.
Uma relação afetiva virtual queima a etapa do conhecimento básico, uma das
principais, a questão de pele.
O estabelecimento de relações virtuais é complicado por que neste campo
desconhecemos literalmente o outro, assim vivenciamos a distancia uma relação
que é ilegítima. Pela internet você torna se o que você quer ser. Defeitos são
camuflados e ignorados, as fantasias tornam se acentuadas, o convívio
inexistente e a carência dos usuários imensa chegando as anormalidades do
convencional.
Na maior parte dos casos o que ocorre é uma indisponibilidade para um
relacionamento genuíno. Pessoas com muita dificuldade para se relacionar abdicam
da vida para viver na fantasia, na fuga, o que na prática tem dificuldade.
Assim o companheiro (a) torna se o real ser idealizado sem defeitos, não pega no
pé, sempre disponível a um toque de teclado, sem odores, quase sem nada. É o
mito que surgiu com força, o príncipe encantado de capa e espada, a princesa
encantada perfeitos em sua camuflagem. Pena que no convívio do quotidiano tais
máscaras vão cair e a realidade de cada um vai se instalar querendo ou não.
O problema arquétipico desta realidade virtual é a cisão com a vida prática. O
imaginário sobrepondo se a vida. O faz de conta infantil brincando de amar. De
longe toda goiaba é cheirosa pena que quando perto apresente seus defeitos,
odor, sua proteína em forma de bicho que da goiaba também faz parte.
Esta cisão arquetípica se consolida ainda mais com o estado maníaco
contemporâneo da falta de limites e regras. Os excessos totalitários da
atualidade. Assim alem da questão da paixão sua força maníaca de excesso, todos
os dias 8 horas na frente de um teclado buscando uma vida imaginária que
satisfaça a carência que só aumenta qual um dragão devorador. Mas o estado
maníaco camufla o aumento da carência, e rouba da vida sua graça. Instala se um
vício que então utiliza a desculpa do amor, da busca da felicidade como
atenuante social. Até que um dia a energia cai, o computador pega um vírus, e a
fantasia se desfaz.
Jorge Antônio Monteiro de Lima é pesquisador em saúde mental, Psicólogo e musico Consultor de Recursos Humanos Consultoria para projetos de acessibilidade para pessoas com necessidades especiais email: contato@olhosalma.com.br - site:www.olhosalma.com.br