Crescer com Segurança
Por Mauro Lourenço Dias
05/02/2011
Se os números do governo estiverem corretos, o Brasil registrou em 2010 um
crescimento econômico da ordem de 8%, inferior apenas ao da China.
Aparentemente, esse é um fato a ser comemorado. Mas, analisando tudo friamente,
a comemoração deve ser feita com reservas. Afinal, para crescer a 8% ao ano, o
País deveria ter se preparado mais porque qualquer analista mais isento sabe
que, a continuar nesse ritmo, não é só o fantasma da inflação que pode
ressurgir, mas a questão do apagão logístico.
Ninguém quer ver o País a vegetar em crescimento zero, mas quem conhece de
economia sabe que esse crescimento deve ser sustentável, ou seja, para crescer
sem sobressaltos e abalos, o Brasil precisaria dispor de uma infraestrutura
menos atrasada, com investimentos mais bem direcionados. E não com a perspectiva
de projetos megalomaníacos, como a construção do trem-bala entre Rio de Janeiro
e São Paulo, que só servirá a passageiros, ou a promoção de eventos mundiais,
como a Copa do Mundo de Futebol de 2014 e a Olimpíada de 2016, que trazem muita
visibilidade para o País, mas que, se não tiverem um acompanhamento seguro,
também podem levá-lo à bancarrota. Mirem-se no exemplo da Grécia, que promoveu a
Olimpíada de 2004.
Tanto isso é verdade que o novo governo passou a trabalhar com a perspectiva de
um crescimento em torno de 5% em 2011. Afinal, para crescer a 8% ou mais, seriam
necessários investimentos da ordem de 25% do Produto Interno Bruto (PIB). E,
pouco acima dessa faixa o que está é a carga tributária brasileira, da ordem de
37% do PIB, uma das maiores e mais escorchantes do mundo.
Como se sabe, boa parte dessa arrecadação é para pagar e sustentar a corte de
nababos do funcionalismo público e oferecer serviços públicos de Terceiro Mundo.
Sem contar as altíssimas taxas de corrupção, como bem sabem aqueles que fazem
relatórios para o governo norte-americano cujos teores acabam de ser divulgados
por um site independente na Internet.
Para piorar, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), se não constituiu um
fiasco completo, só conseguiu cumpriu satisfatoriamente, em quatro anos, 62% das
obras previstas, excluindo-se saneamento e habitação, que registram atrasos
ainda maiores. Basta lembrar que o governo passado admitiu que 18% dos projetos
previstos para 2010 foram adiados para 2011.
Na área de infraestrutura, já se sabe de antemão que as obras incluídas nos PACs
1 e 2 serão insuficientes para a melhoria da produtividade dos portos, pois
estão previstos investimentos de apenas R$ 15 bilhões, menos da metade do que o
próprio governo acredita que seja necessário.
Seja como for, o que se espera é que o novo governo passe a dar tratamento
prioritário à questão do reaparelhamento dos portos nacionais. Para se ter uma
idéia clara de que até aqui houve muita jogada de marketing, basta assinalar
que, em 2008, os portos receberam somente 17% dos investimentos em transportes.
Além das obras que estão apenas no papel, há atrasos consideráveis na construção
ou recuperação de píeres, berços de atracação, terminais e pátios de
estacionamento, além da necessidade de investir R$ 2,7 bilhões em obras de
dragagem e aprofundamento dos canais de navegação cujos primeiros resultados
estão previstos para o início de 2011.
Diante disso, parece óbvio que há necessidade urgente de aumentar os
investimentos e, sobretudo, executá-los de acordo com um cronograma rígido, sem
atrasos. Entre as prioridades, está uma solução para os gargalos que se
apresentam nas vias de acesso ao Porto de Santos, em função da abertura do
Trecho Sul do Rodoanel. Não vai adiantar muito voltar a crescer a 8% em 2011, se
a economia continuar a esbarrar em obstáculos para o seu escoamento.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br