Cabotagem: Mais Ação
Por Milton Lourenço
25/09/2009
Num país em que a costa ocupa mais de 50% do território nacional, não é de hoje
que é incompreensível o mau aproveitamento do serviço de cabotagem. Mas como
sempre é nos momentos de dificuldades que nascem as soluções mais geniais, não é
de admirar que, nos últimos anos, tenha sido registrada uma procura crescente
por essa modalidade de transporte marítimo.
É indiscutível que o País não pode continuar com a atual matriz de transporte em
que as cargas, na maioria, são feitas por modal rodoviário. Estima-se que esse
número supere a 65%, o que significa que esse pode ser o caminho mais curto para
que alcancemos o anunciado (e temido) apagão logístico, tão logo a atual fase de
retração mundial seja superada. Basta ver que o Estado de São Paulo, segundo
dados do próprio governo estadual, concentra 93% das cargas nas rodovias, o que
vem causando numerosos transtornos para a população e para o setor produtivo.
Seja como for, para se usar uma metáfora bem apropriada ao tema, vê-se uma luz
no fundo do túnel, quando se toma conhecimento de que a cabotagem vem crescendo
20% ao ano, em função do aumento da produção nacional, especialmente de produtos
orgânicos. Segundo a Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq),
responsável por esses dados, são 32 as empresas nacionais e estrangeiras que se
ocupam de 670 mil TEUs (unidade equivalente a contêiner de 20 pés) e 129 milhões
de toneladas de carga a granel.
Mas para que esse modal evolua é preciso superar muitos obstáculos, a partir da
sua integração à navegação no interior do País, com a construção de eclusas nas
principais hidrovias e a interligação destas com os portos. Basta lembrar que,
na hidrovia Tietê-Paraná, num trecho de 100 quilômetros, é necessário vencer um
gargalo de 200 metros para que seja viabilizada a navegação com a construção de
12 eclusas, o que significa um investimento de grande monta que assusta qualquer
governo.
Se a curto prazo esses investimentos saírem do papel, não há dúvida que a
cabotagem poderá crescer ainda mais. Até porque é patente a sua competitividade
em comparação aos modais rodoviário e rodoferroviário, especialmente em relação
a tarifas e nível de segurança das cargas. Na questão tarifária, aliás, a
cabotagem tende a ser mais competitiva para cargas de baixo valor agregado, além
de constituir opção mais viável economicamente para transporte de longa
distância.
Antes de mais nada, é preciso que tanto o governo federal como o estadual
sinalizem que estão interessados em investir e facilitar o transporte aquaviário
para que a iniciativa privada invista na construção de embarcações destinadas à
cabotagem, aproveitando-se de recursos do Fundo de Marinha Mercante. Segundo a
Antaq, o setor pode investir US$ 2,3 bilhões até 2013, encomendando 44 navios.
Essa perspectiva é bem-vinda na medida em que a frota nacional apresenta uma
flagrante deterioração, com idade média de 25 anos, bastante avançada para os
padrões mundiais.
Outro problema que entrava o desenvolvimento da cabotagem é a maneira como o
governo controla o fluxo de cargas no modal cabotagem, agindo da mesma forma
como o faz em relação às cargas internacionais. Isso não tem sido muito
produtivo, pois acaba por causar atrasos e outros transtornos. É evidente que o
transporte interno, ainda que por via marítima, precisa receber um tratamento
preferencial.
Além disso, a indústria naval brasileira não pode – e não tem condições – de
entrar numa concorrência aberta com os quatro maiores armadores do mundo que
controlam 50% do mercado mundial de navegação de longo curso. Por isso, age bem
a Secretaria Especial dos Portos (SEP) quando sinaliza que o Brasil não vai
abrir a cabotagem para operadores estrangeiros que não tenham investimentos no
País.
Não se pode discordar da tese segundo a qual é preciso fortalecer a indústria
naval nacional, mas também não se pode esperar indefinidamente por esse
fortalecimento. Se isso não vier a curto ou médio prazo, então não haverá
alternativa que não seja a abertura do setor para armadores estrangeiros. O
setor precisa de mais ação.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br