O que tira o sono dos funcionários?
Por Maria Inês Felippe
22/08/2007
Não são só os presidentes que têm pesadelo ou ficam sem dormir. A maioria dos
colaboradores também se ressente da falta de sono e sonho tranqüilo, alinhados
com suas experiências profissionais.
Na última edição do Conarh foi realizado um evento tendo como objetivo
identificar o que tira o sono dos presidentes. Em contraponto, percebemos também
vários motivos que tiram o sono dos colaboradores. Investigar estes motivos é
uma atitude bastante interessante, em que é possível identificar vários aspectos
e que também serviu como fonte inspiradora para uma reflexão.
Sabemos que quando há pensamentos, objetivos, posicionamentos por vezes
antagônicos, temos como resultado a instalação de vários focos de conflitos que
pode ser comparado com a evolução da espécie. Aqueles que sobrevivem são os que
vão se adaptando criando ou transformando-se.
A Empresa é um lugar privilegiado de conflitos pessoais, profissionais, de
interesses, ideologias. Somente escutar as pessoas ou reconhecer um lado da
moeda, não garante a sua resolução . Entender e trabalhar questões da
diversidade passa a ser fundamental para uma administração moderna de Recursos
Humanos. Esta diversidade não é apenas de raça, gênero e de religião, nem de
diferenças hierárquicas. Digo diversidade como forma de pensamento , ideologias
e em todos os níveis hierárquicos tanto horizontais como verticais.
Escutar o que diz o Presidente da empresa, quanto às estratégias de negócios,
objetivos a serem atingidos, interesses ou o que lhe tira o seu sono é
importante, mas cabe também ressaltar a importância de ouvir porque os
colaboradores não tem dormido.
Mesmo no cenário do apagão ,os presidentes ainda dormem, enquanto muitos
trabalhadores estão acordados, sofrendo de insônia por temerem ao desemprego.
Algumas empresas realizam café da manhã e almoço com o presidente, como
estratégia de aproximação, onde escutamos um discurso, por vezes animador, por
vezes vazio, definindo novas estratégias empresariais. Visualizamos no cenário
empresBernhardMod, funcionários que conhecem o presidente da empresa em que
trabalha somente pela televisão.
Estamos a todo momento, escutando o que o presidente tem a dizer.
Seja lá qual for a estratégia, continuamos numa comunicação de mão única,
escutando o nosso superior, impossibilitados de expressar o nosso pensamento,
mantendo-nos calados. O silêncio poderá ser uma grande fonte de indicativo de
conflitos.
Muito se fala em escutar o presidente , escutar o cliente externo, ou até os que
ainda não são clientes, mas quando será que vamos escutar o cliente interno ou o
que tira o sono do funcionário? Quando será que iremos buscar aplicação
verdadeira, prática, com resultados, do que escutamos também dos nossos
funcionários?
Resolver conflitos é negociar, e negociar é alcançar objetivos, através de um
acordo em situações que ocorrem pensamentos divergentes e convergentes.
Podemos identificar que na prática pouco se escuta o funcionário, mesmo
aplicando pesquisas de satisfação, de clima etc. Percebemos que escutar é
diferente de ouvir e somente ouvir não garante, é preciso implementar o que foi
ouvido.
Canal aberto para comunicação
As empresas desenvolvem uma estrutura formal de relacionamento entre os membros,
fixam objetivos e cobram resultados.
À medida que a empresa cresce, os processos vão se tornando mais complexos,
realizando uma comunicação “aberta” de cima para baixo, através de normas,
procedimentos, boletins informativos, etc.
A impressão dos funcionários em relação a empresa, ou o que tira o sono dos
funcionários, ocorre somente no campo informal, intitulado como “radio pião”,
das organizações tanto verbal como não verbal.
Buscar entender o que tira o sono do funcionário passa a ser um ponto de
partida, desde que efetivamente seja trabalhada de forma satisfatória .
Empresas inteligentes não somente escutam o que o presidente tem a dizer, como
também cliente externo e interno têm a falar . É função da área de Recursos
Humanos administrar favoravelmente as divergências apresentadas e não somente
posicionar-se a favor de um em detrimento do outro e que na maioria prevalece o
lado do mais forte.
Não cabe aqui discutir a teoria Marxista , que assinala a contradição capital e
trabalho, “mais valia”, nem mesmo a Keinesiana, que assinala a importância do
investimento em máquinas, equipamentos, enfim, chamado produtivo, sob a ótica
desta.
A nossa intenção é a busca da resolução dos conflitos organizacionais, de
maneira que haja um crescimento entre ambas as partes. Somente assim
estabeleceremos uma “nova arquitetura do trabalho”.
Antagonismo a toda prova
1- Escutamos nos discursos:
O que faz a diferença é o capital humano da nossa empresa.
O que faz a nossa empresa de sucesso são as pessoas que a compõem.
Devemos buscar a competitividade e a força dos recursos humanos, será que a mola
propulsora deste progresso.
Frases assim não faltam em todos os discursos dos presidentes e dos
profissionais de RH, mas no momento de crise é o “sujeito” das frases acima que
é excluído ou o investimento neste “ capital intelectual ” é extinto, por vezes
depositado no colo do excluído o motivo de tal procedimento.
2- A área de Recursos Humanos necessita entender do negócio da organização, ser
estratégica, aspecto este fundamental para o exercício das atividades, embora na
prática poucos presidentes escutem os profissionais de Recursos Humanos, sejam
eles internos ou Consultores Externos, mesmo entendendo do negócio.
3- As políticas de Recursos Humanos focadas em resultados, esquecem que o que
compõe uma empresa são pessoas com razão, emoção e inteligência. O excesso de
competitividade por melhores bonificações o uso da remuneração variável, como
forma de motivar, geram a saturação psicológica do trabalhador, e como saída
paliativa, disfarçada, surgem os programas de Qualidade de Vida.
4- O discurso é de atrair talentos e, se possível com baixo salário. É contratar
estagiários e utilizá-los como mão de obra barata, dando-lhes um título pomposo
em seu cartão de visitas , além da promessa de uma carreira de sucesso.
5- Notamos uma postura preconceituosa na contratação de trainees ou estagiários
oriundos somente de universidade de primeira linha. É como se os demais não
tivessem potencial ou até experiência de vida, posicionamentos e uma visão mais
realista.
Neste cenário prevalece assim o QI maior que o QE, e todos nós sabemos que ambos
são importantes.
6- O discurso é de reter talentos, através de investimentos em treinamento, onde
poucos conseguem colocar em prática o que aprenderam, outros são demitidos
durante o seu MBA ou até mesmo são alocados em outro contexto pela falta de
oportunidades internas.
7- Discurso x prática- podemos identificar vários exemplos clássicos , entre
eles: fortalecimento do trabalho em equipe, (remunerando individual),
estimulando a competitividade interna e as especialidades. Buscam indivíduos
empreendedores, criativos, mas, ao surgir a primeira idéia inovadora, a mesma é
bloqueada com uma série de críticas e “chavões” conhecidos.
A definição das competências críticas do negócio e o desenvolvimento das
humanas, tratando respeitosamente o cliente interno, tratará favoravelmente o
cliente externo. Isso acaba elevando as competências da organização,
possibilitando o envolvimento e, consequentemente, tanto o presidente como o
funcionário não perderão o sono.
8- Caixa de sugestões, perderam a chave.
Noites mal dormidas
Conversando com presidentes, funcionários, colhendo suas impressões durante os
programas de treinamento, identificamos os seguintes aspectos nas práticas de
Recursos Humanos.
1- A falta dos esclarecimentos quanto aos objetivos organizacionais
Isso faz com que o funcionário não saiba o que está dentro da cabeça dos seus
dirigentes, como a empresa está e onde quer chegar. Esta situação gera
insegurança profissional fazendo com que o colaborador não se comprometa com a
empresa, , pois não sabe com o que se comprometer.
2- A falta de diálogo com as chefias
Problemas: líderes centralizadores, que não repassam problemas e possíveis
soluções para os seus superiores e subordinados, presidentes que não tomam
decisões e alguns líderes acreditam que somente eles pensam e os demais
executam.
3- Desconhecimento da realidade
Muitos presidentes desconhecem realmente o que acontece na sua empresa, ficando
somente com as informações que lhe são repassadas e que podem ser distorcidas ou
pouco verdadeiras.
4- O nosso capital intelectual
Potencial que poderia ser melhor aproveitado. Somente é utilizado uma parcela da
sua inteligência, por insegurança da chefia, falta de incentivo das
organizações, etc. O mesmo “capital intelectual” que desenvolve uma empresa, em
alguns casos, participa do que chamamos de economia informal, sem registro na
carteira profissional , direitos trabalhistas, plano de saúde, previdência, etc,
vivendo numa total instabilidade. Encontramos este cenário com bastante
freqüência.
5- Participação nos lucros
Percebido por todos da organização a falta de critérios e de esclarecimentos
quanto ao programa.
6- Salário e benefícios
Ponto crítico: quando temos que “ mexer ” no bolso do empresário. É bastante
complicado administrar algo, quando percebemos o ganho de somente uma das
partes. Isso acaba tirando o sono dos profissionais da área de salários.
7- Treinamento e Desenvolvimento
Em alguns casos diminui a possibilidade de aplicar o que foi aprendido, ou
também a necessidade do retorno, resultado, do investimento a curtíssimo prazo,
o que faz perder o sono dos profissionais da área de T&D.
8- Um processo seletivo
Rápido e com baixo investimento, pois acreditam que há mão de obra disponível,
onde exige-se muito e paga-se pouco, tirando o sono dos selecionadores.
9- Criatividade x robotismo
Ainda identificamos por ai, nas empresas do século 21, cenas do filme “Tempos
Modernos” produzido por Charles Chaplin: uma fábrica controlada por um patrão
tirano e empregado tendo um colapso nervoso.
“Não podemos continuar observando somente um lado do moeda. É nosso trabalho
escutar os dois lados , administrar efetivamente os conflitos com ações,
utilizando o nosso potencial criativo.”
10- Tomando o remédio
Presidentes, líderes e profissionais de RH necessitando tomar as pílulas que
receitam para os funcionários.
11- Discurso x prática
Escutamos de alguns Presidentes: “a porta da minha sala está sempre aberta, o
funcionário poderá entrar e conversar pois estou para escutá-lo”, mas observamos
que dificilmente podemos encontrá-lo em sua sala.
12- Desconsiderando do homem brasileiro
Com suas peculiaridades, tendo que seguir modelos internacionais. Numa economia
globalizada, cada vez mais, temos que ter líderes locais.
13- Redução na jornada de trabalho e férias coletivas
Há casos em que os funcionários são avisados da redução ou férias coletivas ou
demissão, pela televisão ou jornais.
Enfim, não podemos continuar observando somente um lado da moeda. É nosso
trabalho escutar ambas as partes, administrar efetivamente estes conflitos com
ações, utilizando do nosso potencial criativo e aproveitando ao máximo .
Quando nos confrontamos com sugestões, objeções, muita vezes, percebemos ações
que justificam somente um ponto de vista, gerando um monólogo. Neste caso, uma
das partes busca convencer, tendo muito a dizer e pouco a ouvir.
Quando a hierarquia é complexa, os conflitos são mais vivos. Por trás de um
silêncio há focos de conflitos, que interpretamos como a falta de
comprometimento dos colaboradores. Escutar e entender os dois lados sempre será
uma oportunidade para resolução dos conflitos organizacionais.
Maria Inês Felippe: Palestrante, Psicóloga, Especialista em Adm. de Recursos
Humanos e Mestre em Desenvolvimento do Potencial Criativo pela Universidade de
Educação de Santiago de Compostela - Espanha. Palestrante e consultora em
Recursos Humanos, Desenvolvimento Gerencial e de equipes, Avaliação de Potencial
e competências. Treinamentos de Criatividade e Inovação nos Negócios.
Palestrante em Congressos Nacionais e Internacionais de Criatividade e Inovação
e Comportamento Humano nas empresas. Vice Presidente de Criatividade e Inovação
da APARH.
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