O Avanço da Intermodalidade
Por Milton Lourenço
26/10/2009
Se o Brasil foi um dos primeiros países a sair da crise e pode
crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos, como prevê o economista Jim O´Neill,
do Goldman Sachs, criador da expressão Bric (o grupo dos grandes países
emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), vem por aí uma fase de
intensificação do comércio exterior em que brasileiros e asiáticos poderão
preencher os espaços deixados pela exuberância do consumidor norte-americano.
Diante disso, uma pergunta se impõe: como o País poderá crescer a 5% ou a um
ritmo ainda mais forte com a atual infraestrutura logística? É de lembrar que
93% das cargas transportadas no Estado de São Paulo, por onde circulam 40% da
economia nacional, continuam a seguir por via rodoviária. E que os acessos
rodoviários ao porto de Santos, responsável por 27% do comércio exterior
brasileiro, só não alcançaram ainda um estágio de estrangulamento total porque a
crise internacional afetou sobremaneira a demanda.
Sem crise, como será?
A resposta para essa pergunta só pode estar no avanço da intermodalidade, ou
seja, na restauração e ampliação da malha ferroviária e na adoção de uma
política aquaviária de grande alcance. Mas não é assim que enxergam os nossos
administradores públicos. Pelo menos é o que se conclui quando se constata que o
chamado Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) dirige 60% de seus
investimentos para o transporte rodoviário. Quer dizer: num país de dimensões
continentais e com mais de oito mil quilômetros de costa marítima, parece que o
governo ainda acredita que a saída é abrir (e asfaltar) estradas, deixando de
lado modais tão imprescindíveis como o ferroviário, o hidroviário e a cabotagem.
O problema é que o Brasil está atrasado em todos os modais. E nunca há dinheiro
que chegue. Afinal, o País não pode deixar de investir no modal rodoviário
porque tem apenas 196 mil quilômetros pavimentados de uma malha rodoviária de um
milhão de quilômetros. A título de comparação, diga-se que a Austrália dispõe de
três milhões de quilômetros asfaltados, enquanto os EUA têm oito milhões. Isso
significa que transportar contêineres ou carga geral em cima de caminhões ou
carretas é ainda uma aventura, tal o número de obstáculos, como pontes mambembes
ou caídas, estradas esburacadas, atoleiros, eixos quebrados, assaltos etc.
A solução, obviamente, seria recorrer à intermodalidade. Acontece, porém, que
tanto a ferrovia como a hidrovia e a cabotagem dispõem de estruturas acanhadas,
que têm servido, na maior parte das vezes, para transportar granéis. É verdade
que, nos últimos tempos, com a privatização da malha ferroviária, esse panorama
vem passando por mudanças e muitas indústrias já começaram a optar por enviar
seus produtos acabados dentro de uma logística intermodal, que inclui trens e
navios em território nacional.
Há quem diga que essa recente procura por vagões e embarcações é resultado da
crise internacional, que reduziu a demanda dos grãos e minérios, e que o
reaquecimento do consumo global pode levar outra vez as cargas industrializadas
a perder espaço nesses modais alternativos para commodities. A percepção que se
tem, porém, é que a intermodalidade é hoje um conceito em expansão no País, como
provam os investimentos privados na aquisição de novas embarcações e vagões. Em
outras palavras: a intermodalidade não está crescendo apenas por conta da crise,
mas constitui um conceito e uma tendência que vieram para ficar.
Portanto, o que se espera é que os operadores de transportes venham a construir
mais terminais ou plataformas logísticas que permitam a integração dos modais,
ou seja, trocas rápidas das cargas entre eles, especialmente fora da região
Sudeste, que é a única que dispõe de uma rede de terminais portuários e
ferroviários em boas condições para a distribuição de produtos industrializados.
Da parte do governo, o que se percebe é que, apesar de toda a propaganda, os
investimentos em projetos de infraestrutura necessários para o escoamento das
cargas ainda são extremamente tímidos em comparação com as reais necessidades do
País. Basta ver que um estudo da Confederação Nacional dos Transportes (CNT)
estimou que o País deveria investir R$ 280 bilhões em infraestrutura logística –
dos quais R$ 127 bilhões só em rodovias. Mas o PAC só destina R$ 65 bilhões para
todas as obras de logística. Desse jeito, convenhamos, o Brasil vai continuar a
correr atrás do prejuízo por muito tempo.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br