Tenho para mim que existe mesmo um preconceito relativamente aos
auditores de marketing. Mais, em Portugal a auditoria de marketing tem
vindo a ser retirada – paulatinamente – dos currículos acadêmicos das
escolas. O que pensar sobre isto? Talvez este seja um bom tema para um
dos meus próximos artigos. Não sei, suspeito ser um medo de algo
aparentado ao inapropriado sentimento que nutrimos pelo pessoal das
funerárias. Talvez isto se prenda com o fato de só se apelar á auditoria
de marketing quando não há mais nada a fazer, ou sejam quando a empresa
está morta. Eu sei que esta é uma visão cruel, mas é a realidade deste
lado do oceano.
Ora, acontece que longe vão os tempos em que, simplesmente, nos
limitávamos a gerir um orçamento como que intuitivamente. Quem me
conhece sabe que muitas vezes me pronunciei publicamente em desfavor da
supremacia do marketing contra intuitivo, contudo os generosos
orçamentos de marketing, o aumento do numero de variáveis a concurso,
bem como os relevantes sistemas de informação, agora disponíveis,
alertam-nos para a emergência de uma gestão de rigor total. Porque
ficaria o marketing de fora?
Ao contrário do que se imagina, qualquer auditoria tem um lado
desconfortável: o prospectivo. Ou seja, revela a forma como os
responsáveis pelo marketing lidam com o futuro. A auditoria não lida com
outra coisa que não seja o futuro. É para isso que ela nos serve.
Vejamos.
Desde logo faço notar que, na auditoria de marketing, vamos para além do
simples diagnóstico de um problema corrente, tal como corrigir preço,
entrar num mercado, desenvolver uma marca, uma embalagem, eleger
objetivos de marketing mais realistas, identificar graus desapropriados
de investimento em marketing, melhorar os sistemas de informação de
marketing, planejamento, etc.. Quando o fazemos temos uma auditoria a
um, ou cada um, dos elementos atrás identificados. A auditoria de
marketing tem de ser integrada, abrangente, perspectivando-se o
marketing como o verdadeiro negócio da organização.
Como em qualquer auditoria, pretende-se a detecção dos agentes, das
causas e dos efeitos relevantes perante desvios detectados entre o
projetado e o realizado pela organização de marketing. Trata-se de uma
operação cujo objetivo central será o de identificar erros atuais e
potenciais, detectar oportunidades, recomendando um plano de ação, de
traço largo, com vista a melhorar a prestação futura de marketing da
unidade observada. Mas, como é que isso se processa do ponto de vista
operacional? Em traço largo diria ser necessário o seguinte
entendimento:
Mas como distinguir a auditoria do controlo de marketing? Existem
diferenças ao nível dos intervalos de tempo de aplicação, bem como do
próprio âmbito das operações, por exemplo o controlo reporta-se
vulgarmente a funções específicas para intervalos mais curtos e de maior
regularidade. A auditoria de marketing estará num plano mais integrado.
Veja-se o seguinte quadro explicativo:
É certo que na prática a lógica da auditoria de marketing se insere,
grosso modo, dentro das linhas de baliza de um qualquer tipo de
auditoria, onde deveremos, numa fase preliminar, debater com os
responsáveis da organização os objetivos da auditoria, o tipo de
cobertura(1), a sua profundidade, o formato do relatório (2), o período
de duração (3), fazendo uma primeira aproximação às fontes de dados (4).
Como em qualquer auditoria, também a de marketing, deverá ser uma
análise abrangente, sistemática, independente e periodicamente aplicada
a ambientes, a objetivos, a estratégia, às atividades globais de
marketing, visando melhorar de forma sustentada - e ética - a
performance de marketing de uma organização (5); é abrangente, cobrindo
todas as atividades de marketing; é sistemática, organizando-se em torno
de uma sequência ordenada de etapas de diagnóstico; é independente, uma
que vez dirigida por experimentados auditores autônomos; é periódica,
contrariando deste modo a tentação de só se fazer auditoria quando as
dificuldades estão irremediavelmente instaladas.
Mas qual será a lógica de que parte o auditor de marketing no seu
trabalho? Desde logo, há que entender que o auditor avalia a capacidade
global da empresa para atingir os objetivos assinalados, inicialmente no
plano estratégico da organização (PE) e, posteriormente, o plano
estratégico de marketing (PEM), fundamentando-se a sua posta em marcha
através da análise do Plano Anual de Marketing (PAM). Para além dos
planos, os auditores lidam com orçamentos. Note-se que na ausência de
planificação ( e orçamentação ) de marketing não deveremos falar de
auditoria, mas de diagnóstico de marketing. Deste entrosamento sairá a
discussão, imprescindivelmente, um plano de auditoria (6).
Relativamente ao controle da aplicação e medida dos resultados obtidos,
deveremos fixar a seguinte lógica:
Tratando-se de um momento de informação, comparação e explicação, para
além de avaliarmos os resultados, comparando o previsto com o realizado,
vamos retirar informações que vão ser importantíssimas para futuras
ações na área em análise e planeamento (7). Em causa está a capacidade
que a organização de marketing detém na árdua tarefa de satisfazer e
fidelizar mercados relacionais (8). Evoluindo na procura de um modelo
organizacional, que se enquadre dentro da lógica do desafio aqui
lançado, apresento um modelo gráfico:
Quando falamos em auditoria referimo-nos à prestação de marketing em
termos estratégicos e operacionais, levando em consideração a orientação
e a cultura de marketing da organização, bem como a dos seus
responsáveis passados e presentes. Disto são exemplo a filosofia e as
estratégias da empresa, as rotinas, os recursos e os meios, a
rentabilidade, a notoriedade, a noticiabilidade, os critérios de
decisão, os níveis de risco, a seleção de alternativas contingenciais, o
planejamento, os processos de implementação e o controle operacional da
política de marketing, de isto entre outros.
O nosso trabalho deverá incidir sobre a configuração estratégica de
marketing, a estrutura formal, funcional e interdepartamental no que
respeita a organização de marketing, os sistemas de informação de
marketing, o planejamento e o controle de marketing, a produtividade de
marketing e, finalmente, as funções de marketing propriamente ditas. Em
auditoria decompomos todos estes aspectos em componentes de auditoria.
Será sobre o detalhe da auditoria de marketing que falarei no artigo do
próximo mês. Até lá.
Notas
1-vertical ou horizontal.
2-Relatório completo, ou só as conclusões. Para ser apresentado a quem,
como, por quem, quando e de que forma.
3- Deve ser tomado em consideração o fator tempo versus custo.
4- Deveremos ter em consideração a natureza, as fontes, a profundidade
da informação, a existência de sistemas de informação, como garantia de
informação atualizada (fontes e datas).
5-Deverá existir um espírito de reflexão, permitindo aos responsáveis da
empresa auditada assimilar, debater e desenvolver novos conceitos de
marketing atingidos com esta auditoria.
6- Em planos e orçamentos.
7- Verificar o tempo necessário entre a detecção de um desvio e a
correção do mesmo.
8- Não só clientes, mas igualmente fornecedores, financiadores, mercados
internos, influenciadores, etc..
Paulo
Vieira de Castro é mentor do modelo “Marketing de Proximidade Real”, consultor
de empresas, Diretor do Centro de Estudos Aplicados em Marketing do Instituto
Superior de Administração e Gestão do Porto – Portugal. E-mail geral@paulovieiradecastro.com