Desenvolvimento Regional e Logística
Por Nyssio Ferreira Luz
06/01/2010
Em um país de grandes dimensões e enormes bolsões de pobreza, se faz necessário
estruturar ações que levem ao desenvolvimento regional. Uma saída que oferece
bons resultados é a estruturação das competências por regiões.
São ações simples que dependem da participação da população, organizada através
de entidades de classe, associações civis representadas e do governo. A união
desses três setores pode levar ao surgimento de uma entidade regional que
aglutine competências, a fim de colocar em prática um plano de desenvolvimento
regional.
A idéia é que essa entidade diagnostique potencialidades e debilidades locais e
faça com que as cidades participantes trabalhem unidas. Isto é: uma cidade com
vocação eminentemente turística, muitas vezes carece de produtos básicos ou boas
instituições educacionais. Já a cidade vizinha – sem nenhum atrativo turístico,
possui boas escolas. A proposta é levantar esses pontos positivos e/ou
negativos, a fim de que essas cidades possam se desenvolver em conjunto, fazendo
com que a competição deixe de existir e levando o desenvolvimento à toda a
região.
E, a partir do levantamento desses dados, é possível produzir índices relativos
à área – o chamado IDH - Índice de Desenvolvimento Humano, que será apresentado
regularmente à população, fazendo com que a sociedade tome consciência de sua
realidade e passe a cobrar ações de forma mais positiva. Esse posicionamento
atuante faz ainda com que as ações políticas sejam de longo prazo, pois estarão
embasadas em desejos e necessidades de uma sociedade mais atuante. Os índices
também facilitam a negociação com empresas interessadas em interagir com a
sociedade e que, necessariamente, vão depender dos dados de desenvolvimento
local para iniciarem quaisquer investimentos.
Quando uma cidade ou região tem sua estratégia de desenvolvimento lastreada em
Logística Territorial, portanto mais dinâmica e aproveitando de modo mais
racional e eficiente seu espaço físico, torna-se automaticamente alvo de
interesse. O resultado é a migração de empresas para lá , sem a necessidade de
uma política absurda de incentivos fiscais.
Hoje, o que vemos é uma verdadeira guerra fiscal, resultado da falta de
planejamento logístico. Os governos cedem áreas e oferecem incentivos nem sempre
suficientes, porque a região não atende todas as condições que a fábrica precisa
para se instalar. Com isso, essas cidades acabam por colher resultados bastante
negativos no médio e longo prazos:
ou as cidades passam a ter problemas de caixa para sustentar o desenvolvimento
provocado pela migração desordenada de empresas que geram problemas tais como
desgaste das vias de acesso, aumento dos gastos com segurança e falta de
capacidade para atender áreas básicas como saneamento, moradia e educação;
ou as próprias empresas percebem que os incentivos já não são o diferencial
competitivo que necessitam e simplesmente vão parar em outras plagas.
Clusters
Uma outra proposta positiva e que pode alavancar negócios sem a necessidade de
barganhas fiscais é a organização de clusters - unidades que concentram
determinados setores em uma região, incorporando a idéia de sinergia de
competências. O cluster agrega estas empresas, gera tecnologia para mantê-las e
busca novas estratégias de desenvolvimento. Esta tecnologia vem sendo difundida
pela Federação das Industrias de Minas Gerais - FIEMG
Porém, todo esse planejamento estratégico não vai levar as cidades à plenitude,
por si só, porque não há como destruir o que já está feito. Todos os efeitos do
desprezo pelo planejamento logístico nos projetos de construção e
desenvolvimento das cidades são males que teremos que remediar, e é sempre mais
difícil consertar do que fazer de novo. Se torna necessário então aplicar os
conceitos e estratégias logísticas para adequar e / ou minimizar
estes efeitos, por exemplo, na questão da Mobilidade das pessoas e de materiais.
Medidas tais como, vias de acesso, viadutos, trincheiras, desvios de tráfego
para áreas exclusivas de anel de carga, sistemas de abastecimento da área
central da cidade, com equipamentos especializados, entre vários outros,
constituem um ajuste fino do sistema.
É necessário se investir nas regiões para se ter a nova logística territorial
que irá nortear o futuro. Porém, a matéria-prima para esse trabalho inicial
constitui um verdadeiro sofrimento para os brasileiros: as estatísticas. Nossos
dados são muito pouco fundamentados e caros - pela própria falta de investimento
em pesquisas nesta área. Isso é crucial porque as estatísticas são a base de
todo bom projeto. Os números do censo compensam em parte esta deficiência.
Precisamos de vontade política, de unir forças do ponto de vista técnico, já que
existe tecnologia adequada para isso. Além de redução de custos e tempo, essa é
uma iniciativa que gera emprego por que, para uma região fazer planejamento
logístico, temos que contratar técnicos em diversas áreas, adquirir softwares,
comprar instalações e equipamentos.
Impacto Industrial
O que falta no Brasil é uma visão de médio e longo prazo. E isso gera uma falta
de perspectivas muito grande. Um bom exemplo é o de uma grande indústria que
tinha tudo para ser instalada em Minas. Tudo integrado, até a questão do resíduo
ser 100% aproveitável como produto industrial. Contudo, a empresa não pode se
instalar porque o local não estava preparado para recebê-la. Não tinha um
sistema de moradia, planejamento de transporte para suportar a nova população,
nem possibilidades analisadas como necessidade de alargar vias, asfaltar,
capacidade de saneamento. Então, como é que mais 500 pessoas irão morar nessa
cidade se não houve nenhum planejamento na região para suportar o impacto da
indústria.
O que ainda se vê são governantes assumindo o posto maior de comando da cidade
para fazer simplesmente plataforma política e populista. É preciso evitar gastos
em duplicidade – como o de muitos prefeitos que apenas refazem a fina lama
asfáltica na estrada a cada ano ao invés de trocar o asfalto ou melhor, fazer um
asfalto decente da primeira vez. São pequenos raciocínios que ajudam a mudar a
realidade. Estatística deficiente, falta de hábito de analisar os custos, tudo
isso só onera ainda mais o alto preço que pagamos ao longo do tempo.
Nyssio Ferreira Luz - nyssio@ibralog.org.br é Diretor Presidente do IBRALOG.
Formado em Engenharia Mecânica pela UFMG com especializações em Projetos
Industriais, Gestão de Materiais, Manutenção Industrial e de Equipamentos
Móveis, Suprimentos e Logística Empresarial.