A Delicada Arte de Dizer "Não"
Por Eliane Pisani Leite
27/07/2007
Pai, compra? Mãe, deixa? Me leva, me dá? As crianças pedem, exigem, batem o pé.
Querem tudo e querem já.Como estabelecer limites é o grande desafio dos pais de
hoje.
Na difícil tarefa de educar os filhos, a impressão que temos é de estarmos
sempre numa corda bamba, caminhando de olhos vendados e oscilando entre a
permissividade atormentada pelas preocupações e o autoritarismo invadido pela
culpa. Do horário de dormir ou de ficar no computador, passando por uma enorme
lista de vontades — brinquedos, doces, passeios e por aí vai -, é preciso
colocar limites.
O problema começa quando se percebe que os limites não são os mesmos para todas
as famílias. E nem podem ser. A psicóloga e psicopedagoga Eliane Pisani Leite,
do Instituto de Estudos e Terapia Integrada, de São Paulo, diz que, antes de
tudo, as famílias precisam definir quais são seus próprios valores, sempre tendo
em vista as regras de se viver em sociedade. “Muitas crianças demonstram
dificuldades em entender o que é certo e o que é errado, pois os próprios pais
não delimitam claramente seus valores ou, pior; infringem as próprias regras”.
Limites não são agradáveis (nem mesmo para os adultos!), mas são imprescindíveis
para a formação de indivíduos autônomos, responsáveis e maduros. Ninguém
discorda disso. E até as primeiras décadas do século XX, educar parecia algo
muito simples. Um “não” era um “não” porque a autoridade paterna dizia e ponto
final. Para os eventuais protestos e manhas, a receita era deixar chorar ou
então aplicar umas boas palmadas. Naturalmente, a relação entre pais e filhos
não era das mais saudáveis...
Frustração faz crescer
Na década de 70, com os novos conceitos introduzidos pela psicologia, houve uma
inversão da situação, e toda restrição passou a ser evitada como forma de
prevenir futuras frustrações ou traumas. O que ocorreu foi uma interpretação
equivocada do que a psicologia apregoava, esclarece Eliane. “Criou-se uma
dicotomia: do autoritarismo passou-se a uma permissividade exagerada. E essa
permissividade pode ser interpretada pela criança como desinteresse e até falta
de afeto dos pais”
A psicóloga explica que dizer não à criança nunca foi causa de traumas infantis.
“Trauma, na verdade, é algo que acontece inesperadamente, que causa impacto
violento. O não, dito no momento certo, ao contrário de provocar trauma, traz
segurança à criança”. Frustração, diz Eliane, é um exercício de amadurecimento.
“Em nossa vida adulta, não há um dia em que não vivenciemos alguma frustração.
As crianças devem estar preparadas para essa realidade”
Amor não se compra nem se vende
Muitas vezes, porém, são os próprios pais que projetam suas frustrações pessoais
nos filhos. É comum encontrar pais que, tendo na infância sofrido de privações,
acreditam que têm que dar tudo o que a criança pede, ou fazer tudo o que ela
quer. Essa forma distorcida de enxergar a realidade acaba sendo reforçada pela
sociedade capitalista. O resultado é que a criança acaba, realmente, confundindo
o “não” com a falta de afeto. “Se papai não me dá o brinquedo que eu quero, é
porque não gosta de mim”, pensa ela. A tarefa dos adultos é justamente ensinar
que as coisas não são bem assim, demonstrando carinho e falando com
simplicidade: “Gosto muito de você, mas agora não vou te dar o brinquedo”
Explicação na medida certa
É claro que negar algo pode não ser suficiente para colocar fim a um pedido ou
capricho. As crianças vão insistir muito, perguntar mil vezes “por quê?”, usar
todo tipo de argumento e fazer de tudo para ultrapassar o limite imposto, o que
pode ser um teste para os nossos nervos. Nesse caso, é preciso firmeza.
“Explique, de forma simples e sucinta, porque está dizendo não, mas não se
prolongue demais”, recomenda Eliane. Ela lembra que há pais que dão tantas
explicações para estabelecer limites que acabam “entrando no jogo do filho”. Os
pequenos são espertos: às vezes dizem não compreender os limites para se livrar
deles. Isso é natural: as crianças sempre tentam ir mais longe, medem forças,
procuram aumentar suas margens de liberdade e de poder. Nada de errado: são
atitudes saudáveis em qualquer etapa do desenvolvimento. Cabe aos pais amá-los e
fazer a cada dia o melhor possível para educá-los.
Punição e bom-senso
Uma vez dado o limite, é preciso que ele seja respeitado. A criança precisa
enfrentar as conseqüências de suas ações. Se continuou assistindo à televisão
depois da horário estabelecido, por exemplo, deverá aceitar que no dia seguinte
terá de abrir mão de seu programa favorito; se quebrou algo, terá de ficar sem
esse objeto por um tempo; se rejeita a comida mas não quer ficar sem a
sobremesa, terá que entender que a escolha é entre a refeição principal mais a
sobremesa ou nada. Isso se chama responsabilidade. Não se trata de castigar ou
premiar, mas de fazer com que as crianças compreendam aos poucos que cada ação
tem uma conseqüência, boa ou ruim. Outro ponto importante é deixar claro que, ao
repreender, tem-se em mente a conduta inadequada, nunca a pessoa. Essa clareza
ajuda na construção da auto-estima, que é um pilar fundamental para o
desenvolvimento psicológico e social saudável.
E não se pode nunca esquecer que a educação pede equilíbrio e bom senso. Quando
se exagera em proibições desnecessárias, o risco é o de formar uma pessoa cheia
de medos, com pouca espontaneidade ou criatividade, ou, no extremo oposto, um
rebelde com dificuldades de se inserir na sociedade. Por isso, a criança precisa
aprender que. embora haja um ´não´, muitos ´sins´ podem ser dados”. Assim, por
exemplo, não adianta colocar a melhor roupa numa criança que vai a uma festa e
depois ficar falando o tempo todo para ela não se sujar... O segredo, portanto,
reside em construir uma relação de confiança. Desse modo, mesmo que os filhos
não entendam ou não aceitem plenamente o ‘não’, poderão reconhecer os limites
com mais facilidade e se sentir protegidos pela certeza de que os pais se
preocupam com seu bem-estar.
BOX 1
Mais clareza, menos manipulação
Se estabelecer limites já é complicado para pais que moram juntos, para pais
separados isso se transforma em uma tarefa de titãs. As crianças costumam
utilizar a falta de comunicação entre os adultos para conseguir o que querem. "Tá
vendo como você é, mãe, o papai deixa", é um tiro certeiro que mobiliza a culpa
ou o medo de perder o afeto dos filhos. Os especialistas coincidem em dizer que
os pais devem chegar a um acordo sobre os hábitos das crianças: horários,
permissões, etc. Quanto mais coerência os pais demonstrarem, mais seguros os
filhos se sentirão, e essas estratégias para atingir seus objetivos serão menos
utilizadas.
BOX 2
O sim e o não para estabelecer limites
Eliane Pisani Leite
psicóloga e psicopedagoga
O corpo pode falar mais do que as palavras. Se você não tiver certeza de que
está fazendo a coisa certa, a criança perceberá.
Evite dizer “não porque não”. Mas não se estenda demais em justificativas.
Explique-se de forma breve, numa linguagem que a criança entenda.
Não ameace com algo que depois não possa cumprir.
Pai e mãe têm que estar de acordo com as decisões tomadas. Se houver divergência
de opiniões, elas têm que ser resolvidas longe da criança.
Mesmo que estiver em público, não fique constrangida em falar não com firmeza.
BOX 3
Minha experiência
Érica Regina Rabelo Gonzalez, mãe de Daniele (10 anos), Brian (5 anos) e
Rafaela (3 anos).
Nãos com porquês
Não é fácil administrar três crianças de idades diferentes. Parece que o
terceiro quer aprontar tudo o que o primeiro não fez!... E, é claro, não dá para
falar não o tempo todo. Algumas coisas são negociáveis: quando eles insistem em
comer na lanchonete, por exemplo, explico que nem sempre é possível e nem sempre
é saudável; e às vezes ofereço uma outra alternativa de passeio. É preciso ter
mais jogo de cintura com a Rafaela, que é menor. O Brian já entende muita coisa.
Mas, por outro lado, ele está na fase de questionar o porquê de tudo, e a gente
tenta explicar. Mas procuramos ser coerentes: se eu falo não, o meu marido
mantém a palavra, e vice-versa.
Eliane Pisani Leite - Autora do livro: Pais EducAtivos
Pisicologia Acupuntura Psicopedagogia -
pisani.leite@terra.com.br