Como obter êxito na terceirização de operações logísticas in-house?
Por Marco Antonio Oliveira Neves
26/09/2009
Operações logísticas in-house são aquelas realizadas dentro das próprias
instalações físicas do Cliente (Embarcador) e em geral tratam da movimentação e
armazenagem de materiais (em inglês warehousing), abastecimento de linhas de
produção (em inglês line feeding), montagem de kits (em inglês kitting),
embalagens (em inglês packing), etc. Por serem, basicamente, operações de
mão-de-obra intensiva, a margem de lucratividade é baixa, e compensam apenas
quando são parte de uma operação mais ampla ou quando ocorrem ganhos em escala.
Para prestadores de serviços logísticos podem ser uma excelente estratégia de
entrada em um Cliente com oportunidades potenciais. Para as indústrias é uma
ótima oportunidade para otimizar seus processos internos, evitar a imobilização
de recursos financeiros, acessar novas tecnologias e conseqüentemente melhorar a
qualidade das informações e, é claro, reduzir custos.
Ainda não são comuns no Brasil as operações in-house focadas em inteligência
logística, realizadas de forma compartilhada, que tratem da gestão dos estoques,
da administração das compras, planejamento e controle da demanda e da produção e
gestão de transportes.
Embora envolvam menor exposição a riscos econômicos e financeiros em função do
baixo comprometimento com investimentos em ativos e, em geral, maior facilidade
e rapidez na implementação por se tratar de uma operação em curso, a
terceirização de operações logísticas in-house não é um processo tão simples
quanto pareça ser. Recomendaria inclusive, aos prestadores de serviços
logísticos e Embarcadores que nunca iniciassem uma experiência de terceirização
logística através de uma operação in-house. Diferentemente de outros tipos de
desafios impostos aos prestadores de serviços logísticos, neste caso as
variáveis comportamentais e culturais, muitas vezes subjetivas, têm uma
importância decisiva.
Antes de qualquer coisa, é preciso analisar sob diferentes critérios se esta é
realmente a melhor alternativa, pois pode parecer no curto prazo a melhor
solução, mas não no médio e longo prazos. Se possível essa análise deve ser
realizada em conjunto entre o Cliente (Embarcador) e o seu atual (ou candidato)
prestador de serviços logísticos, ou com o suporte de uma consultoria
especializada. Por parte do Cliente (Embarcador) devem participar as áreas de
Recursos Humanos, Suprimentos, Industrial, Saúde, Segurança e Meio Ambiente (SSMA),
e é claro, a área de Logística. Em alguns casos a área Comercial e a área de
Tecnologia da Informação (Sistemas ou Informática) também poderão ser
envolvidas. Nos prestadores de serviços logísticos deverá haver uma
contrapartida equivalente.
A Área de Recursos Humanos analisará os temas relacionados com a legislação
trabalhista, principalmente aqueles ligados ao aproveitamento do pessoal
próprio, gastos com indenizações, impactos sociais e vínculo empregatício; a
área de Suprimentos se encarregará de verificar os aspectos contratuais dos
atuais prestadores de serviços (por exemplo, empresas que locam empilhadeiras e
mão-de-obra); a área Industrial avaliará a possível utilização da área para
futuras ampliações do parque fabril ou revisões de layout; o departamento de
Saúde, Segurança e Meio Ambiente (SSMA) estará incumbido de analisar o
cumprimento da legislação ambiental, questões de segurança e medicina do
trabalho e segurança patrimonial.
Uma vez optado pela operação in-house, dever-se-á iniciar um minucioso
planejamento da fase de implementação, utilizando as técnicas e ferramentas de
gestão de projetos, envolvendo todas as áreas mencionadas anteriormente. Atenção
especial deverá ser dada à fase de transição, tecnicamente conhecida por
phase-in, phase-out. É nela que ocorrem ou que se construirão os conflitos ou
problemas futuros.
A convivência diária e permanente entre pelo menos duas diferentes empresas pode
se tornar uma experiência negativa e fracassada caso alguns importantes pontos
não sejam atendidos. O principal deles está relacionado com a absorção da
cultura e dos valores da empresa contratante. Deve haver, por parte dos
profissionais do prestador de serviços logísticos, uma enorme capacidade de
entender e de se enquadrar à realidade cultural de seu Cliente.
A empresa deverá também estar pronta para as constantes ingerências e para a
permanente vigilância. A proximidade física e o contato diário facilitarão a
ocorrência de conflitos relacionados com a duplicidade de comando, sentimento de
perda de poder, boatarias e fofocas, intromissão no gerenciamento e excessivos
questionamentos técnicos, envolvendo profissionais do prestador de serviços
logísticos e Cliente, e até entre profissionais do próprio Cliente, e que
envolverão, direta ou indiretamente, os profissionais da empresa logística,
Nestes casos, é importante haver habilidade no relacionamento e na resolução de
conflitos, bom senso, paciência, neutralidade, profissionalismo e uma alta
capacidade de "engolir e digerir sapos". Por isso, a escolha da equipe de gestão
é crucial para este tipo de operação. Recomenda-se também a "blindagem" ou
preservação dos principais executivos e profissionais da operação para que não
ocorra o desgaste no relacionamento entre as partes.
É igualmente importante nestes casos atentar para a visibilidade das
informações. Não bastará apenas dispor de indicadores de desempenho (em inglês
KPIs - Key Performance Indicators); o prestador de serviços logísticos deverá
disponibilizar de forma confiável e constante os dados gerenciais da operação,
bem como interpretá-los, e sugerir soluções técnicas.
Visibilidade será fundamental para reduzir os pontos de conflito e por isso a
área de Tecnologia de Informação terá um papel fundamental. A solução de TI
deverá ser facilmente customizável, de fácil integração com os Clientes e os
dados deverão ser sincronizados em tempo real. A TI terá que evoluir de uma
solução transacional para uma solução analítica.
Superadas estas difíceis barreiras, o caminho estará livre para que a sua
empresa se torne um especialista em terceirizar operações logísticas in-house e
se consolide como o parceiro logístico de seu Cliente.
Marco Antonio Oliveira Neves é Diretor da Tigerlog Consultoria, Hunting e
Outplacement e Treinamento em Logística Ltda. marcoantonio@tigerlog.com.br -
www.tigerlog.com.br