Burocracia X Sociedade
Por Adelto Gonçalves
09/08/2011
I
No século 19, os pensadores liberais imaginavam que, com o desenvolvimento
da livre empresa, a função do Estado iria se reduzir ao mínimo, pois a
evolução da espécie humana seria espontânea. Os anarquistas também
idealizavam um mundo em que as grandes questões seriam resolvidas pela livre
discussão e o Estado ficaria cada vez menor até sumir. Os comunistas, que
fizeram do Estado instrumento para a tomada do poder em nome dos operários e
camponeses, acreditavam (ou fingiam acreditar) que, com o socialismo, o
Estado seria pulverizado, até o seu lento desaparecimento.
Como se sabe, nenhuma dessas previsões se confirmou. O Estado está cada vez
mais forte e, nas mãos de tiranos – que geralmente não passam de pessoas
medíocres, malvadas e extremamente egoístas, que costumam acumular riqueza
em paraísos fiscais ou na velha Suíça –, torna-se o Leviatã imaginado pelo
filósofo inglês Hobbes (1587-1666), sempre pronto a ajudar os mais
favorecidos, em detrimento das massas marginalizadas, seguindo as
recomendações da oligarquia financeira transnacional.
Como disse o poeta e pensador mexicano Octavio Paz (1914-1998), no ensaio
“El ogro filantrópico” (1978), o Estado moderno constitui uma superestrutura
de grandes empresas, sindicatos empresariais, centrais sindicais (que
representam muitos interesses, menos os dos trabalhadores em nome dos quais
atuam) e uma burocracia que vive em contínua relação com os grupos com os
quais compartilha o domínio da máquina estatal. Por isso, segundo Paz, o
Estado moderno é hoje uma máquina, mas uma máquina que se reproduz sem
cessar.
Portanto, o grande desafio de hoje, ao menos daqueles que ainda têm um pouco
de consciência social, é imaginar formas de impedir que a máquina estatal –
a nível federal, estadual ou municipal – seja tornada refém dos interesses
de empreiteiros e políticos ávidos por obras públicas que, muitas vezes,
nenhuma finalidade social têm. Não é a toa que lemos nos jornais tantas
notícias sobre obras superfaturadas, prédios, pontes, rodovias e viadutos
que não foram concluídos e viraram monstrengos urbanos, dinheiro desviado de
fins mais nobres, como merenda escolar e compra de medicamentos, e toda a
sorte de patifaria que o despudor humano pode imaginar.
Fazer com que a burocracia tenha maior integração com a sociedade é uma luta
cada vez mais vã, pois o natural é que a máquina administrativa se adapte
aos interesses dos políticos e dos partidos que assumem o poder. E, como
ninguém chega ao poder por força de seus próprios recursos financeiros, é
preciso satisfazer àqueles que financiam a campanha. Em outras palavras:
empresas ou empreiteiros precisam ganhar licitações arranjadas e arrematar
contratos superfaturados para que não só tenham altos lucros e possam
crescer como ainda manter um fundo de caixa para financiar outros políticos
e novas campanhas.
Assim segue o Estado patrimonialista, de que falava o pensador alemão Max
Weber (1864-1920), em que famílias ou clãs dominam os negócios que seriam
públicos. E a sociedade como fica? Ora, periodicamente, é chamada para
coonestar eleições manipuladas pela força do dinheiro. No resto do tempo,
fica esquecida porque fora do Estado não há nada nem ninguém.
Contra essas evidências, de vez em quando, há quem se rebele ou tente
sacudir a apatia política dos cidadãos. A ideia da gestão participativa é
uma dessas tentativas. Foi colocada em prática em Porto Alegre, de 1989 a
2004, durante quatro gestões consecutivas de uma coligação de partidos de
esquerda liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Estudar os resultados
dessa experiência foi a que se propôs Marianne Nassuno em Burocracia e
participação: a gestão no orçamento de Porto Alegre (Vinhedo-SP: Editora
Horizonte, 2011), originalmente tese de doutorado apresentada ao
Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB).
II
Para fazer o seu trabalho, a autora levou em conta, por um lado, a visão
weberiana de que os burocratas constituem um grupo com aspirações de poder
próprio derivado do domínio de conhecimento técnico e, por outro, a reflexão
do economista e cientista social norte-americano Mancur Olson (1932-1988)
segundo a qual o egoísmo racional dos indivíduos limita a ocorrência de
ações coletivas. E incorporou também a ideia que permeia a chamada nova
gestão pública, movimento britânico da década de 1980, que prevê a
privatização em larga escala de serviços públicos, a adoção de princípios de
administração do setor privado, ênfase na eficiência e valorização do papel
dos gerentes/administradores.
Como esses princípios quase nunca são levados em consideração no Brasil, o
que um prefeito hoje – quase sempre eleito com recursos fornecidos para a
sua campanha por empreiteiros e outros empresários – mais busca é viabilizar
obras públicas que possam ser atendidas por aqueles que apoiaram com
dinheiro sua candidatura e viraram fornecedores da prefeitura.
Se a obra vai atender a necessidades da população em geral, tanto melhor,
mas a ordem de prioridade é aquela. Basta ver que, em grandes cidades,
bairros degradados ou áreas desocupadas quase sempre são revitalizados
levando em conta os interesses de empresas de construção civil e da
especulação imobiliária. Já os investimentos na periferia – onde há pouca
especulação imobiliária, pois o metro de terreno é barato – quase sempre
custam a sair do papel, quando saem.
Também não é coincidência que os responsáveis pela arrematação dos serviços
de coleta de lixo domiciliar, por exemplo, sejam com freqüência alvo de
denúncias de corrupção. Invariavelmente, a empresa acusada de usufruir de
preços superfaturados – e suportados com dinheiro público – pertence a um
daqueles que apoiaram a candidatura do prefeito.
No entanto, como mostra Marianne Nassuno, é possível estabelecer uma relação
de maior interação do setor público com a sociedade, a partir de um governo
municipal adaptado às demandas de maior participação popular, a exemplo da
experiência com o Orçamento Participativo de Porto Alegre (OPPA). Segundo a
autora, o OPPA refere-se a um processo de participação que contribui para
que as demandas populares sejam contempladas e levadas em conta no projeto
de lei orçamentária enviado pelo poder executivo à câmara de vereadores e
favorece o seu atendimento concreto durante a fase de execução do orçamento
pela prefeitura.
III
Observa a autora ainda que o OPPA é um processo pelo qual a população está
envolvida em etapas do ciclo de políticas públicas: participa da definição
de obras e serviços nos quais os recursos públicos serão aplicados e
acompanha e controla a sua execução. Isso envolve um ciclo anual de
encontros ou audiências públicas que reúnem representantes da prefeitura e
das comunidades (carentes ou não) para fazer um levantamento das
necessidades.
Essa participação, obviamente, entra em choque com as atribuições dos
vereadores, que, invariavelmente, representam grupos de pressão da
sociedade, ou seja, grupos organizados por trás dos quais sempre se escondem
interesses particulares. E não raro causa choques entre a municipalidade e a
câmara, o que pode levar o prefeito a recuar em suas intenções de estimular
a maior participação da comunidade, já que depende do voto dos vereadores
para a aprovação de projetos de interesse da prefeitura.
Seja como for, o que se pode dizer é que a experiência com o OPPA apresentou
resultados significativos na medida em que atua como anteparo ao aumento das
funções do Estado pela organização burocrática, o que se tem dado em
dimensões sem precedentes, fato que obviamente apresenta implicações
negativas para o próprio desenvolvimento da democracia. Nas mãos de um
demagogo, que sabe como falar (e ludibriar) as massas, esse Estado
burocratizado facilmente pode ser dirigido a um sistema fechado e
totalitário. Como diz Octavio Paz, a conjunção do poder político e do poder
econômico – ambos absolutos, imunes a contestações – não produz nem a
revolução democrática burguesa nem o socialismo, mas sim a implantação de
uma ideocracia totalitária.
Para evitar o monstro totalitário, é preciso que haja regras que limitem o
poder e as funções do Estado. E o único recurso contra o crescimento
desmedido do Estado e o mau uso do poder público é fazer incidir a luz que
predomina na visibilidade da esfera pública, como ensina a pensadora alemã
Hannah Arendt (1906-1975), citada por Marianne Nassuno. Por isso, a
participação de lideranças comunitárias – geralmente, pessoas que nada
recebem para exercer esse papel – é sempre bem-vinda. Constitui essa uma
forma de não só resgatar valores da democracia como exercitar um ensinamento
do pensador francês Montesquieu (1689-1755), como bem observa Marianne
Nassuno: problemas políticos requerem soluções políticas. E não a “solução”
que o suposto conhecimento técnico do burocrata pode dar.
Em resumo: se nos últimos 30 anos, os administradores públicos brasileiros
tivessem levado em consideração as ideias da gestão participativa, com
certeza, a educação teria recebido mais recursos, teriam sido construídas
escolas em maior número e a categoria do professor não seria hoje tão
desvalorizada e desprestigiada. Como isso não se deu, os números mostram que
a maior parte da massa carcerária brasileira de hoje é constituída por
pessoas com menos de 30 anos, analfabetas e sem qualificação profissional,
mas altamente capacitadas para engrossar os exércitos do tráfico de drogas,
principalmente depois da “especialização” por que passam involuntariamente
nas penitenciárias. Quer dizer: os recursos que não foram investidos na
educação nas últimas três décadas terão de ser aplicados agora na construção
de penitenciárias e no reequipamento e fortalecimento das polícias estaduais
e da Polícia Federal.
Portanto, como a burocracia por si só não garante a democracia – pelo
contrário, convive melhor com regimes totalitários –, a única forma de
controlá-la para que não exceda em suas funções é abrir espaço para as
liberdades públicas que só florescem com a participação de amplos setores da
sociedade. Essa é a mensagem que Marianne Nassuno deixa em seu livro e que
mereceria profunda reflexão de nossos homens públicos, se é que ainda
existam homens públicos na melhor acepção do termo.
IV
Além de doutora em Sociologia pela UnB, Marianne Nassuno é mestre em
Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas. Para desenvolver sua
tese de doutorado, estudou em 2005 com bolsa na Universidade Livre de
Berlim. Em 1992, estudou na Escola Superior de Direito Empresarial e
Ciências Sociais da Universidade de Saint Gallen, na Suíça. É integrante da
segunda turma da carreira de especialista em políticas públicas e gestão
governamental, atualmente em exercício na Secretaria Executiva do Ministério
da Cultura. Foi gerente de 1998 a 2000 da Escola Nacional de Administração
Pública (Enap).
____________________
BUROCRACIA E PARTICIPAÇÃO: A GESTÃO NO ORÇAMENTO DE PORTO ALEGRE, de
Marianne Nassuno, com prefácio de Luiz Carlos Bresser-Pereira. Vinhedo-SP:
Editora Horizonte, 222 págs., 2011, R$ 33,15. E-mail:
contato@editorahorizonte.com.br Website: editorahorizonte.com.br
Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São
Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova
Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São
Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho,
2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
Burocracia X Sociedade
Por Adelto Gonçalves
09/08/2011
I
No século 19, os pensadores liberais imaginavam que, com o desenvolvimento
da livre empresa, a função do Estado iria se reduzir ao mínimo, pois a
evolução da espécie humana seria espontânea. Os anarquistas também
idealizavam um mundo em que as grandes questões seriam resolvidas pela livre
discussão e o Estado ficaria cada vez menor até sumir. Os comunistas, que
fizeram do Estado instrumento para a tomada do poder em nome dos operários e
camponeses, acreditavam (ou fingiam acreditar) que, com o socialismo, o
Estado seria pulverizado, até o seu lento desaparecimento.
Como se sabe, nenhuma dessas previsões se confirmou. O Estado está cada vez
mais forte e, nas mãos de tiranos – que geralmente não passam de pessoas
medíocres, malvadas e extremamente egoístas, que costumam acumular riqueza
em paraísos fiscais ou na velha Suíça –, torna-se o Leviatã imaginado pelo
filósofo inglês Hobbes (1587-1666), sempre pronto a ajudar os mais
favorecidos, em detrimento das massas marginalizadas, seguindo as
recomendações da oligarquia financeira transnacional.
Como disse o poeta e pensador mexicano Octavio Paz (1914-1998), no ensaio
“El ogro filantrópico” (1978), o Estado moderno constitui uma superestrutura
de grandes empresas, sindicatos empresariais, centrais sindicais (que
representam muitos interesses, menos os dos trabalhadores em nome dos quais
atuam) e uma burocracia que vive em contínua relação com os grupos com os
quais compartilha o domínio da máquina estatal. Por isso, segundo Paz, o
Estado moderno é hoje uma máquina, mas uma máquina que se reproduz sem
cessar.
Portanto, o grande desafio de hoje, ao menos daqueles que ainda têm um pouco
de consciência social, é imaginar formas de impedir que a máquina estatal –
a nível federal, estadual ou municipal – seja tornada refém dos interesses
de empreiteiros e políticos ávidos por obras públicas que, muitas vezes,
nenhuma finalidade social têm. Não é a toa que lemos nos jornais tantas
notícias sobre obras superfaturadas, prédios, pontes, rodovias e viadutos
que não foram concluídos e viraram monstrengos urbanos, dinheiro desviado de
fins mais nobres, como merenda escolar e compra de medicamentos, e toda a
sorte de patifaria que o despudor humano pode imaginar.
Fazer com que a burocracia tenha maior integração com a sociedade é uma luta
cada vez mais vã, pois o natural é que a máquina administrativa se adapte
aos interesses dos políticos e dos partidos que assumem o poder. E, como
ninguém chega ao poder por força de seus próprios recursos financeiros, é
preciso satisfazer àqueles que financiam a campanha. Em outras palavras:
empresas ou empreiteiros precisam ganhar licitações arranjadas e arrematar
contratos superfaturados para que não só tenham altos lucros e possam
crescer como ainda manter um fundo de caixa para financiar outros políticos
e novas campanhas.
Assim segue o Estado patrimonialista, de que falava o pensador alemão Max
Weber (1864-1920), em que famílias ou clãs dominam os negócios que seriam
públicos. E a sociedade como fica? Ora, periodicamente, é chamada para
coonestar eleições manipuladas pela força do dinheiro. No resto do tempo,
fica esquecida porque fora do Estado não há nada nem ninguém.
Contra essas evidências, de vez em quando, há quem se rebele ou tente
sacudir a apatia política dos cidadãos. A ideia da gestão participativa é
uma dessas tentativas. Foi colocada em prática em Porto Alegre, de 1989 a
2004, durante quatro gestões consecutivas de uma coligação de partidos de
esquerda liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Estudar os resultados
dessa experiência foi a que se propôs Marianne Nassuno em Burocracia e
participação: a gestão no orçamento de Porto Alegre (Vinhedo-SP: Editora
Horizonte, 2011), originalmente tese de doutorado apresentada ao
Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB).
II
Para fazer o seu trabalho, a autora levou em conta, por um lado, a visão
weberiana de que os burocratas constituem um grupo com aspirações de poder
próprio derivado do domínio de conhecimento técnico e, por outro, a reflexão
do economista e cientista social norte-americano Mancur Olson (1932-1988)
segundo a qual o egoísmo racional dos indivíduos limita a ocorrência de
ações coletivas. E incorporou também a ideia que permeia a chamada nova
gestão pública, movimento britânico da década de 1980, que prevê a
privatização em larga escala de serviços públicos, a adoção de princípios de
administração do setor privado, ênfase na eficiência e valorização do papel
dos gerentes/administradores.
Como esses princípios quase nunca são levados em consideração no Brasil, o
que um prefeito hoje – quase sempre eleito com recursos fornecidos para a
sua campanha por empreiteiros e outros empresários – mais busca é viabilizar
obras públicas que possam ser atendidas por aqueles que apoiaram com
dinheiro sua candidatura e viraram fornecedores da prefeitura.
Se a obra vai atender a necessidades da população em geral, tanto melhor,
mas a ordem de prioridade é aquela. Basta ver que, em grandes cidades,
bairros degradados ou áreas desocupadas quase sempre são revitalizados
levando em conta os interesses de empresas de construção civil e da
especulação imobiliária. Já os investimentos na periferia – onde há pouca
especulação imobiliária, pois o metro de terreno é barato – quase sempre
custam a sair do papel, quando saem.
Também não é coincidência que os responsáveis pela arrematação dos serviços
de coleta de lixo domiciliar, por exemplo, sejam com freqüência alvo de
denúncias de corrupção. Invariavelmente, a empresa acusada de usufruir de
preços superfaturados – e suportados com dinheiro público – pertence a um
daqueles que apoiaram a candidatura do prefeito.
No entanto, como mostra Marianne Nassuno, é possível estabelecer uma relação
de maior interação do setor público com a sociedade, a partir de um governo
municipal adaptado às demandas de maior participação popular, a exemplo da
experiência com o Orçamento Participativo de Porto Alegre (OPPA). Segundo a
autora, o OPPA refere-se a um processo de participação que contribui para
que as demandas populares sejam contempladas e levadas em conta no projeto
de lei orçamentária enviado pelo poder executivo à câmara de vereadores e
favorece o seu atendimento concreto durante a fase de execução do orçamento
pela prefeitura.
III
Observa a autora ainda que o OPPA é um processo pelo qual a população está
envolvida em etapas do ciclo de políticas públicas: participa da definição
de obras e serviços nos quais os recursos públicos serão aplicados e
acompanha e controla a sua execução. Isso envolve um ciclo anual de
encontros ou audiências públicas que reúnem representantes da prefeitura e
das comunidades (carentes ou não) para fazer um levantamento das
necessidades.
Essa participação, obviamente, entra em choque com as atribuições dos
vereadores, que, invariavelmente, representam grupos de pressão da
sociedade, ou seja, grupos organizados por trás dos quais sempre se escondem
interesses particulares. E não raro causa choques entre a municipalidade e a
câmara, o que pode levar o prefeito a recuar em suas intenções de estimular
a maior participação da comunidade, já que depende do voto dos vereadores
para a aprovação de projetos de interesse da prefeitura.
Seja como for, o que se pode dizer é que a experiência com o OPPA apresentou
resultados significativos na medida em que atua como anteparo ao aumento das
funções do Estado pela organização burocrática, o que se tem dado em
dimensões sem precedentes, fato que obviamente apresenta implicações
negativas para o próprio desenvolvimento da democracia. Nas mãos de um
demagogo, que sabe como falar (e ludibriar) as massas, esse Estado
burocratizado facilmente pode ser dirigido a um sistema fechado e
totalitário. Como diz Octavio Paz, a conjunção do poder político e do poder
econômico – ambos absolutos, imunes a contestações – não produz nem a
revolução democrática burguesa nem o socialismo, mas sim a implantação de
uma ideocracia totalitária.
Para evitar o monstro totalitário, é preciso que haja regras que limitem o
poder e as funções do Estado. E o único recurso contra o crescimento
desmedido do Estado e o mau uso do poder público é fazer incidir a luz que
predomina na visibilidade da esfera pública, como ensina a pensadora alemã
Hannah Arendt (1906-1975), citada por Marianne Nassuno. Por isso, a
participação de lideranças comunitárias – geralmente, pessoas que nada
recebem para exercer esse papel – é sempre bem-vinda. Constitui essa uma
forma de não só resgatar valores da democracia como exercitar um ensinamento
do pensador francês Montesquieu (1689-1755), como bem observa Marianne
Nassuno: problemas políticos requerem soluções políticas. E não a “solução”
que o suposto conhecimento técnico do burocrata pode dar.
Em resumo: se nos últimos 30 anos, os administradores públicos brasileiros
tivessem levado em consideração as ideias da gestão participativa, com
certeza, a educação teria recebido mais recursos, teriam sido construídas
escolas em maior número e a categoria do professor não seria hoje tão
desvalorizada e desprestigiada. Como isso não se deu, os números mostram que
a maior parte da massa carcerária brasileira de hoje é constituída por
pessoas com menos de 30 anos, analfabetas e sem qualificação profissional,
mas altamente capacitadas para engrossar os exércitos do tráfico de drogas,
principalmente depois da “especialização” por que passam involuntariamente
nas penitenciárias. Quer dizer: os recursos que não foram investidos na
educação nas últimas três décadas terão de ser aplicados agora na construção
de penitenciárias e no reequipamento e fortalecimento das polícias estaduais
e da Polícia Federal.
Portanto, como a burocracia por si só não garante a democracia – pelo
contrário, convive melhor com regimes totalitários –, a única forma de
controlá-la para que não exceda em suas funções é abrir espaço para as
liberdades públicas que só florescem com a participação de amplos setores da
sociedade. Essa é a mensagem que Marianne Nassuno deixa em seu livro e que
mereceria profunda reflexão de nossos homens públicos, se é que ainda
existam homens públicos na melhor acepção do termo.
IV
Além de doutora em Sociologia pela UnB, Marianne Nassuno é mestre em
Administração Pública pela Fundação Getúlio Vargas. Para desenvolver sua
tese de doutorado, estudou em 2005 com bolsa na Universidade Livre de
Berlim. Em 1992, estudou na Escola Superior de Direito Empresarial e
Ciências Sociais da Universidade de Saint Gallen, na Suíça. É integrante da
segunda turma da carreira de especialista em políticas públicas e gestão
governamental, atualmente em exercício na Secretaria Executiva do Ministério
da Cultura. Foi gerente de 1998 a 2000 da Escola Nacional de Administração
Pública (Enap).
____________________
BUROCRACIA E PARTICIPAÇÃO: A GESTÃO NO ORÇAMENTO DE PORTO ALEGRE, de
Marianne Nassuno, com prefácio de Luiz Carlos Bresser-Pereira. Vinhedo-SP:
Editora Horizonte, 222 págs., 2011, R$ 33,15. E-mail:
contato@editorahorizonte.com.br Website: editorahorizonte.com.br
Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São
Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova
Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São
Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho,
2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br