Do Papel do Porto ao Porto sem Papel
Por Mauro Lourenço Dias
25/09/2009
Ninguém discute que a burocracia excessiva tem grande impacto nos custos
portuários e, ao lado da falta de infra-estrutura portuária e rodoferroviária e
dos confusos e sobrepostos marcos regulatórios, constitui um dos grandes
gargalos logísticos do País. Afinal, são mais de 28 órgãos e entidades que atuam
e interferem nas atividades portuárias, tornando-se com suas exigências abusivas
e redundantes sérios obstáculos à modernização dos portos.
Por isso, não se pode deixar de saudar com entusiasmo a iniciativa da Secretaria
Especial dos Portos (SEP) de criar o projeto Porto sem Papel que prevê a
integração dos órgãos intervenientes na liberação de cargas em uma única janela
virtual, reduzindo, assim, entre 15 e 20% o tempo dispensado aos serviços. O
projeto-piloto, incluído no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), tem
recursos orçamentários em torno de R$ 19 milhões e, segundo a SEP, deverá ter
início no próximo ano.
Hoje, o que existe é um sistema burocrático herdado da época em que não havia o
mundo virtual da informática e o papel do porto na sociedade era visto de outra
maneira. Assim, vários órgãos do governo atuavam dentro dos portos fazendo cada
um o seu trabalho independente e desconectado, cobrando diferentes tarifas e, às
vezes, entrando em atrito de jurisdição. E pior: exigindo tempo adicional para a
carga e descarga dos navios. Ainda hoje é assim.
Entre os principais órgãos que atuam diretamente nos portos, estão a Agência
Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Ministério da Agricultura, Polícia
Federal, Marinha e as companhias docas, além da Receita Federal, entre outros. A
idéia do governo federal é criar um banco de dados fiscalizado pela Receita
Federal que possa abrigar todas as informações referentes à entrada e saída de
qualquer mercadoria do porto. Essas informações serão inseridas pelos usuários e
distribuídas aos programas aduaneiros, evitando a repetição na transmissão.
Dessa maneira, será esse banco de dados que irá fornecer as informações a cada
um dos órgãos governamentais envolvidos no processo, de maneira que não haja
mais necessidade de trabalho repetitivo, o que só serve para tomar tempo e
dinheiro de exportadores e importadores.
Por enquanto, a SEP está na fase de assinar convênios com cada um dos órgãos que
atuam no processo de liberação de mercadorias importadas, exportadas ou
provenientes do serviço de cabotagem, enquanto aguarda que o Serviço de
Processamento de Dados (Serpro) crie o sistema eletrônico propriamente dito que
irá facilitar o trabalho daqueles que dependem da burocracia portuária.
É claro que isso representará um avanço, mas não se pode imaginar que, a partir
do projeto Porto sem Papel, não haverá mais entraves ao comércio exterior
brasileiro. Até porque a questão é mais complexa. E explica por que a
participação mundial do Brasil não passa de míseros 1,2%. É verdade que EUA,
Europa e Japão estão em recessão e até a China já entrou em fase de
desaceleração. E num mundo assim não há como pensar em aumentar
consideravelmente as exportações.
Mas, antes da atual fase crítica da economia mundial, as exportações já estavam
crescendo apenas em valor, mas em queda na quantidade. E por que? Ora, apesar de
toda a retórica governamental, a verdade é que a economia brasileira continua a
ser uma das mais fechadas entre as nações emergentes. Em outras palavras: para
ampliar a fatia que caberia ao Brasil no comércio global, é preciso não só
desburocratizar os portos e readequar a infra-estrutura, mas reduzir o chamado
custo Brasil, o que inclui a redução da carga tributária.
Afinal, faz 15 anos que houve a última redução geral de tarifas, mas, mesmo
assim, a alíquota mais elevada ficou em 35%. Naquela época, também houve quem
pensasse que a competição dos produtos nacionais com os estrangeiros traria o
fechamento de fábricas e perda de empregos. Mas, na verdade, a abertura da
economia trouxe redução da inflação e maior eficiência à indústria e vitalidade
ao comércio. Se adotada agora, certamente, não será diferente.
Mauro Lourenço Dias é vice-presidente da Fiorde Logística Internacional, de São
Paulo-SP, e professor de pós-graduação em Transportes e Logística no
Departamento de Engenharia Civil da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br