Europa de olho no Brasil
Por Milton Lourenço
25/09/2009
Quem participou da última Intermodal South America 2009, realizada em abril, em
São Paulo, pôde constatar que, se a crise econômico-financeira mundial afetou
muitos mercados, o Brasil não está incluído entre as economias mais atingidas.
Pelo menos é o que indica a forte presença de representantes de portos da União
Europeia naquela feira, todos de olho no potencial de um país que, embora seja
responsável por apenas 1% do mercado global, dispõe de grande capacidade de
produção de insumos que podem vir a ser industrializados pelos europeus. Sem
contar que, com um mercado de 200 milhões de habitantes – embora uma parte
significativa ainda esteja excluída do mercado de consumo –, pode absorver
mercadorias de alto valor agregado produzidas no âmbito da UE.
Ao contrário da UE, os EUA só estiveram representados na Intermodal por Houston
– o que, pensando bem, não é pouco porque este porto está ligado a 80% do
território norte-americano –, ao passo que África, Ásia e Oceania nem enviaram
representações, apesar de todos os esforços do Ministério da Indústria,
Desenvolvimento e Comércio Exterior (MDIC), nos últimos anos, para diversificar
mercados, especialmente em direção ao continente africano.
Já os portos europeus estiveram presentes com estandes, procurando se mostrar
cada qual ao exportador brasileiro como a principal porta de entrada na Europa,
uma área comum de aproximadamente 500 milhões de habitantes, todos incluídos no
mercado de consumo. Entre os muitos terminais europeus presentes, estiveram
disputando cargas brasileiras portos da Holanda, França, Alemanha, Bélgica,
Espanha e Portugal, que procuram atuar como hub ports, ou seja, centros de
distribuição de mercadorias para todo o continente.
Por outro lado, os terminais portuários brasileiros também deram uma
demonstração de que não apostam numa crise muito duradoura, pois todos fizeram
questão de mostrar que continuam a investir em infra-estrutura, certos de que,
quando o momento de retração passar, vai faturar quem estiver mais bem preparado
e pronto para a retomada da economia mundial.
O Porto de Santos, por exemplo, ao contrário do que previsões mais pessimistas
indicavam, movimentou 18,9 milhões de toneladas durante o primeiro quadrimestre
do ano, o que representou um crescimento de 4,89% em relação ao mesmo período de
2008, segundo dados do MDIC. Essa evolução deu-se principalmente em razão do
incremento das exportações que registraram um crescimento de 21,58% em
comparação com o mesmo período do ano passado, resultado de 14,78 milhões de
toneladas embarcadas contra 12,16 milhões em 2008.
Os reflexos da crise se fizeram sentir mesmo nas importações que registraram uma
queda de 25,46%. No quadrimestre, entraram pelo Porto de Santos apenas 4,98
milhões de toneladas de cargas, enquanto no ano passado, no mesmo período, foram
importadas 6,68 milhões de toneladas. Por isso, a corrente de comércio registrou
um decréscimo de 15,95% no período, ou seja, US$ 22,12 bilhões contra US$ 26,32
bilhões, o que significa uma diferença de US$ 4,2 bilhões.
Os dados mostram ainda que houve uma redução no valor agregado das mercadorias
movimentadas pelo complexo portuário santista, o que deixa claro que o País
passou a ser visto mais como fornecedor de matéria-prima. De olho nos insumos
brasileiros, os europeus começam a mostrar interesse também pelo aperfeiçoamento
de nossos portos, o que significa que a participação internacional pode acelerar
de vez o reaparelhamento portuário. Já houve licitação de três portos, com
investimentos internacionais em consórcio com empresas nacionais, de acordo com
a nova legislação brasileira.
Esse despertar do interesse europeu – especialmente de holandeses e franceses –
pelo Brasil é muito bem-vindo, especialmente se isso se reverter também em
investimentos em nossos portos. Um estudo da empresa santista VKS Partex,
apresentado durante a Intermodal, mostrou que, se a China continuar a crescer a
taxas superiores a 6% ao ano, o Brasil terá de construir 81 berços de atracação,
dos quais 37 reservados a contêineres, até 2020. Por essa época, Santos estará
com uma movimentação similar à do Porto de Roterdã de hoje. Sem parcerias
internacionais, alcançar esse objetivo será muito mais difícil. Por isso, é
preciso aproveitar bem o interesse que o Brasil voltou a despertar diante do
olhar europeu.
Milton Lourenço é presidente da Fiorde Logística Internacional e diretor do
Centro de Logística de Exportação (Celex), de São Paulo-SP.
E-mail: fiorde@fiorde.com.br Site: www.fiorde.com.br