Diante do Desafio Chinês
Por Mauro Lourenço Dias
25/02/2010
Talvez tenha passado despercebida a advertência feita pelo diretor do Programa
sobre a China da Universidade George Washington, professor David Shambaugh, que
estuda a questão chinesa há 35 anos, em palestra feita em São Paulo em 2009,
segundo a qual o Brasil deveria estabelecer um plano estratégico para o seu
relacionamento comercial com a China. Para o especialista, se o Brasil não
considerar com prioridade o seu interesse nacional, deixando-se levar apenas
pelos números de seu comércio com a China, pode se transformar em neocolônia.
Os números disponíveis do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Exterior (MDIC) mostram que, apesar da crise econômica, as exportações para a
China cresceram 64,7% nos primeiros quatro meses de 2009, comparadas ao mesmo
período de 2008. Entre março e abril de 2009, pela primeira vez, a China se
tornou o maior parceiro comercial do Brasil. Olhando-se a questão pelo viés
nacionalista, pode-se imaginar logo que o professor norte-americano esteja
apenas destilando o resultado de uma dor-de-cotovelo por ter sido o seu país
desbancado pela China em seu relacionamento comercial com o Brasil. Mas em
relações exteriores esse tipo de sentimento não ajuda. Pelo contrário.
Ao Brasil, não interessa virar neocolônia da China nem dos Estados Unidos, como
diziam que éramos na década de 1960 os inflamados estudantes da Rua Maria
Antônia. Nem de país algum. Também não se pode optar pelo outro lado da moeda e
passar a culpar a China por tudo o que de mal pode vir a acontecer no cenário
econômico do País. Ora, a China precisa de matérias-primas e sai a campo em
busca de quem possa supri-la. Tem recursos e pode assumir os custos da compra.
Se isso vai transformar o Brasil em neocolônia e sucatear o parque industrial
brasileiro ou não, é problema do Brasil. Não é problema chinês.
Na era da globalização, a competição é a norma. Se o Japão e Estados Unidos
competem com a alta qualidade de seus produtos, a China entra com o baixo custo
da sua mão-de-obra. Faz parte do jogo. E o Brasil? Bem, o Brasil, como dispõe de
matéria-prima, não vai deixar de vendê-la para a China. O que precisa é se
preocupar em melhorar a competitividade de seus produtos, o que significa atacar
o chamado custo Brasil.
Se não desatar esse nó-górdio, a tendência do Brasil é vender cada vez mais
matéria-prima, correndo o risco de seguir o caminho de Chile, Venezuela,
Argentina e outros países latino-americanos cujos mercados estão amplamente
dominados pelo produto chinês. Desses países, está cada vez mais difícil trazer
uma lembrança típica porque tudo o que suas lojas vendem são produtos made in
China.
Há um ano a FGV Projetos divulgou um estudo com projeções até 2030, sugerindo
que as exportações brasileiras crescerão a uma média de 1,8% ao ano, enquanto as
importações mundiais devem evoluir a 3,7% ao ano. Os analistas levaram em conta
um crescimento do PIB brasileiro de 4,6% ao ano e aumento de 4% no consumo.
Mesmo assim, as exportações de manufaturados cresceriam apenas 2,7% ao ano,
ritmo abaixo do aumento das importações mundiais.
De acordo com as projeções, em 2030, as importações de manufaturados deverão
crescer a uma taxa de 5,6% ao ano no Brasil. O estudo prevê que, em 2030, as
importações mundiais de manufaturas totalizariam US$ 19,6 trilhões. Nesse
cenário, o Brasil teria uma participação de 0,9% com exportações de US$ 182,6
bilhões. Ou seja, a nossa participação, que hoje é de 1,1% do valor global das
importações mundiais de manufaturas, seria ainda mais reduzida. Em compensação,
haveria um crescimento vertiginoso na venda de produtos básicos, o que poderia
compensar a deterioração do saldo comercial, que hoje já é visível.
É possível que a indústria brasileira se volte com maior ênfase para o mercado
doméstico, mas nada garante que serão as indústrias aqui instaladas que irão
atender às necessidades internas. Se a manufatura nacional perde
competitividade, obviamente, o produto estrangeiro começa a ocupar o espaço. O
que fazer para reverter essa tendência? Eis o que se gostaria de ver contemplado
nos programas de governo dos candidatos que se apresentam com maiores chances de
chegar à presidência da República.
Todo mundo sabe que a falta de competitividade da manufatura nacional se dá por
uma conjunção de fatores, como custo crescente de energia, gargalos em
infraestrutura, sistema tributário escorchante e pouco investimento em pesquisa
e desenvolvimento. Só que ninguém sabe como resolver essa questão. Nem mesmo os
candidatos, pois nada falam sobre isso.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br