Psicologia
Por Reinaldo Müller
24/01/2011


A psicologia requer para o seu ensino (acadêmico) uma metodologia, uma epistemologia, uma didática...
O que estuda a psicologia? Ela estuda o comportamento humano --- note que “outras ciências”, também, o fazem.
O que está implicado, então, é o contexto em que este comportamento está inserido e o objeto formal deste estudo. A psicologia é a última filha rebelde da Filosofia. Desta, desligou-se há muito pouco tempo. A psicologia existe desde quando aqui na terra pisou o primeiro ser humano... É óbvio que nestes estágios primais, o equipamento psicológico era, basicamente, instintivo... Vamos pular (para efeitos didáticos) centenas, milhares de anos, talvez, e chegarmos à Grécia Antiga. Por que, exatamente, este período da História? Porque nesta era foi inaugurado o pensamento formal... Em outras palavras: a RAZÃO!
Claro, que estamos falando do ponto de vista de que nesta época a RAZÃO foi de fato, sistematizada (obviamente, em períodos pré-socráticos, os homens, também pensavam...).
A princípio os pensamentos sobre “as emoções” (premissa maior da psicologia) eram ingênuos e fantasiosos. Eles retratavam os mitos e as crenças idiossincráticas de seu tempo. Por centenas de anos nunca houve um estudo sistemático da psicologia. Muito do que se supunha como verdade, eram mitos... Folclore...
A psicologia surgiu como uma disciplina específica na Alemanha na segunda metade do século XIX. Atribui-se geralmente a Willhelm Maximiliam Wundt o título de fundador da psicologia como ciência experimental. Teses foram elaboradas para validar a psicologia como ciência com pressupostos científicos capazes de serem aferidos e mensurados, experimentalmente. Até hoje na contemporaneidade existem resistências férreas em aceitar a psicologia como uma ciência natural com embasamento científico, tais quais se apresentam no estudo da física... Da química... E em outra vertente aos das ciências biológicas. Restou-lhe o enquadramento no campo das ciências humanas; com todas as limitações e implicações possíveis desta área de estudo. Pois bem, o animal homo sapiens resistiu às teorias reducionistas de laboratório, da experimentação. A tendência funcionalista, behaviorista foi o impulso maior da psicologia norte-americana. Ela reflete a ética pragmática do cidadão médio daquele país. O american way life, requer respostas imediatas para as questões existenciais...
A psicologia da Gestalt surgiu na Alemanha no meio acadêmico, o que lhe conferiu certa credibilidade inicial.
Ela teve um desdobramento importante com Fritz Pearls nos EUA. A psicanálise nasceu com Sigmund Freud, um neurologista austro-húngaro que na sua genialidade criou uma metapsicologia... Ao fim, as tendências de cientifizar a psicologia foram sendo, paulatinamente, descartadas. Resistiram à prova do tempo, aos modismos, as seguintes linhas teóricas: Gestalt – Psicologia Analítica (Jung) Psicanálise (Freud) a Cognitivo-Comportamental. Igualmente, algumas dissidências (e/ou neotendências) destas doutrinas, ainda, permanecem em nichos: Psicanálise kleiniana, lacaniana... psicologia reichiana...
A psicologia cognitivo-comportamental (de origem norte-americana) conseguiu reconhecimento em nível internacional. A popularidade desta linha psicoterápica, em grande parte, deve-se ao seu uso disseminado em ambulatórios psiquiátricos de hospitais-escolas. Entre os psiquiatras, ela goza de boa aceitação dado à sua comprovada eficácia clínica em quadros de depressão, pânico e fobias associadas. A terapia cognitivo-comportamental (TCC) atua, concomitantemente, e combinada com fármacos que atuam no mecanismo da sinapse dos neurotransmissores. A TCC entende que padrões neurotizantes de comportamentos recebem a influência direta de crenças fixas que limitam a expressão emocional, cristalizando condutas estereotipadas.
A integração de tratamentos medicamentosos e psicoterápicos traz grande benefício para os pacientes. O resultado dos tratamentos melhorou muito nos últimos anos, pois quase não existe mais o duelo: "remédio é melhor que terapia" ou vice versa. Embora a medicação seja muito importante ela é fator coadjuvante no tratamento.

A psicanálise desde a sua criação sofreu grandes avanços, quer na teoria, quer na clínica. Melanie Klein, por exemplo, aprofundou-se na Análise de crianças, elegendo novas vias de interpretação. Seguiram-se a ela; Françoise Dolto, Margareth Mahler, Winnicott, Bion. Um grande expoente da psicanálise foi Jacques Lacan.
Ele propôs um retorno a Freud através da releitura de seus escritos. A psicanálise lacaniana tem um discurso específico, alicerçado em matemas, e edificado na lingüística de Saussure, desenvolvendo uma sintaxe que lhe é própria.

A psicologia analítica (junguiana), ainda, não foi institucionalizada na pós-graduação universitária, o que limita e muito, a sua divulgação no meio acadêmico. Atualmente, na sua aplicação psicoterápica ela incorporou técnicas corporais (cinesiologia psicológica) para maximizar seus efeitos terapêuticos.

As linhas psicológicas de uma maneira geral seguem em suas doutrinas, a ideologia de seus criadores. A sua peculiar visão de mundo, suas crenças individuais, histórico pessoal, formação e trajetória profissional os levaram a interpretar o universo psicológico, a partir de si mesmos...

Não existe uma Superestrutura de Saber nas teorias psicológicas. Há francos opositores, enquanto outros buscam similaridades, aproximações, um ecumenismo conceitual. É sabido o consenso, inevitável após Freud: ficou incontestável a admissão do INCONSCIENTE na vida mental. Em conseqüência, a teoria freudiana do desenvolvimento emocional regulado por uma economia sexual, passou a ser aceito até nos círculos científicos mais conservadores...
Nenhuma doutrina de pensamento, escola filosófica ou antropologia contemporânea exerceu maior influência na cultura, na educação e na saúde mental do que a Psicanálise!

No século XXI, tivemos grandes avanços no campo da Neurociência. Muito, particularmente, na exploração espacial do cérebro, através do auxílio de instrumentos de alta tecnologia. Foram, também, descobertos novos medicamentos psicotrópicos de indiscutível eficácia clínica. Estima-se que em menos de 10 anos as doenças mentais, somaticamente, constatáveis, sejam, totalmente, curadas e/ou controladas por via medicamentosa.

Retornando ao início desta exposição: o estudo da psicologia requer uma metodologia... Uma didática... Uma epistemologia...

E quanto ao aluno?

Será ele, ao término de sua graduação, mais um mero reprodutor de teorias e práticas repetitivas?

Será a psicologia o aprendizado de uma técnica?
Ser psicólogo demanda uma postura-abordagem perante os fatos da vida. Torna-se preciso produzir conhecimento, a partir de si mesmo. Exercer uma autonomia sobre o aprendizado, saindo do lugar-comum, elaborando novas sínteses, re-significando conceitos, propondo novas questões, buscando desdobramentos e ampliando percepções...

A psicologia não tem como se apoiar em verdades “científicas”, leis, tratados, teoremas ou silogismos. Ela opera nas subjetividades humanas, em conteúdos, plasticamente, mutáveis.

Uma pessoa pode sofrer remissão espontânea dos sintomas, mudanças psicológicas num único insight, ou mesmo até em “vivências intrapsíquicas” não identificadas ou percebidas pelo mais atento e experiente observador/examinador.


O prof. Reinaldo Müller é Consultor de Marketing e Vendas - Instrutor de Vendas - Especialista em Gerência de Vendas pela ADVB-SP - Multiplicador de ENDOMARKETING (Planeta Marketing/SP). Escreve com grande desenvoltura sobre Marketing - Vendas - Gestão e Administração de Empresas - Filosofia - Psicanálise - Psicologia. Site: http://wwwreinaldomuller.blogspot.com/