Uma Psicanálise (?) ou Muitas (????...) - (A ou As Psicanálises)
Por Márcia Vasconcellos de Lima e Silva
2000


"Pensar é caminhar nas pegadas dos outros, porém com nossos próprios pés".
(Renato Mezan).


INTRODUÇÃO

Várias foram as razões que me nortearam na escolha deste assunto. Considero um tema bastante intrigante e polêmico. Será possível se pensar na existência de uma ou muitas psicanálises ? Com base em quê ? Quais os critérios subjetivos e de ordem prática que fazem com que determinada pessoa se posicione desta ou daquela forma perante este assunto ? Pode-se considerar que existe a (s) psicanálise (s) ou psicanalistas diferentes ?
As questões abordadas e debatidas durante o curso, suscitaram uma série de questionamentos internos, tais como os acima mencionados de forma mais geral e abrangente, como outros mais específicos.
O conceito de Inconsciente marca a diferença entre as diversas escolas ? A polissemia de leituras do texto freudiano contribui para isso ? O autor de uma obra, ou o criador de uma ciência - refiro-me aqui a Freud e à Psicanálise, respectiva e especificamente - detém a verdade absoluta e completa ou seu saber pode e deve ser questionado ? Em outras palavras: deve-se aceitar passivamente tudo o que está escrito no texto freudiano ou ele mesmo permite outras leituras ? Há uma espécie de "troca de idéias" - de inconsciente para inconsciente - entre autor e leitor ?
Enfim, qual a especificidade da Psicanálise ?
Particularmente, considero que toda leitura é interpretativa, isto é, ocorre um fenômeno de apropriação do texto pelo leitor. Foi a partir dessa visão, que questionei se é possível dizer que acontece uma espécie de " troca de idéias ", a nível inconsciente, entre autor e leitor. Nessa linha de raciocínio, não me parece que exista uma verdade absoluta e indiscutível, inquestionável. Mas também, não considero - pelo pouco que sei - que Freud se posicionou desta forma, qual seja, a de detentor do saber. Muito pelo contrário: seu espírito investigador não lhe permitiria fazê-lo. A meu ver, Freud não apenas se permitiu reformular sua teoria quantas vezes achasse necessário, como deixou em aberto a possibilidade de que outras pessoas trilhassem o mesmo caminho.
Na minha concepção, obra e autor não se dissociam. O texto está impregnado da subjetividade e singularidade daquele que o escreve. Assim, neste trabalho, por exemplo, a minha maneira pessoal de articular as idéias, fazer determinadas considerações, observações e recortes, levantar essa ou aquela questão em especial, " fala " um pouco de mim. Isto é algo inevitável.

* Disciplina: Prática de Ensino I - A Especificidade da Psicanálise e sua Transmissão.
Prof: Angela Coutinho
1o. Período - 01/99

O presente trabalho destina-se, então, a uma tentativa de contraposição de idéias, teorias e práticas psicanalíticas que se diferenciam entre si, mas nem por isso, deixam de ser consideradas Psicanálise - lato senso. Para tanto, fiz uma seleção prévia acerca dos quatro entrevistados, a fim de que as entrevistas justificassem essa pluralidade de leituras. Portanto, não é por acaso que os pontos de vista são divergentes e, acrescentaria eu, complementares, também.
Desta forma, temos aqui um representante da Escola Francesa (Lacan), da Psicologia do Ego (Anna Freud e seguidores), da Escola Inglesa (Winnicott, Klein, etc.) e do próprio Freud, respectivamente. Cabe observar que as entrevistas não seguem um critério de valor, não estão ordenadas (essa vai ser a 1a., aquela será a última) e, assim, foram sendo transcritas na medida em que eram realizadas.
Ao final das entrevistas encontram-se reflexões e comentários acerca das mesmas. Em determinados momentos, faço referência aos textos lidos.
Deixei a conclusão reservada para uma tentativa de articulação entre o que foi visto no decorrer do trabalho, do curso em geral e das idéias que me foram despertadas pela leitura dos artigos selecionados.
Espero que o tema possa despertar naqueles que a esse trabalho terão acesso, um sentimento parecido com o meu ao realizá-lo. O de perceber que, na medida em que as pessoas são diferentes, únicas e singulares, a psicanálise que elas praticam também será diferente, única e singular. E que, ao contrário do que se poderia imaginar, isso não é uma desqualificação da prática psicanalítica, mas sim - e até, um acréscimo de vital importância à obra freudiana.

AS ENTREVISTAS

OBSERVAÇÃO PRELIMINAR

Embora as entrevistas tenham a sua particularidade devido à singularidade dos entrevistados, elas foram realizadas com base num roteiro inicial, a fim de demarcar os principais pontos que achei importantes serem levados em consideração de forma geral, para o que aqui me propus fazer.
Todavia, procurei não ficar "presa" a esses critérios pré-estabelecidos, a fim de que as entrevistas fluíssem com mais naturalidade. Portanto, algumas questões nem foram abordadas ou outras foram acrescentadas - como será possível perceber. Ao final deste trabalho, farei comentários a tal respeito.
Tomei a liberdade de grifar alguns pontos das entrevistas, a fim de chamar atenção para o que pretendo enfatizar e comentar na conclusão. Cabe ainda colocar que as entrevistas não foram transcritas ipse litteris (uma vez que eu anotava os dados principais do discurso do entrevistado, na medida em este ia falando), de sorte que a redação das entrevistas ficou a meu encargo. Porém, em determinados momentos, as próprias palavras dos entrevistados foram preservadas na íntegra - citações entre aspas.

ROTEIRO INICIAL

· Formação profissional.
· Para você existe uma ou muitas psicanálises ? Justifique.
· O que difere as diversas abordagens psicanalíticas ?
· O que elas têm em comum ?
· Qual (is) o (s) instrumento (s) básico (s) do psicanalista ?
· Qual o conceito de cura, critério de " alta ", enfim, como você considera a questão do final de análise ?
· Como você acha que a (s) psicanálise (s) irão se configurar no Terceiro Milênio ?

1a. ENTREVISTA

Trata-se de um médico psiquiatra, formado em 1982 pela UFRJ, que exerce Psicanálise há 12 anos.
Seu primeiro contato com a psicanálise foi através da concepção kleiniana, mas já há bastante tempo "tomou partido" de Lacan, por considerar sua concepção teórica e prática clínica mais condizente com o que o próprio entrevistado pensa a respeito da clínica psicanalítica.
Aproveitei esse momento para entrar no tema do presente trabalho e perguntei-lhe sobre se existe uma ou muitas psicanálises. O entrevistado respondeu que "sem dúvida existem muitas psicanálises, tendo em vista o recorte teórico bem como a prática clínica. O que não impede que esses diversos saberes encontrem pontos de interseção, tanto na teoria quanto na prática".
Continuou falando que a obra freudiana é extensa e abrangente o suficiente para dar conta desses diversos saberes, permitindo várias visões, dependendo daquilo que se toma como o mais importante, o mais relevante dentro da obra acima referida.
Desta feita, perguntei-lhe o que ele considerava mais importante na obra freudiana e o que marcou a sua escolha por Lacan. Ao que ele disse: "a partir da minha leitura, creio que a psicanálise é uma investigação do inconsciente. Assim, a partir da idéia que se tem do inconsciente, tem-se também um escopo teórico da psicanálise".
Prosseguiu dizendo que poder-se-ia pensar ainda no objeto da psicanálise como "um divisor de águas, pois para certas concepções o objeto da psicanálise seria um certo comportamento desadaptativo ou desviante (referência explícita à psicologia do ego - vide próxima entrevista), enquanto para outras concepções tal atributo ou qualidade do comportamento sequer existiria - ou seria levado em consideração".
Aqui, perguntei ao entrevistado o que o fez mudar de teoria - conforme o que ele havia dito no início dessa entrevista. Ele respondeu, então, que a teoria kleiniana é por demasiado imaginária onde "o analista se coloca na posição de um decodificador das produções do inconsciente do analisando. Supõe existir na origem, desconhecida pelo paciente, uma causa para o seu mal-estar ; como um trauma básico que tivesse ocorrido de uma vez por todas e que estaria na essência do sofrimento psíquico do paciente. Desconhece essa visão, o movimento que Freud descreveu como NARTRAGLISCH, isto é, o sistema do trauma em que existem dois tempos: o das marcas e o da ressignificação. Assim, se existe uma origem ela não está no princípio, mas sim, a posteriori".
Em sua opinião, o que difere as psicanálises são as concepções do inconsciente e as formulações acerca do que é o objeto da psicanálise. "Com relação ao 1o. aspecto, pode-se pensar que a idéia que o analista tem sobre como se estrutura o inconsciente, estabelece sua prática clínica".
De que forma ? - perguntei. "Se o analista tem em mente que o ics. é mais do que um conceito, é uma localidade psíquica que se situa por detrás da consciência, nas profundezas do ser, ele, provavelmente, irá buscar elementos obscuros nesta localidade psíquica, que expliquem o comportamento ou o sofrimento de seu paciente. Já se o analista pensar no inconsciente como alguma coisa que não seja da ordem do profundo, mas que tenha - ao inverso - algo que está na superfície, ele buscará encontrar as manifestações deste inconsciente naquilo que também está na superfície, isto é, no discurso do paciente, nos atos falhos, nos gestos, etc".
Quanto ao objeto da psicanálise existem diferenças bastante acentuadas, explicou-me o entrevistado. "Há uma certa psicanálise que teria como objeto ou finalidade promover uma adaptação do sujeito a sua realidade externa. Penso ser esta a questão da escola americana. Para M. Klein, parece-me que o objetivo da análise estaria em levar o paciente a desenvolver uma capacidade sublimatória. Já Lacan fala de uma retificação subjetiva. Pode-se entender tal afirmação como um processo que buscaria implicar o paciente com seu sintoma, isto é, quebrar a estrutura rígida, cristalizada desse sintoma. Talvez se possa dizer, nesse caso, que a finalidade de uma análise lacaniana seria a de levar o sujeito a haver-se com sua Falta e, assim, propiciar condições para que o paciente possa lidar com a Falta de forma que o faça mais feliz ou seu sofrimento mais tolerável".
As psicanálises teriam em comum, segundo o entrevistado, "o fato de estarem inseridas dentro de uma hermenêutica inaugurada por Freud, isto é, as diversas concepções da psicanálise entendem que o seu saber é precário e calcado numa interpretação que não assume o caráter de uma verdade absoluta, uma verdade para além de quem a interpreta".
Com relação ao final de análise, o entrevistado disse que varia de acordo com a abordagem. Como já havia dito, enfatizou que na escola americana, pode-se pensar o final de análise a partir da constatação de que o paciente está melhor adaptado ao seu meio; na kleiniana, o objetivo geral da análise seria desenvolver a sublimação e, na lacaniana, seria fazer com que o sujeito se defrontasse com a Falta e, a partir de um atravessamento do fantasma, mudasse de posição.
Por fim, disse-me o entrevistado que "hoje em dia há um predomínio no Brasil da abordagem lacaniana. Há algum tempo atrás, havia uma polêmica entre Anna Freud e M. Klein. Depois, essa polêmica se deslocou para uma outra entre psicólogos do ego e kleinianos contra Lacan e seus seguidores.
Até o momento, porém, os lacanianos triunfaram. Lacan, em épocas remotas, considerado subversivo e revolucionário, foi expulso da IPA; atualmente, possui um eleitorado maior que o dos próprios psicanalistas da IPA. É possível que daqui a um tempo, surjam novas formulações desafiando, confrontando Lacan. Enfim, é o movimento clássico da antítese sobre a tese".

2a. ENTREVISTA

A seguinte entrevista foi realizada com uma psicóloga, que se formou em 1970, pela PUC / RJ. Disse-me ela, com relação a sua formação analítica, que na época em que se formou existiam três sociedades de Psicanálise: a Sociedade Brasileira e a do Rio de Janeiro - filiadas à IPA - e a SPID, que não era filiada à IPA, por não seguir as normas exigidas pela Associação Internacional de Psicanálise.
A entrevistada, porém, não quis fazer formação na SPID e, uma vez que as demais sociedades não aceitavam psicólogos naquela época (só os médicos podiam fazer formação), ela resolveu continuar por mais cinco anos seu trabalho em Hospital Psiquiátrico com psicóticos. Não era de seu interesse trabalhar em consultório sem poder ser analista. Porém, em 1975, começou a atender psicóticos em um consultório dividido com dois colegas.
Finalmente, em 1980, a Sociedade de Psicanálise do Rio de Janeiro - SPRJ, abriu inscrições para psicólogos. Então, a entrevistada foi da 1a. turma de formação analítica daquela sociedade. Seguindo uma "carreira" dentro da Sociedade - de acordo com as exigências da mesma - tornou-se Membro Associada, Membro Docente e, há alguns anos, é Membro Didata e Docente da SPRJ.
Quanto ao tema propriamente dito do presente trabalho, a entrevistada afirma que, para ela, só existe uma psicanálise: a saber, a freudiana. Segundo ela, depois de Freud, houveram acréscimos e ampliação de conceitos. Mas a base é Freud. O que existe são vários psicanalistas, dependendo do arcabouço teórico e da personalidade dos próprios analistas, ou seja, suas individualidades. Desta forma, existe uma psicanálise com várias ramificações.
Para a entrevistada, o instrumento básico do analista é trabalhar a transferência e a resistência através da interpretação.
Neste momento, perguntei qual era a sua abordagem teórica. Ao que ela respondeu: Psicologia do Ego, considerando-a um desdobramento de Freud. Este em "O Ego e o Id", diz: "a Psicanálise é uma Psicologia do Ego". No próprio nome do artigo, Freud já dá primazia ao ego sobre o id.
Explicou-me, então, que "a psicologia do ego efetuava um trabalho sobre o ego, não sobre o recalcado ou reprimido (id). A instância principal a ser considerada aqui, é o ego, uma vez que é a única que se relaciona com o mundo interno - id e superego - quanto com a realidade externa. Realiza-se, assim, um trabalho com os mecanismos de defesa e a percepção que o sujeito tem da realidade. Portanto, acaba mexendo com as distorções que o ego tem da realidade".
Perguntei-lhe, então, sobre o conceito de cura e o final de análise. A entrevistada respondeu que "não existe conceito de cura. O final de análise será demarcado pela melhor integração e estruturação do ego com a realidade. O que não significa que o sujeito deixe de se utilizar de mecanismos de defesa. Mas sim, que os mesmos serão utilizados de forma mais adequada à realidade. Este é considerado o momento de alta".
Por fim, perguntei-lhe sua opinião sobre a Psicanálise no Terceiro Milênio. Ela disse: "Quisera eu saber...". E continuou falando que a psicanálise hoje já apresenta algumas modificações que irão se configurar no próximo século. "Não é preciso, como no tempo de Freud, por exemplo, configurar a psicanálise como um saber, uma ciência. O que é preciso é interdisciplinariedade - troca com profissionais de outras áreas. Sozinha, a psicanálise não é nada. Mas sozinhas, as outras ciências também não são nada..".

3a. ENTREVISTA

O terceiro entrevistado fez Faculdade Nacional de Medicina e formou-se em Psicanálise pelo antigo Instituto de Medicina Psicológica que depois veio a se chamar SPID. Trabalha no Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro.
Para ele existem muitas psicanálises, devido à diversidade de autores (Lacan, Winnicott, Kohut, Bion, etc.), com suas diferentes teorias psicanalíticas. "Na realidade, existem tantas psicanálises quanto psicanalistas. Ou seja: pessoas de várias tendências. Tendências estas manifestadas de acordo com a forma pela qual a psicanálise é encarada". Assim, seu enfoque pode recair sobre a relação subjetiva e interpessoal; pode ser dado maior valor à palavra ou à interpretação; a ênfase pode se referir à questão do setting ou ao manejo da transferência.
Neste momento, perguntei qual era seu referencial teórico. Disse-me então o entrevistado, ter sido influenciado por Freud, Sullivan, Winnicott, "até o próprio Lacan tem questões bastante interessantes", Bion, Searles - autor pouco conhecido que tem um excelente trabalho com psicose, etc. Mas, "para apresentar uma 'bandeira' política", diz-se winnicottiano.
Enfatiza as relações entre paciente e terapeuta, que vão a um nível muito além do verbal - gestos, comportamentos, olhares...
Quanto à questão do conceito de cura e final de análise, o entrevistado coloca que a alta se dá "quando o paciente sente-se relativamente independente. O que é preciso, é respeitar o desejo do analisando, com bom senso".
Quanto à última questão formulada, o entrevistado pontua que as psicanálises no terceiro milênio, deverão se adaptar à realidade da sociedade. Tal processo, em verdade, já está acontecendo, pois as pessoas andam com muita pressa (esperando resultados mais rápidos), estão com pouco tempo e pouco dinheiro, também. Fazem-se necessárias, portanto, determinadas alterações que irão gerar mudanças nas relações, na transferência, etc.
O entrevistado finalizou a entrevista com a seguinte afirmação:
"A Psicanálise é um método psicoterápico. Faço uma psicoterapia onde seu grosso é a psicanálise. Ou como Winnicott diria: na impossibilidade de fazer psicanálise, faço qualquer coisa...".

4a. ENTREVISTA

A última entrevistada graduou-se na Santa Úrsula, fez Pós-Graduação e formação psicanalítica na SPID e é Mestre e Doutora na área acadêmica.
Seu referencial teórico é freudiano, embora não se considere ortodoxa.
Para ela "só existe uma psicanálise: a de Freud, que vai dar insurgimento às outras". O que difere as abordagens psicanalíticas são as próprias teorias e técnicas utilizadas e elas têm em comum a estrutura psicanalítica freudiana, isto é, "todos os pré-requisitos da psicanálise".
O que você denomina de "pré-requisitos" da psicanálise? "Os conceitos básicos da psicanálise: a premissa da existência do inconsciente, a relação transferencial, a interpretação, a resistência, os mecanismos de defesa, etc.".
Quanto à questão do instrumento básico do psicanalista, a entrevistada enfatizou que "não existe um instrumento, mas sim um interesse pelo paciente".
No que se refere ao conceito de cura e final de análise, a entrevistada disse que "final de análise é como o início. O próprio paciente sabe o momento que quer interromper o tratamento; o que não significa parar...". Como assim ? - perguntei. Ao que ela respondeu que existe uma diferença entre interromper e parar. "Interromper uma análise, não significa que ele parou, necessariamente. Assim como o paciente pode continuar o tratamento - indefinidamente - e não estar em análise. Esse momento é particular, é do próprio paciente e coincide com a entrada em análise, no sentido do que o faz procurar uma análise e dos motivos conscientes e/ou inconscientes que o levam a sair".
Como você considera que a psicanálise irá se configurar no Terceiro Milênio ? "Acho que a psicanálise não vai. A estrutura psíquica não muda; sofre conseqüência de situações novas. Mas enquanto estrutura psíquica, permanece a mesma".

COMENTÁRIOS

Particularmente as entrevistas me surpreenderam, positivamente, em vários aspectos. Os entrevistados, a meu ver, comprovaram que a subjetividade do analista contribui em muito para justificar as diferenças de posicionamento e pontos de vista, independentemente de a qual abordagem teórica eles estão "ligados".
A despeito de considerar que muitos aspectos das entrevistas poderiam e mereceriam ser analisados e dabatidos, por uma questão de prioridade, destacarei alguns pontos que penso serem mais interessantes e relevantes de serem ressaltados, atendo-me no que diz respeito ao tema central do presente trabalho (uma ou muitas psicanálises), ao subtema (a ou as psicanálises) e a questões concernentes à subjetividade dos analistas e de suas escolhas referidas à pluralidade de leituras do texto freudiano.
No que diz respeito ao tema central deste trabalho, parece ter havido concordância entre o primeiro e o terceiro entrevistado, assim como entre a segunda e a quarta, no sentido de considerarem a existência de muitas psicanálises ou de enfatizarem a psicanálise como uma só, respectivamente. Fato este que por si só, é instigante. Poder-se-ia pensar que houve um " empate " entre os entrevistados. Mas afinal, existe uma ou muitas psicanálises? Ou não existe resposta para essa pergunta ? Ou as respostas em si já marcam as diferenças - aquela subjetividade a que me referi acima ?
Vejamos. O 1o. entrevistado pareceu bastante seguro ao afirmar que "sem dúvida existem muitas psicanálises, tendo em vista o recorte teórico bem como a prática clínica". Já o 3o., quando logo a seguir de sua resposta de que existem muitas psicanálises coloca que "na realidade existem tantas psicanálises quanto psicanalistas", nos faz pensar estar - de certa forma - ampliando sua posição. E isso implicaria numa outra questão. A saber: a de se existem muitas psicanálises ou muitos psicanalistas. Implicaria, também, numa outra consequência. A de, indiretamente, estar concordando com a posição defendida pelas outras duas entrevistadas.
A 2a. entrevistada enfatiza que só existe uma psicanálise, a freudiana. A base é Freud. O que existe são vários psicanalistas. Enquanto que a 4a. pontua que "só existe uma psicanálise: a de Freud, que vai dar insurgimento às outras". Poder-se-ia indagar: que outras ? E aí, nesse caso, a 4a. entrevistada poderia estar, indiretamente, inclinada a aceitar a posição defendida pelos outros entrevistados. Qual seja: a de que existem outras psicanálises.
Tema polêmico dá nisso ! Mas, de qualquer forma, não é minha intenção definir nada neste trabalho. Muito pelo contrário: uma das coisas que mais me motivou ao escolher este tema, foi justamente a possibilidade de, a partir dele, criar celeuma, suscitar questionamentos, deixar margem à dúvida, na medida em que ela não permite a cristalização do sujeito numa determinada posição. Ao duvidar, a pessoa é convocada - internamente - a pensar novas formas de lidar com a questão geradora da dúvida. E isto, para mim, é fantástico.
Logo a seguir, o 1o. entrevistado coloca que a obra freudiana é extensa e abrangente o suficiente para dar conta de diversos saberes, permitindo várias visões; a 2a. prossegue dizendo que o que existe são vários psicanalistas, dependendo do arcabouço teórico e da personalidade dos próprios analistas; o 3o. coloca que "(...) existem tantas psicanálises quanto psicanalistas" e a 4a. pontua que o que difere as abordagens psicanalíticas são as próprias teorias e técnicas utilizadas e elas têm em comum a estrutura psicanalítica freudiana. Não estaria implícito considerar que ao falar em abordagens psicanalíticas, a última entrevistada pressupõe a existência de vários psicanalistas - para essas diferentes abordagens psicanalíticas?
Ao destacar essas frases, não parece ter havido concordância no aspecto de se considerar a obra freudiana rica o suficiente para que dê margem àquela polissemia de leituras a que me referi na introdução do trabalho? E, em conseqüência, isso permite afirmar a existência de vários psicanalistas - independentemente do recorte teórico que os tenha feito optar por essa ou aquela abordagem ? Poder-se-ia então pensar que a psicanálise é uma só e o que existe são várias ramificações, mas que a base é Freud, uma vez que se ele não houvesse existido e criado essa ciência - da maneira que o fez (que possibilita essas diversas leituras e abordagens ) - não existiram tantas correntes ?
Afinal, parecemos todos concordar com o fato de que se não fosse Freud, a psicanálise não existiria. Ou será que Winnicott, Klein, Lacan, ou algum outro teórico teria partido do zero, do nada, assim como Freud e criado a psicanálise ? E mesmo que pudesse se considerar ser isso possível - quem ousaria dizer que não? - com certeza a obra não seria a mesma... Defende-se aqui a particularidade de cada teórico e a individualidade de cada analista.
Isso me remete à posição defendida pela psicanalista Colette Soler, que em seu artigo Que psicanálise ?*, dentre outras coisas questiona que psicanálise se tem praticado ?; que psicanálise nós praticamos ?; que psicanálise praticam os outros ? E mais adiante coloca que se existe um tom inquisidor nas suas observações, refere-se à auto-inquisição que ela propõe façamos. Ou seja: um auto-questionamento. E diz que a pergunta "que psicanálise?" pretende ser reguladora, no sentido de ter uma função reguladora para cada analista, "(...) no sólo para algunos, sino para cada uno". Ora, a meu ver, neste momento ela está priorizando a singularidade de cada analista.
E continua mais adiante dizendo que não bastará responder que praticamos uma psicanálise lacaniana, porque o que é uma psicanálise lacaniana ? Sem dúvida, algo aqui deve ser pontuado: o fato de que mesmo dentro de uma determinada abordagem, podem ocorrer divergências. Dizer-se lacaniano, por exemplo, não exime o fato de que cada analista tem a sua subjetividade que fará com que seu posicionamento frente à teoria lacaniana seja diferente.
A autora, num outro momento, refere-se à expressão utilizada por Jacques-Alain Miller, responsável pela obra de Lacan, quando aquele se refere à orientação lacaniana. Orientação lacaniana, difere de psicanálise lacaniana, uma vez que preserva a estrutura proposta por Lacan, mas também preserva a individualidade de cada analista lacaniano em particular.
Nas palavras da autora: "Orientación no es tesis lacaniana. La palabra tesis lacaniana estaría muy cerca de evocar un saber constituido; 'la orientación' tampouco es la inspiración lacaniana. (...) la orientación refiere muy exactamente a las marcas de estructura que sin embargo no dicen adónde llegamos... Marcas de estructura que dejan un lugar vacío". Lugar vazio este que permite as reformulações necessárias ou as leituras diferenciadas dos diversos analistas lacanianos. Lugar vazio que permite a criação do novo.
Percebe-se, assim, que os teóricos da psicanálise, não estavam tão preocupados com a detenção de um saber único e universal - a verdade absoluta (embora tenham tido suas rixas pessoais), uma vez que deixaram suas obras abertas a modificações.
No meu entender, contudo, há uma espécie de "guerrinha" travada pelos seguidores das diversas correntes teóricas. "Guerrinha" esta que diz muito mais respeito a uma luta de poder político-ideológica do que teórica. O 3o. entrevistado mesmo se refere a isso quando coloca que foi influenciado por vários teóricos, mas "para apresentar uma 'bandeira' política", diz-se winnicottiano.
É exatamente essa bandeira política que eu questiono (note-se que eu não estou questionando a posição do entrevistado; entendi perfeitamente o que ele quis dizer). Mas por que se tem que apresentar uma bandeira política ? Talvez por causa dessa "politicagem" que permeia as escolas de psicanálise.
Renato Mezan deixa essa questão bem clara no seu artigo "Klein, Lacan: para além dos monólogos cruzados". O próprio título já indica isso. Monólogos, na medida em que não há diálogo: o que ocorre é um debate de idéias que pretendem, no seu bojo, defender uma verdade exclusiva. A verdade verdadeira. Quem sabe ler Freud ? Cruzados, porque os discursos se entrecruzam e um não escuta o que o outro está dizendo - a preocupação em definir quem sabe ler Freud acaba tapando os ouvidos para o que as outras pessoas estão dizendo, o que gera uma escuta selecionada. Só se escuta o que convém...
Bem, mas voltando ao autor acima citado, ele nos diz que o debate entre kleinianos (que acusam os lacanianos de "surdos" à expressão das defesas, angústias e fantasias na medida em que apenas pontuam o discurso) e lacanianos (que, por sua vez, acusam os kleinianos de intervir de modo intempestivo ao interpretarem as fantasias que supõem subjacentes ao discurso do paciente, projetando seu próprio imaginário no paciente), "(...) se converte em dois monólogos cruzados, o que indica que, se há surdez e projeção do imaginário, é no debate e não no consultório".
O que realmente acontece, Mezan clarifica: o fato é que esses analistas não escutam a mesma coisa "(...) porque partem de teses bastante diferentes sobre a natureza do inconsciente, sobre as finalidades do processo analítico, e sobre o que significa escutar".
Mas se é possível pressupor que o psicanalista deva ter uma certa flexibilidade e auto-conhecimento (auto-análise), como não respeitar a singularidade de seus colegas e as diferenças de pontos de vista ? Que não representam uma perda, mas sim, um ganho, um acréscimo, um a mais ?
Justamente por se tratar menos de uma luta teórica e mais de uma luta política, no sentido do que isso, simbolicamente, representa em termos de status, poder, etc. Mas, enfim, não é essa nossa intenção no presente trabalho. Tergiversar sobre questões político-ideológicas acerca da psicanálise e da posição dos psicanalistas...
Angela Coutinho, em seu artigo "Uma psicanálise ou muitas - algumas reflexões" coloca, com relação às leituras do texto freudiano, que "(...) diferentes tendências do pensamento psicanalítico disputam a hegemonia neste campo intelectual, pretendendo ocupar o lugar privilegiado da verdadeira psicanálise". A partir de uma "(...) representação de que cada uma por si e com exclusão de todas as demais, constituem a derivação adequada da raiz freudiana, idéia que implica na desqualificação das demais: isso não é psicanálise. Incapazes de enfrentar a diversidade, as diferentes tendências se apresentam em nome de Freud (...) consideram-se herdeiros privilegiados da herança de Freud" (grifos nossos).
Mezan já havia, no início de seu artigo, pontuado que "(...) a herança de Freud apresenta-se sob o signo da dispersão". E Colette Soler também chamou atenção para o fato de que "Freud fundador podía decir: yo no soy el único pero soy aquel que sabe mejor que nadie lo que es el psicoanálisis. Lo há escrito textualmente al comienzo de su texto sobre la Contribución a la historia del movimiento analítico", de 1914.
Ou seja: se a herança de Freud apresenta-se sob o signo da dispersão e, somente ele - enquanto fundador - poderia dizer o que é psicanálise, o que pode ser considerado como uma verdadeira psicanálise ?
Talvez nenhuma e todas as abordagens psicanalíticas. Partindo do princípio de que todas elas constituem um saber verdadeiro (não unívoco ou absoluto) frente as suas próprias questões, objetivos, recortes, referenciais, interpretações, interesses, perguntas, conceitos, enfim, frente aos seus diferentes objetos de estudo (saber aquele que, no entanto, não deve ser encarado como dogma e deve ser revisto sempre que necessário - teoria dinâmica/aberta vs. estática/fechada); mas nenhuma pode dar conta da singularidade, individualidade de cada analista.
A especificidade da psicanálise, a meu ver, reside nessa constatação.

CONCLUSÃO

Para mim, no artigo "A questão da análise leiga" (1926), Freud conseguiu - pelo menos - duas façanhas. A de reunir num só texto, os principais pontos de sua teoria - até aquele momento - de maneira clara, informal e descompromissada e a de dar margem à polissemia de leituras ( note-se que quando falo em polissemia de leituras, refiro-me à multiplicidade de interpretações permitidas pelo texto). Mais especificamente nos caps. 2 e 3, Freud possibilitou a visão de duas correntes opostas: a de Lacan e a da Psicologia do Ego.
Defende essa premissa Angela Coutinho quando no início de seu artigo nos diz que "O discurso freudiano é o eixo que funda o campo psicanalítico sendo objeto de interpretações múltiplas". E logo adiante acrescenta: "Freud construiu e mapeou o território do Inconsciente. E o fez de tal maneira que deixou aberta a possibilidade para que outros refizessem seu percurso. O mapeamento dos conceitos freudianos não é uniforme. Muitos desses conceitos são controvertidos no próprio texto, dando margem a diferentes leituras. (...) O escrito freudiano encerra inúmeras possibilidades de sentido, é polissêmico" (grifos nossos).
Essa polissemia de leituras parte da premissa de que, em qualquer texto, existem significados ocultos, latentes, subjacentes ao que está escrito. Ou seja: existe um não-dito, algo que será interpretado de diferentes maneiras, pela várias pessoas que lerem o mesmo texto. É preciso ler nas entrelinhas... E, traçando um paralelo, não é isso que nós - psicanalistas - dentre outras coisas, devemos fazer na clínica ? Buscar o significado latente do discurso do paciente ?
A experiência desse trabalho, para mim, foi extremamente rica. Confesso que não poucas vezes me percebi pensando e questionando determinados assuntos de um modo que nunca antes me havia sequer passado pela cabeça. Tais questionamentos internos despertados pela escolha de tema tão controverso, foram de um valor inestimável para mim.
Talvez justamente porque, ao fazer esse trabalho, me vi diante de - no mínimo - oito visões diferentes: a dos quatro entrevistados, dos três autores dos artigos que li (que, a sua maneira, subsidiaram, fundamentaram e incentivaram ainda mais a polêmica gerada pelo trabalho) e a minha própria. Isso para não falar em Freud e em todas as citações e demais referências que os autores fizeram.
Termino esse trabalho com a dúvida de não saber responder se considero que existe uma ou muitas psicanálises (ou apenas várias ramificações de uma única psicanálise); porém com a certeza de que, ao contrário do que se possa imaginar, não me perdi; me encontrei mais ainda. Neste momento, gostaria de me remeter à epígrafe escolhida para este trabalho: "Pensar é caminhar nas pegadas dos outros, porém com nossos próprios pés". Acho que consegui nesse trabalho dar os primeiros passos nessa direção.
E finalizando, cito Kant quando diz que "a intuição sem conceito é cega, enquanto o conceito sem intuição é vazio", aforisma que deveria nos servir de guia na clínica e ser o paradigma de todo estudo em psicanálise.

ADENDO: Após haver finalizado, deparei-me com uma citação de Confúcio, contida nos comentários do "I Ching - o livro das mutações", à qual não consegui resistir:
"Nunca a mesma água, sempre o mesmo rio.
Nunca as mesmas flores, sempre a primavera".
E acrescentaria eu de bom grado: nunca os mesmos psicanalistas (ou abordagens psicanalíticas), sempre a mesma psicanálise (freudiana).
Portanto, em princípio, parece que defini minha posição de que a psicanálise é uma só, como o tronco de uma árvore, cujos galhos são as diversas abordagens psicanalíticas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Coutinho, Angela. ( 1989 ). Uma psicanálise ou muitas - algumas reflexões (Apostila).
Freud, S. ( 1926 ). A questão da análise leiga. In: S.E. das obras psicológicas completas de S. Freud. Imago, Rio de Janeiro, 1996. v. XX, p. 173-248.
Mezan, R. ( 1987 ). Klein, Lacan: para além dos monólogos cruzados. In: A Vingança da Esfinge. Ed. Brasiliense, Rio de Janeiro, 1988. p. 244-251.
Soler, C. ( 1989 ). Clase No.1, 15 / 10 / 89. In: ? Qué Psicoanálisis ?. Coleção Orientação Lacaniana, Buenos Aires, 1994. p. 13-34.