Comércio Exterior - Novos Rumos
Por Milton Lourenço
05/08/2011
Um levantamento dos últimos quinze anos mostra que o comércio exterior praticado
pelo Brasil cresceu de maneira vertiginosa: segundo dados do Ministério do
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), em 1996, o País exportou
US$ 47,7 bilhões e, em 2010, US$ 201 bilhões. Mas nada disso, porém, foi
resultado de esforço concentrado da diplomacia brasileira, marcada nos últimos
oito anos por um viés ideológico que pouco contribuiu nesse sentido. Pelo
contrário.
Não houve nesse tempo nenhum esforço para reduzir barreiras tarifárias ou criar
com algum bloco ou grande país um ambiente que pudesse ampliar a penetração dos
produtos nacionais. Em outras palavras: não foi assinado nenhum acordo de livre
comércio que envolvesse um grande mercado. O Mercosul, com duas décadas de
existência, continua à espera de avanços que nunca se concretizam, depois de
muitas rodadas de negociações inócuas. Portanto, a ampliação das exportações
deu-se muito mais em função do aumento da procura internacional, especialmente
de países asiáticos e, muito particularmente, da China.
O problema é que a China só tem interesse, praticamente, em commodities. Em
razão disso, a proporção da exportação de produtos de alta, média e baixa
intensidade tecnológica vem caindo, o que significa que o País está perdendo
espaço no mercado de produtos baseados no conhecimento e na tecnologia. Não
adianta o governo brandir a previsão segundo a qual o saldo comercial (diferença
entre exportações e importações) de 2011 deverá atingir US$ 30 bilhões, quando
se sabe que essa perspectiva só existe em função da manutenção de preços altos
dos produtos agrícolas.
Ao contrário da China, que a partir da década de 1980 definiu uma estratégia de
inserção global que, hoje, dá os frutos esperados, o Brasil, ao longo dos
últimos governos, nunca mostrou uma política de expansão comercial. Geralmente,
a política comercial andou atrelada à política externa, quando o pragmatismo
indicaria que deveria ser o contrário. Isso significou uma redução na corrente
de comércio com os Estados Unidos, a maior economia do planeta e também o grande
concorrente do agronegócio brasileiro. O pior é que o governo norte-americano
vem negociando acordos com países latino-americanos, com a Coreia e a Austrália,
que podem reduzir o espaço do agronegócio brasileiro no mundo.
A falta de uma estratégia de inserção global se constata também na ausência de
um plano de reestruturação da precária infraestrutura portuária e de transporte
do País, cuja implementação é tarefa para décadas. E não só. Falta coragem
também para enfrentar problemas difíceis, como a votação pelo Congresso de uma
reforça tributária séria e colocar um fim na chamada “guerra fiscal”, que não
favorece a produção interna. Enquanto isso, a venda de produtos manufaturados
para o exterior perde participação no total exportado, pois era de 41,1% no
acumulado dos primeiros cinco meses de 2010 e agora é de 36,4%.
Portanto, está na hora de o País reagir, atacando em várias frentes, desde um
avanço diplomático em busca de novos mercados até a redução do chamado custo
Brasil, que inclui a construção de uma infraestrutura mais eficiente e menos
cara, uma carga tributária menos extorsiva e preços de energia menos
exorbitantes, entre outros temas.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br