O Desafio da Década
Por Mauro Lourenço Dias
09/01/2012
Não é preciso ser especialista em logística para saber que, com o atual
modelo de transportes, o Brasil não vencerá a acirrada competição com os
mercados globalizados. O governo federal sabe muito bem disso. Tanto que, em
2007, lançou o Plano Nacional de Logística e Transporte (PNLT), que prevê
uma mudança radical na matriz de transporte do País até 2027.
Se esse intento será alcançado é que não se sabe. Até porque, para que esse
objetivo fosse alcançado, o governo deveria estar investindo pelo menos 4%
do Produto Interno Bruto (PIB) em infraestrutura por ano, mas não é o que
ocorre. Quando muito, com todos os adiamentos e procrastinações que costumam
acontecer em obras públicas, vem investindo 2,5%, o que, obviamente, é um
valor insuficiente diante das necessidades que se acumulam e comprometem a
competitividade brasileira.
No caso específico do Porto de Santos, com a entrada em funcionamento das
instalações da Brasil Terminal Portuário (BTP), no antigo depósito de
resíduos sólidos, o chamado Lixão da Alemoa, em 2013, e o da Embraport, na
área continental, haverá, em três anos, uma duplicação de sua capacidade
para receber contêineres. Como hoje 97% dos contêineres são transportados em
cima de caminhões, em breve, chegar-se-á a um estágio de saturação nas vias
de acesso ao Porto, hoje já à beira do caos.
Técnicos da Secretaria Especial de Portos (SEP) estimam que, em 15 anos, o
volume movimentado de contêineres chegará a 9 milhões de TEUs (unidade
equivalente a um contêiner de 20 pés), mas, obviamente, essa é uma
estatística conservadora, pois equivale ao triplo do que já é movimentado
nestes dias. Aliás, as previsões para o Porto têm se mostrado cada vez mais
conservadoras, tal a velocidade com que a realidade supera a imaginação dos
especialistas.
É de lembrar que, em 2009, um estudo preparado pela consultoria Louis Berger
apontou para 2024 uma movimentação de 240 milhões de toneladas de
mercadorias no Porto de Santos. À época, o Porto operava 80 milhões de
toneladas. Só que hoje já opera mais de 100 milhões. Portanto, se esse ritmo
for mantido, está claro que aquela previsão será amplamente superada.
O que fazer? As saídas já são conhecidas e não passam pelo desvio de cargas
para outros portos, embora essa seja sempre uma possibilidade no horizonte.
Entre as soluções, estão o aproveitamento dos rios da região para o
transporte de contêineres em barcaças e a intensificação do uso da ferrovia,
em substituição aos caminhões. As concessionárias ferroviárias América
Latina Logística (ALL) e MRS Logística já traçam planos para que essa
possibilidade se concretize, levando em conta que, em 2012, cerca de três
mil contêineres serão movimentados por mês no interior do complexo santista.
Há, porém, obstáculos que exigirão altos investimentos: os túneis da Serra
do Mar não permitem o transporte de contêineres em double-deck, ou seja, um
cima do outro, de forma a dobrar a capacidade da composição. Além disso, há
pontes que não suportariam a passagem de tanto peso. Esse alto custo já fez
até a ALL desistir dessa opção, enquanto a MRS estuda fazer adaptações no
túnel de Conceiçãozinha, em Guarujá, e na ponte sobre o rio Casqueiro.
Conclui-se, então, que as concessionárias ferroviárias deverão investir mais
no transporte de carga geral. Hoje, mais de 40% da produção já vêm por via
férrea, sem provocar um impacto tão grande na logística do Porto como os
contêineres. Por isso, encontrar saídas para a movimentação de contêineres
no Porto de Santos será o grande desafio desta década.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br