Uma Geração Adormecente
Por Ivan Postigo
29/08/2010
Vivemos em um país que se arrasta atrás da economia mundial. Nos últimos anos
não enfrentamos grandes turbulências, isso dá a muitos a impressão de que essa
aparente estabilidade é resultado de programas e esforços internos. Há sempre
alguma contribuição, mas não nos enganemos, o mundo passa por um período sem
grandes sobressaltos. Um solavanco aqui, outro ali, mas nada parecido com que
vimos há algumas décadas.
Temos a mais alta taxa de juros do mundo. A defesa para essa aberração é de que
esta é o freio para que um crescimento econômico mais acentuado não traga de
volta a inflação e seus nefastos efeitos. Festejamos também nossas reservas
internacionais, ocupando a 9º. posição no ranking.
Colchão cheio, mas muitas barrigas e, principalmente, cabeças vazias, devido ao
nosso precário sistema educacional. O que pode amenizar esses fatos?
Desenvolvimento!
A falta de oportunidades e incentivos aos jovens está criando uma geração
adormecente.
No passado, as experiências de vida começavam um pouco mais tarde. As
falsificações das carteirinhas de estudante para assistir filmes proibidos para
menores de dezoito anos era uma das poucas transgressões, hoje isso seria
ridículo.
Jovens dos treze aos dezessete anos experimentam situações que um homem que
viveu setenta anos há algumas décadas não seria capaz de imaginar e se envolver.
Esses jovens obtêm o bacharelado com cerca de vinte e dois anos e desinibidos
como são precisam de oportunidades e reais desafios.
As maiores experiências de sucesso que conhecemos estão estampadas nas
literaturas de gestão traduzidas.
Lê-se em uma delas que o investidor aplicou vinte mil dólares em uma pequena
empresa emergente e um ano e meio depois tinha realizado um milhão e duzentos
mil dólares.
O jovem olha em volta, faz as contas e vê que nem ele, nem seus colegas,
conhecem alguém que tenha realizado algo semelhante. Ele vem trabalhando há
vinte e quatro meses, recebendo não mais do que dois mil reais. Alguns amigos um
pouco mais, outros menos.
Com esse valor não consegue pagar as contas e cursar um MBA.
Tem procurado novas oportunidades, mas não tem encontrado. Passou por algumas
entrevistas, mas os valores oferecidos eram iguais ou menores do que está
recebendo.
Ligou, conversou com amigos, viu que a situação é parecida. Tem refletido se não
deveria ter sua própria empresa, mas ao pesquisar o assunto algumas coisas o
inibiram.
A família não tem tradição no mundo dos negócios, a escola não lhe ensinou nada
sobre empreendedorismo, as literaturas destacam o risco de fracasso, não tem
capital e não teria apoio para consegui-lo.
Não recebe estímulo para essa empreitada dos pais, parentes, nem dos amigos.
A recomendação é sempre a mesma: Não faça loucuras, não deixe o emprego! E
recebe uma lista de nomes de jovens sem trabalho que passam dias em busca de uma
oportunidade. Muitos até desistiram. Enviam os curriculuns por e-mail e deixam
tudo nas mãos de Deus. A Ele não pedem, nem agradecem!
Ateus, agnósticos? Não, falta de identificação. Frutos de uma geração de baixa
espiritualidade e confusa religiosidade.
Há alguns anos, tínhamos que entregar os curriculuns pessoalmente e com certa
freqüência passávamos por uma entrevista. Algumas curtas, mas possibilitava
gerar algum interesse em face de conhecimentos apresentados ou nossa facilidade
de comunicação.
O envio destes por e-mail tem noventa e nove por cento de chances de sequer
serem percebidos, afinal quantos não chegam diariamente nas caixas postais das
empresas?
Ora, quando não são deletados como SPAM.
Esta geração tem sido considerada a geração canguru, pois demora para sair da
casa dos pais. Muitas pessoas com trinta anos continuam vivendo com estes, com
conforto e segurança garantidos, e sem projetos para a tal da carreira. Sair
para viver onde, pagando aluguel como e com quê?
Paradoxalmente, as notícias são de que o mercado está carente de profissionais
qualificados.
Precisamos de um despertador para nos acordar e oferecer à essa geração motivos
para deixar de ser adormecente.
E, pare de reclamar que isso é resultado de muita balada. Por que teriam motivos
para se levantar com as badaladas do relógio e se preocupar com a economia?
Mantenham altas as taxas de juros e inibam o crescimento como quiserem, eu vou
voltar para a cama. Já mandei meus e-mails com meu “cv”.
Hum, que sono!
Ivan Postigo é Economista, Bacharel em contabilidade, pós-graduado em
controladoria pela USP. Autor do livro: Por que não? Técnicas para estruturação
de carreira na área de vendas e diretor da Postigo Consultoria de Gestão
Empresarial - Fones (11) 4526 1197 / ( 11 ) 9645 4652
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