Doença e Cura
Por Elisabeth Alvez de Sousa
12/03/2007


A mesma dor que consome,
Abre fendas, muda de nome;
Vai de morte
A norte.
Saindo da rotina,
Vira vacina.
Fica fora e dentro
Levando ao centro,
Duras
Ferraduras
Talismãs de saúde
Que ora amiúde,
Com zelo e arte
Torna-se parte
Dos aliados
Iluminados
Na nova empreitada
Rumo à enseada.

CONCEITO DE SAÚDE

O que é Saúde?

Dicionário Aurélio: Saúde = [do latim salute , salvação, conservação da vida,] Estado do indivíduo cujas funções orgânicas, físicas e mentais se acham em situação normal.

Como vemos, saúde é um fenômeno, que envolve aspectos físicos, psicológicos e sociais, todos eles interdependentes.

A medicina psicossomática tem se preocupado cada vez mais com as relações entre os aspectos biológicos e psicológicos da saúde. Existe uma interdependência entre corpo, mente e emoções em todos os estágios de doença e de saúde. Não há distúrbio que tenha causa puramente psicológica, assim como não existe doença puramente orgânica, sem qualquer componente psicológico.

Fritjofre Capra em O ponto de Mutação diz: Pesquisas mostram que todos os distúrbios são psicossomáticos, ou seja, envolvem uma interação contínua de corpo e mente em sua origem, desenvolvimento e cura.

A principal preocupação do terapeuta é a cura do paciente e todo o seu procedimento direcionado para essa cura.

Sendo assim a atitude do profissional deve, em primeiro lugar iniciar o processo de cura ajudando o paciente a ficar num estado em que suas forças curativas se tornem ativas, isto é, que seus heróis sejam mobilizados.

Doença é a estagnação, o bloqueio da energia vital, surgindo então os sintomas.

A psicologia tem desenvolvido muitas técnicas para mobilização da energia bloqueada transformando os sintomas em experiências. Não que devamos ficar presos as técnicas; elas são recursos a serem utilizados quando necessário. Porém o mais importante é saber ouvir. Ouvir com todos os órgãos do sentido. E mais do que isso ainda, permitir ao paciente que se ouça, pois é ele quem promove a cura.

Quando se fala em transformar sintomas em experiência eu me lembro de um grande mestre que tive a felicidade de conhecer e conviver, Paulo Hindemburgo . Ele dizia sempre: É do esterco, que se faz o adubo e alimenta a planta. Assim também nós não podemos jogar fora as nossas experiências difíceis e traumáticas porque elas podem ser transformadas e se tornarem adubos para o nosso crescimento e para a nossa felicidade.

Me lembro também de uma parte do poema de Catulo da Paixão Cearense chamado "A dor e a Alegria" que diz o seguinte: A dor é como um relâmpago, assusta a gente no escuro mas alumeia os caminhos.

Reexame do Conceito de cura.

Jung diz que a medicina sabe que não existem apenas doenças mas pessoas doentes, e que o objeto da psicoterapia não é a ficção da neurose mas a integridade perturbada de uma pessoa humana.

O crescimento cada vez maior da especialização tem limitado bastante a medicina moderna no que diz respeito à visão do homem em sua totalidade, ou seja, corpo, alma e espírito, sempre em interação. Assim, é necessário e preciso que se faça uma avaliação da história de vida do paciente. O que notamos muitas vezes é o especialista se preocupando com uma parte apenas.

Isso não significa que devamos condenar a especialização. Pelo contrário: O especialista tem um conhecimento mais amplo e profundo do objeto de sua especialização, mais do que o clínico geral até, já que ele estuda e pesquisa muito sobre o assunto escolhido. O que se torna um problema é quando o especialista, de alguma maneira despreza os outros aspectos da vida do paciente, os aspectos psicológicos e sociais. Aí então ele terá uma visão caolha. Mesmo porque se o paciente estiver somatizando uma dificuldade qualquer, a energia bloqueada que se tornou um sintoma e que o levou procurar o profissional, pode ser, não curada mas o sintoma transferido de uma parte para outra.

Caso 1

Uma moça de 32 anos de idade que não conseguia articular a boca quando falava. Foi travando o maxilar de tal forma que passou a ter problemas na arcada dentária, afetando os dentes e os ouvidos. Foi ao dentista que a encaminhou ao ortodontista. Foi colocado um aparelho e ela passou a abrir a boca, mas antes de tirar o aparelho teve um câncer no estômago. Seis meses depois faleceu. Conversando com a sua família eles disseram que ela era muito nervosa e irritada mas a sua raiva não durava um minuto. Quer dizer, ela não podia expressar a raiva, ou melhor, não se expressava. Era a primeira filha de uma família enorme e sem recursos. O pai morreu e ela, ainda uma adolescente, assumiu a casa. Só ela trabalhava para sustentar toda a família e dizia sempre: eu ou a pessoa mais forte dessa família. Morreu dizendo isso.

Fazendo uma análise superficial podemos observar o seguinte: Essa moça, além da perda do pai, não viveu a adolescência como deveria, e ainda, carregava uma carga de responsabilidade muito pesada desde muito cedo. Ela devia engolir toda raiva do mundo e travava os dentes para não manifestar. De acordo com Reich, por um mecanismo de defesa, formou uma couraça muscular e não podia abrir a boca. Com a articulação melhorada a energia estagnada mudou de lugar. Dessa vez foi o estômago o outro órgão de choque. Surgiu então um câncer. Engolia e não digeria.

Portanto, torna-se então necessário reavaliar o conceito de cura.

Na medicina são dois os princípios básicos de tratamento:

A alopatia que se utiliza de medicamentos capazes de causar no organismo efeitos diferentes ou contrários daqueles produzidos pela doença.

A homeopatia que é a aplicação da lei dos similares, ou seja, o semelhante é curado pelo semelhante. O conjunto de sintomas e sinais que uma substância produz em pessoas sadias quando presente em uma doença pode ser revertido em estado normal pelo uso da mesma substância. É um sistema de tratamento baseado na teoria de que certas doenças podem ser curadas pela administração de pequenas doses de substâncias que, em grandes doses, poderiam causar os mesmos sintomas daquela doença em pessoas sadias.

A alopatia é a que se sobressai, também na psiquiatria e na psicoterapia, de modo especial na psico-farmacologia , onde o que se pretende é introduzir efeitos opostos à doença. Daí os anti-depressivos , anti-delirantes, anti-convulsivantes, ansiolíticos , etc., etc., etc. A idéia é suprimir os sintomas das neuroses e psicoses. Por outro lado, a psicologia profunda, começando com Freud e a psicanálise, desenvolveu-se principalmente a partir da aceitação da abordagem homeopática, ou seja, a partir dos princípios da homeopatia a integração psíquica, ou cura, poderia ter lugar e bloqueios do desenvolvimento poderiam ser removidos ao se reviver ou re-experimentar certas experiências traumáticas, em pequenas doses de emoção. Jung ao processo revela uma marcada ênfase sobre o ponto de vista homeopático no processo de cura, isto é, a cura procede do "encontro de um significado para a doença", ou quando os sintomas se integram em uma totalidade.

Jung começa então a trabalhar com doentes esquizofrênicos, não eliminando os sintomas mas analisando os delírios, as alucinações e imagens dos pacientes. E pode observar não somente um significado para a doença, mas também a busca de um sentido e de um centro de equilíbrio, isto é, os próprios sintomas indicavam um caminho para a cura.

E ele diz: Se é que cura" significa tornar sadio um doente, cura significa transformação.

Caso 2

Uma moça de 35 anos com uma história de grande dificuldade de se relacionar com os homens. Tomava sempre uma atitude materna diante dos mais próximos. Sentia vontade de namorar, casar, ter filhos como qualquer mulher, mas o homem era uma ameaça quando alguém se interessava por ela, ou tentasse se aproximar ela ficava apavorada porque ele se transformava. Seus olhos ficavam enormes, seu rosto se tansfigurava . Essa era a queixa principal. Dizia ainda que não se lembrava de nada da sua infância, mas um certo dia contou que havia sido violentada ao 7 anos de idade. Não conseguia aprofundar nesse assunto por mais que tentasse. Interrompeu a terapia e após 2 anos voltou muito mal. Teve um câncer de mama e estava fazendo quimioterapia. Em fim, depois de alguns meses, com ela já mais fortalecida conseguimos, com grande dificuldade trabalhar a história do estupro.

O que estava doente nessa moça, somente a mama?

Não. A mulher estava escondida por que foi violentada.

Já havia a dificuldade na relação com os homens, o que adoeceu foi a mama que é uma glândula feminina. Isso é um forte indício de que a mulher estava doente, de que feminino estava ferido. E a maneira que encontramos de resgatá-la foi revendo e revivendo o trauma. E ele dizia: "foi preciso um câncer para eu poder me libertar.

Essa pessoa já não está mais em terapia, mas já está namorando com força.

E me vem então o pensamento: Em psicoterapia nada se perde tudo se transforma e pode ser útil no processo de individuação, desde que clareado e integrado.

A IMAGEM ARQUETÍPICA DO CURADOR FERIDO

O mito de Esculápio

Conta uma versão do mito que Crônis , engravidada por Apolo tem um caso amoroso com Isquis ; Quando Apolo toma conhecimento da traição mata-a.

Um pouco antes da morte de Crônis, já na pira funerária, Apolo se enche de remorsos e resgata, através de uma incisão cesariana, seu filho (Esculápio) ainda não nascido. Este mitologema reflete o princípio: Aquele que envia morte, dá também a vida. Depois disso Esculápio é entregue a Chiron, o centauro, para ser educado. Chiron já é conhecido e versado na arte de curar e habita uma caverna no alto de um monte. Tudo em Chiron, o médico divino e ferido o faz parecer a mais contraditória figura da mitologia grega. Apesar de ser um deus grego, sofre de uma ferida incurável.

Aquela metade do mundo pertencia a Chiron . Ao pé do monte e abaixo da caverna havia um vale famoso pela profusão de ervas medicinais. Nesse vale, Esculápio familiarizou-se, sob a tutela de Chiron , com as plantas e seus poderes mágicos e com a serpente. Aí também crescia a planta chamada Chironion , sobre a qual se afirmava ser capaz de curar qualquer mordida de cobra e até mesmo o ferimento causado por uma flecha envenenada, do qual o próprio Chiron sofria. O detalhe trágico, no entranto , é que a ferida de Chiron era incurável. De modo que o mundo de Chiron , com suas inesgotáveis possibilidades de cura, era também um mundo de doença eterna.

O mito de Esculápio nos fala da transferência na relação terapeuta paciente importantíssima para que a cura possa acontecer.

Como ocorre essa transferência?

O terapeuta precisa ter uma ferida para poder enxergar a ferida do paciente, ou seja ele se identifica com o paciente entrando em contato com o seu curador ferido. A doença do paciente ativa no terapeuta a sua ferida incurável (o seu lado humano frágil, sofredor). Por outro lado o paciente, diante do terapeuta se identifica com o curador que existe dentro dele, isto é, entra em contato com o seu herói, capaz de lutar e vencer o mal que o aflige.

Aqui, o arquétipo do herói precisa ser mobilizado. Por isso, o primeiro trabalho do terapeuta é de o de fortalecimento do ego do paciente, a fim de que ele possa perceber a sua força de luta.

O que é o Arquétipo do Herói?

O arquétipo do herói surge como a capacidade que todos temos de auto-superação, a capacidade de reclamar nossa própria origem divina e a imortalidade, de criar possibilidades, de descobrir e seguir nosso próprio e único caminho, de transformação de nós mesmos e da nossa interação com o mundo.

Temos dentro de nós todos os heróis de que precisamos. E cada herói tem seus próprios instrumentos, suas próprias habilidades e seus próprios problemas.

A mitologia mostra-nos, por exemplo:

Persival , dono de muita coragem, para salvar o rei precisa não de coragem, porém de desenvolver a sensibilidade no contato com o feminino.
Dionísio precisa nascer duas vezes, renascer para renovar a aliança divina com o mundo mortal.
Ulisses brilhante pela inteligência adoece pela arrogância e prepotência. Para se curar precisa descer ao mundo obscuro das emoções e dos sentimentos.
Dédalo o construtor, construiu um labirinto e se perdeu dentro dele porque desconhece os limites do poder, do materialismo. Precisa então reavaliar os valores materiais e desenvolver os valores e afetivos, espirituais e intelectuais, aprendendo a distribuir riquezas, abrindo mão da ganância.

Então, jornada do herói é sempre muito difícil, cheia de riscos e perigos porque implica em transformação, em mudança de vida. Significa abrir mão de um caminho conhecido e seguro, embora não conduza à auto-realização, à felicidade, à saúde e penetrar num mundo desconhecido e cheio de mistérios, de obstáculos e desafios. Monstros reais ou imaginários terão que ser enfrentados e vencidos.

Por isso a terapia é um processo muitas vezes lento e doloroso. É necessário um mergulho profundo no inconsciente, se deparando com as ameaçadoras sombras que bloqueiam o crescimento no processo de individuação.

Acredito que os nossos heróis têm perdido muito daquela aura que os cercavam. Desde a antiguidade, quando o conceito de herói foi criado pelos gregos, muita coisa mudou. Mas com Jung e outros apontam em seus escritos o herói é uma necessidade do ser humano, sendo construções simbólicas que cumpre funções importantes no desenvolvimento.

Antigamente, os heróis dos mitos ou dos contos de fadas eram passados de pai para filho, de avó para os netos, através de histórias contadas na hora de dormir ou através de livros.

Talvez por isso o crescimento acelerado de tantos males que nos aflige a alma e o corpo. Nunca houve tanta depressão, tanta ansiedade e tanta síndrome do pânico quanto hoje. Estamos pobres de heróis. As crianças estão cada vez mais isoladas. Todos estamos cada vez mais solitários e isolados do contato humano. A máquina está dominando o homem.

Hoje, novos heróis vêm surgindo dos meios de comunicação modernos e da transformação da indústria cultural numa entidade globalizada e quase onipotente, através da televisão ou da Internet. Os heróis com os quais lidamos se modificaram drasticamente.

Se antes nos identificávamos e seguíamos um herói, esperando, ansiosos, aquele momento quase sagrado onde podíamos reencontrá-lo nos livros ou nas revistas, no rádio ou no cinema ou na TV, os heróis modernos estão mais disponíveis e muito mais vorazes pela nossa atenção. Nos shoppings, as salas de cinema, nos canais de TV por assinatura durante 24 horas por dia.

Mas infelizmente, junto com cada herói as crianças e adultos recebem uma carga cada vez maior de mensagens de propaganda, incentivando o consumo de produtos dos mais diversos. Muitas vezes o herói só existe como meio de divulgação de determinados brinquedos, roupas, sapatos, etc., etc., etc. O herói passa a ser uma ferramenta de marketing e está a serviço dos fabricantes.

Os heróis modernos estão mais e mais materialistas.

VÁRIOS " Anais do II congresso brasileiro de prevenção e tratamento dos transtornos de ansiedade, depressão e transtorno de pânico" - www.olhosalma.com.br - Goiânia 2004 Copyright Instituto OlhosDaAlmaSã