Devem as Transportadoras se Transformar em Operadores Logísticos?
Por Marco Antonio Oliveira Neves
26/09/2009
Margens apertadas. Competição acirrada. Custos elevados. Clientes exigentes.
Pressão por resultados. Infra-estrutura viária precária. Falta de apoio dos
órgãos governamentais. Insegurança e impotência frente às quadrilhas
especializadas no roubo de cargas.
Esse é o atual cenário do mercado onde atuam as empresas de transporte
rodoviário de carga. Para sobreviver e crescer nesse mercado, as transportadoras
têm basicamente duas opções: a primeira é se especializar cada vez mais nos
serviços de transportes e em seus Clientes e a segunda é se transformar num
Operador Logístico e fornecer serviços de logística integrada.
Transformar-se num Operador Logístico deverá ser o caminho natural de todas as
grandes e médias empresas de transporte rodoviário de carga no médio e longo
prazo. Pesquisa recente da consultoria A T Kearney revela que aproximadamente 82
% das atividades de transportes nas empresas já se encontra terceirizada,
enquanto que a terceirização da atividade de movimentação e armazenagem de
materiais encontra-se num patamar de 32 % e a gestão de processos e sistemas em
apenas 23 %. Essa pesquisa é reforçada por outra, realizada pela Bain & Company
em 2.000, que aponta uma estimativa de crescimento de 20 % ao ano no mercado de
prestadores de serviços de logística integrada e um crescimento de menos de 4 %
ao ano no setor de transportes de carga. Recentemente o Núcleo de Estudos de
Logística da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostrou que há uma
expectativa de que a terceirização dos serviços de logística atinja até 65% de
toda carga no Brasil. Esse seria o índice de saturação do setor, que se encontra
atualmente próximo de 20 %, existindo, portanto, margem para esse mercado
triplicar de tamanho nos próximos anos.
A primeira opção é aparentemente mais simples, enquanto que a segunda parece um
sonho distante, inatingível e arriscado. Ambas as opções exigirão das
Transportadoras investimentos em infra-estrutura, pessoas e tecnologia da
informação e o seu redirecionamento estratégico.
Especializar-se nas atividades de transporte a ponto de manter-se competitivo no
mercado significa antes de tudo, se reposicionar diante do Cliente, e também
oferecer diferenciais de serviço a preços competitivos. Manter-se vivo nesse
mercado sem depender de alianças operacionais com grandes Operadores Logísticos
ou de estratégias radicais de preço é um grande desafio para as Transportadoras.
Escolhida a opção da especialização nos serviços de transportes, é recomendável:
* Investir no relacionamento com o Cliente, fazendo isso de uma forma
profissional; faça com que o Cliente crie vínculos com os valores da sua empresa
e não com os representantes da empresa. Assuma uma postura pró-ativa com os
Clientes; posturas defensivas ou reativas devem ser abandonadas.
* Repensar continuamente os processos a fim de manter-se em linha com as
expectativas do Cliente. Se possível, supere as expectativas de seu Cliente.
Procure também se antecipar sempre; tente saber antes mesmo de seu Cliente
aquilo que poderá criar-lhe dificuldades ou aquilo que possa trazer maior
fidelidade. Entenda aquilo que ele abomina e aquilo que ele valoriza.
* Investir em tecnologia de informação proporcionando ao Cliente a visibilidade
total do processo, permitindo aumentar a confiabilidade e segurança dos Clientes
nos serviços prestados.
* Monitorar constantemente o desempenho operacional da empresa com a finalidade
de realizar rapidamente os ajustes necessários para corrigir os desvios
ocorridos.
* Contratar e reter pessoal de qualidade.
* Ser flexível e ágil a ponto de desenvolver soluções personalizadas que atendam
ou superem as necessidades do Cliente.
* Desenvolver parcerias com outros prestadores de serviço, inclusive com
Operadores Logísticos.
* Investir o mínimo possível em ativos operacionais, variabilizar ao máximo os
custos e implementar uma gestão profissional das finanças da empresa.
Operadores logísticos são empresas capacitadas a prestar uma ampla variedade de
serviços logísticos, de forma integrada. São empresas aptas não só a operar, mas
também a planejar e gerenciar os processos logísticos. O “coração” do Operador
Logístico é o Departamento de Engenharia Logística. É essa a área provida de
pessoas, metodologia, ferramentas e banco de dados para o planejamento e
execução de projetos logísticos. É ela quem oferece suporte técnico para a
elaboração das propostas, para a implementação e monitoramento das operações e
quem realiza as melhorias contínuas solicitadas pelos Clientes.
No Brasil os Operadores Logísticos basicamente oferecem serviços de gestão e
operação de transportes, da movimentação e armazenagem de materiais e dos
estoques. Outras atividades podem diferenciar um Operador Logístico dos demais
como a montagem de kits sazonais/promocionais, atividades de
importação/exportação, coleta programada em Fornecedores, transporte
internacional, etc. Aqui a atividade do Operador Logístico caracteriza-se por
uma forte aplicação de tecnologia da informação, pelo baixo investimento em
ativos operacionais e pela grande utilização de terceiros na execução das
atividades operacionais, principalmente em transportes.
Pesquisa recente realizada pela TigerLog / Deloitte Consulting com 10 das 20
maiores empresas de transporte rodoviário de carga do Brasil aponta que 50 %
dessas empresas entendem que o avanço dos Operadores Logísticos é uma grande
ameaça para o setor. Os Operadores Logísticos tendem a ocupar, junto ao Cliente,
o espaço outrora pertencente ao Transportador. O contato do Transportador junto
ao Cliente deverá ser bastante limitado já que caberá ao Operador Logístico o
gerenciamento do transporte. A contratação da transportadora, a negociação e os
pagamentos do frete e o monitoramento do desempenho passarão a ser feitos pelo
Operador Logístico. Obviamente, a existência de um intermediário nesse fluxo
significará uma redução nas margens operacionais do Transportador para compensar
a remuneração do Operador Logístico pela gestão logística. Aliar-se a Operadores
Logísticos será fundamental para as Transportadoras.
Tornar-se um operador logístico pode ser a melhor opção para uma Transportadora,
principalmente:
* Se a empresa já vem desenvolvendo um leque diferenciado de serviços que
ultrapassa os limites normais de uma Transportadora e verifica a possibilidade
de maior demanda pelos mesmos;
* Quando existe uma oportunidade concreta em um Cliente atual, atrelada a um
contrato de médio ou longo prazo;
* Quando não se tornar um Operador Logístico pode se tornar uma barreira para o
desenvolvimento ou até sobrevivência da empresa;
* Quando existem recursos financeiros disponíveis para novos investimentos
Definida a transformação em um Operador Logístico, aconselha-se às
Transportadoras:
* Evitar criar uma empresa à parte, procurando aproveitar a história, a imagem e
o respeito conquistado pela Transportadora. Se desejar criar empresas
diferentes, procure aproveitar ao máximo a sinergia entre elas, evitando
duplicar estruturas administrativas e operacionais. Evite também a concorrência
entre elas.
* Não achar que basta divulgar no mercado que sua empresa agora é um operador
logístico sem se capacitar para tal. Investimentos em pessoal qualificado,
tecnologia de informação e metodologia serão fundamentais.
* Não pensar que tudo poderá ser feito com investimentos reduzidos. Simule o
orçamento para cobrir os investimentos para a capacitação da empresa.
* Não achar que da noite para o dia sua empresa se tornará um Operador
Logístico. O caminho é longo. Muitas empresas simplesmente alteram a sua razão
social ou modificam visualmente seus caminhões acrescentando a palavra Operadora
Logístico e acham que agora realizam atividades de logística integrada.
* Não pensar que poderá fazer tudo sozinho sem a formação de alianças
estratégicas.
* Não achar que planejamento estratégico é desnecessário.
Marco Antonio Oliveira Neves é Diretor da Tigerlog Consultoria, Hunting e
Outplacement e Treinamento em Logística Ltda. marcoantonio@tigerlog.com.br -
www.tigerlog.com.br