O Desafio do Crescimento
Por Milton Lourenço
25/09/2009
SÃO PAULO -- Há um ano e meio, não havia analista das questões portuárias que
não fizesse a previsão de que o Brasil se aproximava perigosamente do chamado
apagão logístico. Afinal, o País estava atrasado em sua infra-estrutura e a
economia mundial crescia como nunca. Com a crise econômica internacional
iniciada em 2008, a previsão catastrófica, praticamente, desapareceu: quem passa
hoje pelos terminais privados do porto de Santos não pode evitar uma ruga de
preocupação ao vê-los funcionando à meia-boca, com espaços de sobra. É o sinal
dos tempos.
Não se pode, porém, imaginar que a ameaça tenha desaparecido por um passe de
mágica. Até porque a infra-estrutura do País continua deficiente. Na verdade, a
ameaça continua latente, como mostrou um recente estudo da Fundação Dom Cabral
apresentado no Fórum Econômico Mundial, realizado em abril no Rio de Janeiro.
De acordo com esse estudo, o chamado Plano de Aceleração do Crescimento (PAC)
destina menos recursos do que os necessários para equacionar os gargalos da
infra-estrutura (portos, rodovias e distribuição e transmissão de energia
elétrica). Segundo os técnicos, o caso mais grave é o dos portos, que
precisariam de R$ 15 bilhões de investimentos até 2010, mas só têm assegurados
R$ 5 bilhões.
Nos outros setores, a situação é semelhante. Em rodovias, estão previstos R$ 14
bilhões, quando são necessários R$ 25 bilhões. Para energia, o governo reservou
R$ 5,6 bilhões, mas a carência é de R$ 10 bilhões, segundo o estudo. Sem contar
o problema de gerenciamento que faz com que menos de 50% dos recursos
orçamentários sejam efetivamente aplicados. Em outras palavras: não basta ter
recursos, é preciso saber gerenciá-los e aplicá-los corretamente.
Isso significa que, se a crise passar logo, como se espera, é provável que, em
2010, o País volte a sentir as dores do crescimento, ficando outra vez à beira
de um apagão logístico. Para evitar esse cenário sombrio, seria preciso que o
governo federal aproveitasse o atual momento para investir pesadamente em
infra-estrutura, além de regulamentar a implantação do Ferroanel de São Paulo e
acelerar a implantação de novos terminais privados no porto de Santos.
Afinal, o desafio que se afigura para os próximos anos para a União e para o
Estado é multiplicar a participação das ferrovias e das hidrovias no transporte
de carga. Hoje, o governo estadual depende de uma definição pelo governo federal
das regras de concessão para apressar a construção do Tramo Sul do Ferroanel,
que circundará a região metropolitana de São Paulo e facilitará a chegada e
saída de cargas do porto de Santos. Isso é fundamental para que haja maior
equilíbrio na matriz de transporte.
Um estudo apresentado na Intermodal 2009 mostrou que o complexo portuário
santista, com a conclusão dos projetos de expansão previstos, pode alcançar, em
dez anos, uma movimentação de quase 400 milhões de toneladas de cargas por ano,
aumentando em 260% a atual capacidade de 110 milhões de toneladas de cargas
anuais. Mas é óbvio que essa movimentação não poderá continuar a ser feita tão
majoritariamente por caminhões, sob pena de se instalar o caos tanto nas vias de
acesso ao porto como nas rodovias e nas cidades e causar danos irreversíveis ao
meio ambiente.
Hoje, o transporte rodoviário responde por 93% da movimentação de cargas no
Estado de São Paulo e por mais de 80% no porto de Santos, enquanto o restante é
(mal) dividido entre ferrovias, dutos e hidrovia. O que se espera, portanto, é
que o Estado e a União saibam aproveitar o lado positivo da atual crise – que
existe – para recuperar o tempo perdido, sinalizando para a comunidade portuária
que há planos de expansão em marcha. E que não haverá obstáculos intransponíveis
pela frente.
É esse o sinal que o investidor privado quer receber do governo, pois, afinal,
sabe melhor do que ninguém que, na hora em que o mercado se recuperar, vai levar
vantagem quem estiver mais bem preparado.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br