Os conceitos tradicionais sobre organização e Administração
Por Julio Cesar S. Santos
11/01/2012

Os primórdios de um corpo sistemático de conhecimentos sobre administração e organização estão ligados à Revolução Industrial e à ascensão de grandes empresas econômicas no cenário mundial. Essas empresas requeriam novas formas de organização e novos processos de administração. Mas, à despeito do aparecimento dessas grandes corporações, o desenvolvimento do pensamento gerencial foi relativamente lento.

Existem algumas obras sobre a ideologia capitalista dos industriais (como Rockfeler e Cook), mas pouco se escreveu sobre suas filosofias de administração ou sobre seus estilos administrativos. Sabe-se que seus estilos eram muito individualistas, repousando muito mais sobre a singular personalidade dos próprios industriais do que sobre qualquer corpo de conhecimentos bem definidos.

Foi somente após o movimento da “Administração Científica”, das obras de Max Weber sobre a burocracia e dos primeiros defensores da Teoria Administrativa que tomou forma um corpo sistemático de conhecimentos relativos à Administração das empresas complexas e de outras empresas.

As posições de Taylor foram influenciadas pela ética protestante da época, dando ênfase ao valor do trabalho árduo, à racionalidade econômica, ao individualismo e à opinião de que cada pessoa tem seu papel a desempenhar na sociedade. Ele não criou uma teoria ampla e geral sobre toda a Administração, apenas se orientou por uma ênfase empírica, técnica, mecanicista, que se concentro em aumentar a eficiência do trabalhador.

Em suas primeiras obras, Taylor referiu-se às próprias ideias como “Administração por Tarefas” e, somente em 1910 é que a expressão “Administração Científica” foi cunhada. Ela dava ênfase ao planejamento, à padronização e ao aperfeiçoamento do esforço humano ao nível operacional, à fim de conseguir máxima produção com mínimo dispêndio.

Taylor achava possível analisar cientificamente o trabalho, e que à direção das empresas cabia fornecer ao trabalhador orientações básicas sobre o mesmo. Com isso, se chegaria a descobrir o melhor método de executar determinado serviço à padronização desse método (através dos estudos do tempo e dos movimentos), à escolha dos trabalhadores mais aptos à execução de cada tarefa e à aprendizagem, por esses trabalhadores do método mais eficaz. Era a perspectiva do engenheiro que enxergava o trabalhador como acessório da máquina.

Ele supunha que os trabalhadores seriam motivados pela maior remuneração que resultasse do aumento da produtividade. E, influenciado por essa filosofia, o papel da Administração sofreu marcante transformação em relação às épocas anteriores, passando a ser encarada como ciência e não como um processo individualista baseado em normas ditadas pela prática. Taylor expressou as novas tarefas da Administração conforme abaixo:

Criar uma ciência para cada elemento do serviço de cada homem, em lugar do velho método das normas ditadas pela prática.
Cientificamente, escolher, ensinar, treinar e formar o trabalhador, em lugar do que se fazia anteriormente, quando ele escolhia seu serviço e o aprendia da melhor forma que pudesse.
Colaborar com os empregados para que o serviço todo seja executado de conformidade com os princípios científicos.
Dividir a responsabilidade entre a administração e os empregados. A administração encarrega-se de todas as funções para as quais esteja mais apta do que os empregados.

A “Administração Científica” obrigou a direção das empresas a planejar e a organizar o serviço, e a controlar sua execução, impondo um novo método sistemático aos processos de administração. Taylor declarou que embora os trabalhadores fossem resistentes aos métodos científicos, a maior resistência partia exatamente da própria administração das organizações.

A influência de Taylor sobre as atividades da Administração foi tal que até hoje seus princípios básicos constituem parte fundamental do pensamento gerencial – particularmente na operação das oficinas e das indústrias. Departamentos como o de “Engenharia Industrial”, o de “Manutenção” e o de “Controle de Qualidade”, simplesmente não existiriam sem o advento da “Administração Científica”.

Muitos executivos se opuseram aos seus ensinamentos, pois não estavam dispostos a substituir seus julgamentos e critérios pessoais por métodos e técnicas científicas. Mas, à despeito das críticas, os princípios da “Administração Científica” se propagaram com rapidez por toda indústria americana, ajudando a aumentar a eficiência das operações industriais.

Taylor e seus adeptos não eram teóricos da “Organização”, mas profissionais que operavam ao nível das fábricas, cuja principal preocupação era a eficiência do serviço operário. Todavia, ele sustentou vários conceitos em relação à “Administração” e à “Organização” de grande importância para a formulação de uma teoria geral. Tais idéias compreendiam:

O claro delineamento da autoridade e da responsabilidade;
A separação entre o planejamento e as operações;
A organização funcional;
O uso de padrões para o controle;
A criação de sistemas de incentivo ao trabalhador;
O princípio da administração pela especialização por tarefa.

Por outro lado, Henry Fayol foi um dos primeiros expoentes da “Teoria Geral da Administração”, tendo sido apresentado como o “pai da teoria da administração”. Seus conceitos causaram profundo impacto na forma de se conduzir uma empresa, onde ele considerava cinco elementos fundamentais para uma boa administração: Planejamento, Organização, Coordenação, Comando e Controle.

Fayol defendeu a ideia de que a Administração é uma função universal que pode ser definida pelos vários processos adotados pelo administrador. Ele enfatizou que os princípios gerenciais por ele desenvolvidos se aplicavam não só às empresas, mas também aos órgãos governamentais, militares, religiosos e outros. E, esses 14 princípios eram:

Divisão do Trabalho: O princípio da especialização no trabalho, para uma concentração de atividades mais eficazes.
Autoridade e Responsabilidade: autoridade é o direito de dar ordens e exigir obediência.
Disciplina: é essencial para i bem desenrolar das atividades e, sem ela, nenhuma empresa pode prosperar.
Unidade de Comando: cada empregado deve receber ordens de um só superior.
Unidade de Direção: uma cabeça e um plano para cada grupo de atividades que tenham os mesmos objetivos.
Subordinação dos Interesses Individuais aos Gerais: os interesses de um empregado – ou de um grupo – não devem prevalecer sobre os da organização.
Remuneração do Pessoal: deve ser justa e, na medida do possível, satisfazer tanto ao pessoal quanto à empresa.
Centralização: é essencial à organização e conseqüência natural do ato de organizar.
Cadeia Hierárquica: é a cadeia dos superiores, que vai da autoridade suprema até o mais baixo posto na organização.
Ordem: a empresa deve proporcionar um local ordenado para cada pessoa. Um lugar para cada um e cada um no seu lugar.
Eqüidade: a eqüidade e certo senso de justiça devem espalhar-se por toda a organização.
Estabilidade no Engajamento do Pessoal: o empregado precisa de tempo para adaptar-se ao serviço e desempenhá-lo com eficácia.
Iniciativa: em todos os escalões da organização, o zelo e a energia crescem com a iniciativa.
Espírito de Equipe: este princípio realça a necessidade da atividade em equipe e a manutenção de relações pessoais dentro da organização.

Embora tenham ocorrido modificações – introduzidas por defensores da Teoria da Gerência Administrativa – os 14 princípios de Fayol forneceram a essa escola de pensamento seus alicerçares básicos. Ele mostrou que não há limites para o número de princípios da Administração e que novos princípios poderiam tomar corpo, determinados pela experiência.

Entre 1920 e 1930, vários outros autores apresentaram seus pontos-de-vista, contribuindo para o desenvolvimento do pensamento gerencial. Pode-se citar como uma das mais importantes contribuições, os princípios expostos por dois executivos da G.M. – James D. Mooney e Alan C. Reiley -, cujas ideias se relacionavam com a criação de uma estrutura organizacional “em forma de pirâmide”, com um claro delineamento da autoridade, da especialização das tarefas, da coordenação das atividades e da utilização de especialistas de STAFF. A aplicação de seus conceitos levou ao estabelecimento de organogramas formais, às descrições de cargos e aos manuais de organização.

As ideias básicas dos teóricos administrativos da direção são os antecedentes daquilo que se convencionou chamar de “Escola do Processo Administrativo”. O enfoque básico dessa escola consistia em contemplar os processos de administração – planejamento, organização, reunião de recursos, motivação e controle – e fixar certos princípios fundamentais. E, atualmente, vários conceitos desenvolvidos por essa escola de pensamento estão sendo aplicados às organizações, tais como:

A forma piramidal;
O princípio hierárquico;
O conceito da unidade de comando;
A delegação de autoridade; e
Os princípios da departamentalização.

Muitos autores atuais da Administração utilizam os pontos-de-vista clássicos para desenvolverem conceitos sobre o Organização e a Administração, depois introduzem neles modificações substanciais, baseadas em pesquisas e em teorias empíricas recentes.

Os autores reconhecem que os teóricos da Gerência Administrativa “contribuíram categoricamente para o desenvolvimento da Teoria Moderna pela ênfase dada à Administração como campo distinto a observar, estudar e melhorar; ênfase essa que constitui importante empreendimento científico e acadêmico”.

O terceiro pilar para a formulação dos conceitos clássicos sobre a Organização foi fornecido pelo modelo burocrático de Max Weber, um dos fundadores da sociologia moderna e contemporâneo do movimento da “Administração Científica”. Suas exposições sobre o mecanismo burocrático constituíram uma evolução natural das considerações gerais sobre os fatores históricos e sociais que levaram ao desenvolvimento das complexas organizações.

O conceito de “burocracia de Weber” não tem qualquer conotação de “bom” ou de “mau”, mas apenas se refere a certas características do esquema organizacional. Ele afirmava que o tipo puramente burocrático de organização administrativa era o mais racional meio de exercer controle imperativo sobre os seres humanos.

Esse modelo burocrático serviu de ponto de partida para muitos autores – particularmente os sociólogos e os cientistas políticos. Hall, por exemplo, achava que o grau de burocracia pode ser determinado por seis dimensões:

Uma divisão do trabalho baseada na especialização funcional;
Uma hierarquia de autoridade bem definida;
Um sistema de regras, cobrindo os direitos e os deveres dos ocupantes dos postos;
Um sistema de processos para tratar das situações relacionadas com o trabalho;
Impessoalidade das relações entre as pessoas;
Promoção e seleção para encaminhamento, baseadas na capacidade técnica.

O exame das complexas organizações mostra que essas dimensões estão sempre presentes em graus diversos. A burocracia é compatível com o arcabouço geral da estrutura formal da organização (estabelecida pelos teóricos da gerência administrativa, como Fayol, Mooney e Reiley).

Max Weber e seu “modelo burocrático” forneceram a estrutura teórica e o ponto de partida para a maior parte da teoria atual e da pesquisa experimental relativa às organizações complexas.
Ao analisarmos os trabalhos de Weber estudiosos do assunto mostraram que, se por um lado esse modelo é o tipo ideal em termos de relações formais, por outro lado ele não toma em conta consequências disfuncionais para a eficiência da organização.

Merton nos informa que uma das consequências da burocracia sobre o comportamento dos participantes é a ruptura no tocante ao atingimento das metas, pois segundo ele, a forma burocrática exerce influência sobre a personalidade dos seus membros de tal forma que, aderem rigidamente a normas e regulamentos por puro amor às normas e regulamentos em geral, deslocando as metas mais importantes da organização.

Portanto, o caminho moderno é utilizar-se de Max Weber como ponto de partida, mas reconhecendo suas limitações e consequências disfuncionais, indicando que:

A forma burocrática é a mais apropriada às atividades rotineiras da organização, atividades essas que a produtividade constitui o objetivo mais alto.
Essa forma não é adequada à organização altamente flexível que se vê frente a muitas atividades não-rotineiras, e em que a criatividade e inovação sejam importantes.

O modelo de Weber era altamente mecanicista e tinha mais coisas em comum com os teóricos da “Gerência Administrativa” – com Fayol por exemplo – do que com autores posteriores. O sistema de valores da economia clássica e o “modelo competitivo ideal” influenciaram o pensamento gerencial e forneceram uma base lógica para a operação da empresa na sociedade. A Teoria Econômica também se relaciona com a Teoria da Organização – principalmente quanto às suposições do comportamento empresarial – pois a Teoria Econômica da empresa foi fruto da Teoria Macroeconômica (mais ampla) e acabou aceitando suas premissas.

A microeconomia é uma teoria normativa – no sentido de que procura prescrever o que o empresário deve fazer para maximizar os lucros – e não faz referência ao modo como os administradores (ou as empresas) atuam na realidade. A concepção que o economista faz a respeito da empresa não constitui uma teoria sobre a Organização, porque trata da empresa como uma pessoa.

Complementando a suposição de que a empresa age como empresário individual (com o objetivo do lucro máximo), outras suposições simplificadoras derivam da Teoria Econômica da empresa, tais como:

A empresa tem uma meta e procura alcançá-la.
Ela avança rumo aos objetivos de maneira racional
A função da firma é transformar o suprimento econômico em produção econômica.
A firma opera em um ambiente determinado.
A teoria se concentra – especialmente – nas alterações verificadas nos preços e nas quantidades dos suprimentos e da produção.

Do ponto de vista dos teóricos da Administração e da Organização, é difícil aceitar essas suposições simplificadoras e alguns têm dificuldade em aceitar algumas premissas relativas ao ambiente econômico. Mas, existem duas grandes dificuldades em relação à teoria tradicional da empresa:

As suposições feitas por ela em relação à motivação e à racionalidade são pouco realistas, deixando dúvidas sobre se a maximização do lucro ser a única meta da complexa organização.

A “empresa” – da Teoria da Empresa – tem poucas das características que identificamos nas empresas reais. Ela não apresenta problemas de controle, nem processos padrões de operação, nem orçamento, nem controlador, nem uma “gerência média” que aspire à ascensão. Para alguns economistas é pouco provável que uma teoria referente à Organização possa ignorar o fato de ela ser uma Organização.

Resumindo, pode-se afirmar que a Teoria Econômica Clássica sobre a empresa, pouco contribuiu para a Teoria da Organização e o que vimos até aqui foram algumas contribuições apresentadas pelo século XX à teoria tradicional, tais como a “Administração Científica”, o “modelo burocrático de Weber”, a teoria da “Gerência Administrativa” e a Teoria Microeconômica.

Julio Cesar S. Santos é Professor, Consultor, Palestrante e Co-Autor do Livro: "Trabalho e Vida Pessoal - 50 Contos Selecionados". Elaborou o curso de “Gestão Empresarial” e atualmente ministra Palestras e Treinamentos Sobre Marketing, Administração, Técnicas de Atendimento ao Cliente, Secretariado e Recursos Humanos. Contatos: jcss_sc@yahoo.com.br (21) 2233-1762 / (21) 9423-9433 / www.profigestao.blogspot.com